📖 “Morfologia do amor” (Simone Gehrke)

Morfologia do amor

Amor, segundo o dicionário, é substantivo. Mas quem o conhece sabe que, na prática, também se manifesta nas outras classes gramaticais..

Amor começa e termina com interjeição: Olá! Tchau!;  muitas vezes precedido por uma sábia advertência: cuidado!

Existe um verbo que pode ser tomado como símbolo do amor. Ceder é um difícil exercício diário, que começa por coisas triviais (como abrir mão de uma manteiga com sal pela opção mais adequada à saúde do cônjuge). E se estende para escolhas mais árduas. Tipo assim, levar a vida ao sabor das vontades do(a) parceiro(a).

Um pronome? “Nós”, claro. Seguido do verbo que apresenta o que é feito em conjunto: vamos, fazemos, decidimos, mudamos. Tudo democrático, mesmo que o que é feito “contigo” nem sempre seja resultado de um consenso.

Quando se fala em numeral, a lógica aponta o cardinal “dois”. Há quem conteste que o amor, por sua extensão, não deve estar restrito apenas ao par. Outros, ainda, dão preferência aos ordinais, numa relação em que prevalece “primeiro” (eu).

Se à preposição cabe o papel de conectar dois elementos, a mais adequada aos humores do amor só pode ser “com”.

Rei das circunstâncias, o advérbio é presença obrigatória nos diálogos a dois. Das categóricas afirmação e negação às elucubrações da dúvida (talvez, porventura), passando pelas explosões dos advérbios de tempo (nunca, jamais). Tudo isso entremeado por suaves conjunções adversativas (mas, porém, todavia, entretanto).

Nem vou falar do artigo, cujo gênero predominante é o que permanece no cabo de guerra entre o casal (e onde nem sempre vale a lei do mais forte).

Chegamos, finalmente, ao adjetivo. Já foi consenso que o melhor predicado para o amor seria “eterno”. Mas desde que Vinicius de Moraes acrescentou “enquanto dure” ao termo no Soneto da Fidelidade, têm havido uma predileção por qualificações mais voláteis (efêmero, perecível…)

Eterno ou efêmero, no entanto, a morfologia do amor se repete.

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