📚 “Daqui a cinco anos…” (Alessandro Machado)

Daqui a cinco anos…

O noticiário de hoje anuncia uma Super Lua, a ser vista nos céus do Brasil nesta segunda, 14 de novembro de 2016. É a maior desde 26 de janeiro de 1948.

Antes, uma breve explicação: a lua completa uma volta ao redor da terra em cerca de 27 dias. Durante esse trajeto acontecem as chamadas “fases da lua”, de acordo com a maior ou menor incidência de luz solar.

Enquanto a Lua completa suas voltas ao redor da terra, sua distância muda bastante entre seu ponto mais próximo em relação ao planeta (perigeu) e seu ponto mais distante (apogeu).

O perigeu e o apogeu da Lua acontecem em qualquer época, independente da fase da Lua, porém, quando o perigeu acontece em dia de Lua Cheia, temos o fenômeno conhecido por Super Lua.

Na sacada do meu prédio a vista é privilegiada. Do alto do 5ª andar, o horizonte parece infindável. A noite, com nuvens, parece frustrar o prelúdio de uma visão do fenômeno tão raro quanto bonito.

Minutos de ansiedade, e a sorte sorri, mostrando uma formidável Lua entre as nuvens que aos olhos contempladores de um amante da natureza, deseja que dure toda uma vida.

A Super Lua no céu traz pensamentos distantes. Transporta mente e pensamentos aos idos do ano de 1992, na ilha da magia, onde o mestre Zininho dizia que era um “pedacinho de terra perdido no mar…” onde a “Tua lagoa formosa, Ternura de rosa, Poema ao luar, Cristal onde a lua vaidosa, Sestrosa, dengosa Vem se espelhar…”

Não era a Lagoa, nem estava ao espelho do mar. Mas quem conhece a Trindade sabe, que nas lentas madrugadas sofridas, de andarilho em uma calçada de ladrilhos, olhando o céu limpo repleto de estrelas, em um pátio onde já viveram áureos tempos de garbo e galhardia uma cavalaria de Força Pública, a Lua era a companheira única, confidente e amante de um aluno oficial.

A Lua sempre era bela. A Lua, em perigeu ou apogeu, com seu brilho como um manto a cobrir no frio cortante de um vento sul invernal, ou com seus olhos distantes de diamante a piscar de longe naquelas noites quentes e sufocantes do úmido sereno que tenta lhe cobrir.

Nas mãos, uma prancheta de madeira. A caneta rabisca desenhos desconexos, entre um horário cuidadosamente anotado e outro, como um despertador humano para os alunos mais antigos.

Passos, frases, poesias, amores que a solidão inflamava, e nas dores dos membros inferiores, passos para lá e para cá. Todo plantão sabia de cor quantas lajotas havia entre o Corpo de Alunos e o palanque de formatura. Quantas almas passaram ali, quantos coturnos silenciosos em suas solas de borracha se gastaram nesse ritual quase hipnótico.

A Lua, nem sempre testemunha, escondia-se atrás de cortinas nebulosas, onde em precipitação molhava aquele a quem a caserna proibia o uso de um simples guarda-chuva. Capas serviam apenas para testar e aumentar à capacidade de resistência física e moral daquele que tinha sempre a farda e alma molhada. Militar é superior ao tempo. Bom, se não morremos devíamos ser mesmo. Mas Lua estava lá. Atrás da cortina, escondida, mas estava. Não a víamos, mas ela nos ouvia, nossas preces, lamentos, alegria e sofrimento de um primeiro ano em que tudo se fazia provar.

Foi assim para todos. A saudade do berço de formação desta profissão onde o juramento é doar a vida ao próximo, formando Policiais e Bombeiros para o sacerdócio de servir, está no peito de todos, dos que aqui estão e dos que já se foram com o dever cumprido.

Na sacada solitária, sinto meus pés formigarem, como se estivessem naquele quarto de hora. O cheiro do ipê amarelo, ao lado canhão, invade as narinas ao mesmo tempo em que a Lua some, e a realidade toma conta dos pensamentos dispersos.

Já passaram 25 anos. Parece que foi ontem, velho jargão daqueles que não viram o tempo passar, alguns singrando todo o Estado Barriga Verde em quartéis centenários, construindo quartéis novos, obedecendo, comandando, aprendendo e ensinando. Outros, em suas nobres e amadas funções, uns mais apegados outros não, contam nos dedos o tempo de parar.

Com todas as lembranças que essa Lua Cheia trouxe o que mais toca e apoquenta, desassossega o âmago, é saber que logo, em um breve soprar de tempo, inversamente proporcional ao quarto de hora do plantão, uma nova fase virá, e que restará será a saudade, as obras e o legado, daqui a cinco anos…

Alessandro Machado

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