ūüďď “Os dentes do tubar√£o” (Marcelo Lufiego)

PREF√ĀCIO

Esta é uma obra de ficção, que utiliza como pano de fundo elementos culturais.

Marcelo Lufiego

 

OS DENTES DO TUBARÃO

 

‚ÄúUm √≠ndio desceu h√° mais de mil anos, e muitas fam√≠lias ind√≠genas n√īmades com ele, n√£o de uma nave extraterrestre resplandecente, nem de uma estrela cadente, tampouco de um raio c√≥smico de luar, mas do cora√ß√£o da Amaz√īnia, onde rios gigantescos formam as maiores art√©rias da Terra, em dire√ß√£o ao distante litoral brasileiro‚ÄĚ

 

A Ocupação do Litoral Brasileiro

Primitivamente composta por povos n√īmades, a grande na√ß√£o Tupi-Guarani √© origin√°ria das selvas amaz√īnicas. Das exuberantes florestas equatoriais ao sul do grande rio, habitando originalmente os vales dos Rios Xingu e Madeira. Movidos pela necessidade, representada pelo mito da ‚ÄúTerra Sem Males‚ÄĚ, esses povos iniciaram[1] uma √©pica migra√ß√£o em dire√ß√£o √†s terras meridionais, descendo os Rios Paraguai e Paran√°, e pelo litoral, a partir da foz do Rio Amazonas, iniciando a ocupa√ß√£o pelo Maranh√£o at√© chegar ao extremo sul do Brasil. A primeira horda de ind√≠genas que se estabeleceu no litoral foram os Tupinamb√°, raz√£o pela qual s√£o considerados os ‚Äúpais de todos‚ÄĚ, sendo tamb√©m os mais conhecidos. Constitu√≠ram uma popula√ß√£o com mais de cem mil membros e ao chegarem nas terras litor√Ęneas iniciaram o combate aos habitantes mais antigos, os b√°rbaros ou tapuias, descendentes dos ainda mais longevos sambaquianos. Os Tapuia acabaram sendo expulsos, na grande maioria, para o interior ou foram dizimados.

Em 1500, quando Cabral avistou o Monte Pascoal, todo o litoral j√° estava ocupado pelos Tupi. Eram raras as exce√ß√Ķes: os Trememb√©, numa razo√°vel extens√£o de terras do litoral norte; os Aimor√©, ao sul da Ba√≠a de Todos os Santos, cercados por todos os lados de Tupinamb√°s; os Charrua, nos Pampas, ao sul de Porto Alegre, em dire√ß√£o a Buenos Aires; os n√£o menos tem√≠veis e mais respeitados na guerra, √≠ndios Goitac√°, personagens principais deste texto, ao longo das duas margens do m√©dio e baixo Rio Para√≠ba do Sul, entre Maca√© no Rio de Janeiro e o sul de Vit√≥ria, capital do Esp√≠rito Santo. Esses povos pertenciam a troncos lingu√≠sticos diversos e eram inimigos mortais dos povos Tupi, que os tratavam como b√°rbaros. Muitas fam√≠lias da grande na√ß√£o Tupi tentaram banhar-se na lagoa Goitac√°; n√£o conseguiram. Na Lagoa Feia, como √© chamada por n√≥s, apenas os jacar√©s e os guerreiros da na√ß√£o Goitac√° mergulhavam nas √°guas. Ali√°s, se necess√°rio empreender fuga, o √≠ndio Goitac√° mergulhava nas √°guas da lagoa mais pr√≥xima, onde se escondia como um verdadeiro homem-r√£, para logo em seguida contra-atacar com toda a f√ļria. No continental litoral brasileiro, o oposto dos Goitac√° eram os Carij√≥, no litoral catarinense, os mais d√≥ceis das costas sul-americanas orientais. Ao final, todos terminaram mal: a na√ß√£o Carij√≥ escravizada para a lavoura e a Goitac√° vitimada por armas biol√≥gicas[2].

 

 

Um Presente de Grego

Martim Afonso de Souza n√£o era flor-que-se-cheire; confirmem l√° em S√£o Vicente! Utilizou sua influ√™ncia junto a D. Jo√£o III, a favor de Pero de G√≥is, que assim recebeu a Capitania de S√£o Tom√©, terra dos mais ferozes canibais brasileiros, os Goitac√°! Um verdadeiro presente de grego, como puderam constatar logo em seguida. O donat√°rio ent√£o, deu in√≠cio √† tentativa de ocupa√ß√£o de suas l√©guas de terra, onde hoje temos o munic√≠pio de S√£o Jo√£o da Barra, √ļltimo baluarte de √°gua-doce, porque depois ela se torna salgada, com o desaguar do Rio Para√≠ba do Sul no Oceano Atl√Ęntico. Auxiliado por Martim Garcia, um amigo pessoal, acompanhados de cerca de tr√™s dezenas de pessoas, na ilus√£o de dias melhores, constru√≠ram r√ļsticas moradas, erguendo pequeno povoado entre o mar e a floresta, ao qual deram o nome de Vila da Rainha. Na pra√ßa, levantaram uma enorme cruz de madeira, s√≠mbolo da f√© para uns e do imperialismo religioso para outros. Ali, com o plantio das primeiras mudas, foi introduzida no Brasil a cana-de-a√ß√ļcar, que mais tarde, e sobretudo no solo massap√™ nordestino, se tornaria num dos principais ciclos econ√īmicos da hist√≥ria da economia colonial. O diminuto povoado pouco tempo resistiu aos ataques ferozes dos √≠ndios mais aguerridos do litoral atl√Ęntico sul-americano. Os que n√£o morreram flechados, fugiram abandonando tudo. O sonho com as riquezas da terra, min√©rios, drogas do sert√£o, pau-brasil, se transformou num tr√°gico pesadelo e o modesto empreendimento colonial fracassou. Resultado, ali√°s, comum em quase todas as capitanias heredit√°rias, com apenas duas exce√ß√Ķes: S√£o Vicente, do pr√≥prio Martim Afonso e Pernambuco ou Nova Lusit√Ęnia, de Duarte Coelho, que efetivamente introduziu o cultivo de cana-de-a√ß√ļcar em larga escala no Brasil. Pero de G√≥is retornou √† Lisboa e as terras ficaram abandonadas at√© o s√©culo XVII.

 

O País Goitacá

Esses √≠ndios indom√°veis, grandes corredores e nadadores, se mostraram ferozes combatentes, resistindo com determina√ß√£o, for√ßa e destreza √† grilagem das terras litor√Ęneas pela imensa na√ß√£o Tupi. Os Goitac√° habitavam uma pequena por√ß√£o do imenso litoral entre os Tupiniquim e Temimin√≥, do c√©lebre Ararib√≥ia, ao norte, e os Tamoio e Tupinamb√°, ao sul.¬† Ao poente se deparavam com a Serra da Mantiqueira, despontando a grande montanha de quase tr√™s mil metros de altitude, cuja sombra, no crep√ļsculo, se projetava a quil√īmetros de dist√Ęncia, fazendo a noite chegar mais cedo. Regi√£o lacustre, com destaque para a imensa Lagoa Feia, n√£o muito distante de onde hoje temos a cidade de Campos dos Goytacazes, numa √°rea compreendida entre Maca√©, Juiz de Fora, Muria√© e Cachoeiro do Itapemirim, o pa√≠s Goitac√° era formado por terras planas, cortadas pelo Rio Para√≠ba do Sul e pelo Rio Itabapoana, que antes de chegar na plan√≠cie costeira, ao descer precipitado as encostas da serra, formava cinematogr√°ficas cachoeiras. Terras marcadas pela presen√ßa de p√Ęntanos, alagadi√ßos, grandes lagoas e exuberante floresta ombr√≥fila densa, detentora da maior diversidade de √°rvores do mundo. Um para√≠so perigoso e selvagem, habitat da on√ßa-pintada, √†s vezes toda negra, da gigantesca sucuri e da tem√≠vel cobra-siri-malha-de-fogo[3], ainda presente nas matas remanescentes, cuja pe√ßonha apresenta devastadora a√ß√£o hemorr√°gica e neurot√≥xica, levando √† morte na quase totalidade dos casos.

Um pa√≠s paradis√≠aco e ao mesmo tempo permanentemente perigoso, com √°gua, rios, lagoas e mar. Uma terra coberta pela Mata Atl√Ęntica, repleta de goiabeiras, guajuviras, ara√ß√°s, paus-brasil, urucuns, palmitos, paus-ferro, ing√°s, jeriv√°s, canelas e um sem n√ļmero de esp√©cies frut√≠feras e sombreiras. Algumas com mais de 20 metros, mais de 30, no alto das quais a √°guia sorrateira predava o macaquinho desatento. Um bioma, antes magn√≠fico, hoje devastado pela a√ß√£o coloniza√ß√£o da lavra dos invasores portugueses e de seus descendentes, que, na verdade, somos n√≥s.

 

A Nação Goitacá

Os Goitac√° n√£o eram parentes dos Tupi; eram seus inimigos mortais. De fato, eram inimigos de todos e, quando n√£o tinham um advers√°rio externo, guerreavam entre si. Peri, para defender sua Julieta, cujo nome todos conhecem, obviamente que o amor √© mais forte que tudo na vida, n√£o hesitou em enfrentar a seus primos Aimor√©, do mesmo tronco lingu√≠stico macro-j√™ de seus pais. Peri, um Goitac√°, um Tapuia no dizer da grande na√ß√£o Tupi, √© o maior her√≥i ind√≠gena da literatura rom√Ęntica brasileira. Peri era um Goitac√° sim! E Jos√© de Alencar, porque era um rom√Ęntico, tinha todo o direito de transformar-lhe a personalidade. No lugar do verdadeiro Peri, um √≠ndio furioso e canibal, o grande escritor cearense, nos trouxe um Peri apaixonado e com os cabelos curtos, capaz de amar uma flor como se fosse o mais sens√≠vel dos poetas. Todavia, o colosso f√≠sico, a determina√ß√£o e a coragem, espelham a realidade Goitac√°.

Estou propenso a aceitar a possibilidade de que o americano John McTiernan e o austr√≠aco, depois tamb√©m americano, Arnold Schwarzenegger, em 1987, ao produzirem o filme ‚ÄúO Predador‚ÄĚ, para criar o alien√≠gena, tenham se baseado no modelo de um guerreiro Goitac√°. Notoriamente, criaram um tipo mil vezes mais feio do que esses √≠ndios neobrasileiros[4]. Contudo os tra√ßos f√≠sicos principais s√£o os mesmos. Os guerreiros Goitac√° eram os √≠ndios mais altos e fortes de todo o litoral brasileiro. Sua estatura excedia a dos √≠ndios Tupi; apresentavam uma complei√ß√£o f√≠sica vigorosa, um bi√≥tipo atl√©tico, capaz de fa√ßanhas como a que veremos a seguir, na Inicia√ß√£o do jovem Goitac√° ao status de guerreiro. Neste diapas√£o, o elemento que sacramenta a semelhan√ßa do ‚ÄúPredador‚ÄĚ com o colossal √≠ndio sul-americano √© o ornamento da cabe√ßa, raspada at√© o topo e mais al√©m, e pelas laterais e parte de tr√°s longos cabelos, esvoa√ßando no rosto. Assistam a cena.

Os cronistas do passado s√£o un√Ęnimes em relatar que eles eram os melhores corredores da mata, persistindo no folclore a ideia de que agarravam um veado na corrida. Mais uma vez o cinema americano: no final do ano de 2006, no filme Apocalypto, dirigido pelo astro Mel Gibson, vibramos com a cena na qual o protagonista, o √≠ndio Jaguar Paw[5] disputa uma corrida fren√©tica de fuga com uma on√ßa negra em plena floresta, e escapa! Mais uma vez o modelo poderia ser o de um Goitac√° correndo na mata.

Al√©m de altos e musculosos, os guerreiros Goitac√° se diferenciavam dos √≠ndios Tupi por terem uma pele mais clara, embora estivessem longe de ser brancos, registro que fa√ßo apenas a t√≠tulo de constata√ß√£o e n√£o por ser um ideal. Outra diferen√ßa fundamental: os √≠ndios Tupi eram antrop√≥fagos, comiam a carne humana com requintes ritual√≠sticos, os √≠ndios Goitac√° eram simples canibais. Para os povos da foz do Rio Para√≠ba do Sul, a carne humana era mero mantimento, devorado quase cru, e em decorr√™ncia de simples necessidade fisiol√≥gica, a fome. Ceci deve agradecer muito a Jos√© de Alencar, pelo perigo que, afinal, nunca correu, porque sentimentalmente seu Romeu era o oposto de seus irm√£os. Para os povos Tupi comer carne humana era um processo sofisticado, muito al√©m da Cerim√īnia do Ch√° praticada pelos Samurais. O Banquete Antropof√°gico[6] despertava paix√Ķes, umas controladas, outras tantas completamente descontroladas. N√£o era exatamente a carne humana o prato principal, mas a energia, a magia, o inef√°vel poder nela contido a maior das iguarias! Um canibal Goitac√° comia um bra√ßo, por exemplo, pelo motivo que j√° dissemos, a fome. Um antrop√≥fago Tupi, s√≥ comeria um bra√ßo, se fosse de um valoroso guerreiro, autor de fa√ßanhas memor√°veis, que embalassem a todos em torno da fogueira, nas noites de lua cheia e muito cauim. Hans Staden, com todo o respeito ao mito e ao servi√ßo que nos prestou registrando posteriormente os fatos vivenciados, escapou n√£o porque fosse mais inteligente ou ‚Äúbonito‚ÄĚ, mas porque era ‚Äúcag√£o‚ÄĚ, perdoem a palavra. Imaginemos aqui entre n√≥s, transportemo-nos no tempo, para imaginar a decep√ß√£o dos √≠ndios Tupinamb√°, seus captores, quando o alem√£o, n√£o sem as mais compreens√≠veis raz√Ķes, chorou como uma menina de sete anos. Tanto √© verdade, que n√£o foi ‚Äúdegustado‚ÄĚ. Um ‚Äúcag√£o‚ÄĚ! Foi o suficiente para os maiorais da Tribo se entreolharem. Contudo, n√£o se pode tirar todo o m√©rito do alem√£o, que apanhou das mulheres e crian√ßas e sofreu o ass√©dio psicol√≥gico de guerreiros cru√©is diariamente por um longo, longo tempo, quando se tem a perspectiva de morrer comido por selvagens. Assim, Hans passou exaustivamente por etapas do sofisticado ritual antropof√°gico, do qual o Banquete, o dia ‚ÄúD‚ÄĚ, que para ele nunca chegou, era a apoteose desse detalhado processo autenticado pelas mem√≥rias mais distantes de povos selvagens, mas cheios de requinte. Os Goitac√° n√£o eram requintados, eram guerreiros furiosos! Peleavam feridos e at√© a morte, como verdadeiros ‚Äúpredadores‚ÄĚ que eram.

No entanto, nos tempos sem guerra, e eram muitos, porque a vida passava na velocidade da natureza, os Goitac√°, assim como os Tupi, eram filhos do Para√≠so Terrestre. Seres humanos coloridos, que viviam nus nas florestas, no entorno das lagoas, nas restingas, nas praias, nas margens do rio, adornados por penas e plumas de p√°ssaros magn√≠ficos e com a pele recoberta pelo extrato de jenipapo. Seres humanos, sem escrita, vivendo na Idade da Pedra, mas que sabiam ler magistralmente nas entrelinhas da m√£e-natureza, que retiravam dela o complemento para a emula√ß√£o de exist√™ncias humanas plenas, sem onerar o meio-ambiente. Ao contr√°rio, eram o elo mais esplendoroso de um quadro natural fruto da imagina√ß√£o do Grande Ge√īmetra e Senhor dos Mundos.

 

A Véspera da Iniciação

Para o jovem Goitac√° chegara o momento da maioridade. A prova come√ßaria a partir de amanh√£, sempre minutos antes do crep√ļsculo, ou ao raiar do dia subsequente, e assim por quantos dias necess√°rios at√© que fosse alcan√ßado o intendo ou que o iniciando morresse tentando. Desistir sem obter √™xito seria muito pior que morrer. O risco, como todos na tribo sabiam, n√£o era pequeno; se algo desse errado, seria enorme e mortal. O peda√ßo de pau-ferro era o mesmo usado por seu pai, muitos anos atr√°s. Uma honra que repercutia entre todos, pois o jovem era filho de um famoso guerreiro, matador de inimigos poderosos. Como em toda v√©spera de um grande acontecimento, o dia seria de contempla√ß√£o, de caminhar pelas cercanias da aldeia, pr√≥xima ao local do desafio, levar os cachorros e seus irm√£os menores para passear. N√£o estava enamorado, n√£o podia arriscar que sentimentos e paix√Ķes diminu√≠ssem a precis√£o de seus movimentos, a for√ßa e destreza de seus vigorosos e √°geis bra√ßos, a capacidade de enxergar debaixo d‚Äô√°gua. Sobrevivente, o namoro viria depois, com bastante ardor e prazer. Agora, somente interessava vencer as enormes dificuldades inerentes ao rito de passagem de um jovem da tribo para o status mais elevado de guerreiro da mais temida das na√ß√Ķes ind√≠genas, os Goitac√°!

O c√©u azul e o Sol ainda muito longe do meio-dia, a agrad√°vel brisa marinha, o concerto de vozes da floresta, animaram o jovem Goitac√° a levar as crian√ßas e os cachorros para um piquenique nas cercanias da aldeia. Alguns minutos andando pela trilha repisada, ap√≥s a travessia de um estreito riacho, outeiro acima, o grupo chegou a um agradabil√≠ssimo bosque de Jeriv√°s, cujas frutinhas maduras, alaranjadas e vermelhas, faziam os indiozinhos ‚Äď e os cachorros ‚Äď salivarem de desejo. As maritacas, periquitos e papagaios j√° estavam presentes, se banqueteando no maior alvoro√ßo. Do alto do suave outeiro, o jovem √≠ndio n√£o pode deixar de fixar o olhar no local onde a partir de amanh√£ deveria enfrentar o perigo, superando o medo, para se tornar um adulto, um guerreiro, respeitado e admirado pelos parentes, que n√£o eram poucos e estavam na maior expectativa sobre o que iria acontecer. Mirou, por alguns instantes, que pareceram eternos, a cabeceira do grande rio e as ondas do mar, no encontro das √°guas. Aproveitou para n√£o pensar. Queria apenas admirar o palco daquele perigos√≠ssimo desafio. Contudo, e isso era o mais importante, sabia que estava preparado e que muitos guerreiros antes dele e n√£o t√£o fortes fisicamente, se sa√≠ram vitoriosos do porfiado combate entre o homem e a fera do mar. Confiava na pr√≥pria for√ßa e na t√©cnica que lhe fora passada e repassada muitas vezes pelos mais velhos e por todos aqueles que sobreviveram e atingiram a maioridade, al√©m do que era um ex√≠mio nadador, com o corpo moldado h√° anos para nadar com velocidade e f√īlego. O jovem Goitac√° era um √≠ndio todo ossos, todo m√ļsculos, toda for√ßa direcionada para vencer. Tinha medo, mas este sentimento s√≥ aumentava sua determina√ß√£o e desejo de superar o que parecia imposs√≠vel. Tanto √© que, mesmo com a estupefata unanimidade dos cronistas dos primeiros tempos do per√≠odo colonial, at√© hoje todo mundo duvida. Os membros da grande na√ß√£o Tupi n√£o duvidavam, sendo a carne Goitac√° a mais concorrida no Banquete Antropof√°gico. Para um Tupinamb√°, com√™-la, era adquirir instantaneamente superpoderes. Neste sentido, as for√ßas m√°gicas do mundo, tamb√©m estavam ao seu lado, simbolizadas pelo peda√ßo de pau-ferro, que n√£o chegava a dois palmos de comprimento, mas que era a √ļnica e mais poderosa arma para enfrentar o perigo, obtendo o necess√°rio para ser um homem e um guerreiro.

Amanh√£ seria o come√ßo de uma vida de guerras e de vit√≥rias ou seria o come√ßo do fim. Hoje ainda n√£o! As crian√ßas brincavam fazendo tanto barulho quanto um bando de periquitos Tiriba-de-testa-vermelha, que acabara de chegar. O entorno das boquinhas todo melado de tanto comer coquinho. Corriam umas atr√°s das outras, misturadas aos cachorros, que por sua vez estavam t√£o bem adaptados ao meio, que pareciam fazer parte da fauna aut√≥ctone das selvas Goitac√°, mas tinham chegado h√° anos com os homens de barba vindos do outro lado do mar. Alguns cupinzeiros ornavam o bosque de jeriv√°s. De repente a cachorrada, num frenesi raivoso, mas titubeante, rosnava e corria em torno de um mont√≠culo abandonado, aparentemente, pelas t√©rmitas. Os cupins, realmente, tinham ido embora, mas havia outro ocupante. Dos que rastejavam no ch√£o, o mais perigoso. Este era o trabalho dos cachorros, proteger os seres humanos, as crian√ßas sobretudo, das serpentes pe√ßonhentas. Eram preciosos auxiliares tamb√©m para manter as on√ßas afastadas. Eram, no entanto, comumente, presas de sucuris, abundantes nas lagoas e alagadi√ßos da regi√£o. Uma vez enroscados pelo gigantesco of√≠dio, raramente se salvavam. Hoje, no entanto, a cobra, que n√£o era uma sucuri, mas uma siri-malha-de-fogo, assustada, logo fugiu para o interior do monte e ningu√©m se feriu, muito menos os indiozinhos, que mesmo na tenra idade sabem que toda anormalidade √© a priori perigosa e n√£o se aproximaram. Dentre as crian√ßas, as mais velhas eram duas meninas de 8 e 9 anos, a um passo de deixar a inf√Ęncia. Ambas eram irm√£s do jovem Goitac√°. Foram elas que saciaram a sede de todos, pois traziam consigo, cada uma, a sua caba√ßa d‚Äô√°gua. O povo Goitac√°, aparentemente por supersti√ß√£o, mas no fundo devido a um ensinamento ancestral, em condi√ß√Ķes normais, n√£o tomava √°gua direto dos rios e lagoas. Saciada a sede, todos seguiram o irm√£o mais velho pela trilha conhecida, o solo totalmente gasto e comprimido, que levava at√© a beira da praia, descendo o outeiro dos jeriv√°s por uns trezentos metros pela vertente em oposi√ß√£o √†s palafitas, onde moravam. Ap√≥s quase uma hora de banho de mar, o tempo estava maravilhoso e o calor convidativo, o grupo retornou √† aldeia, fazendo pequena parada para comer os frutos de um p√© de cambuc√° ao lado da trilha. Como a jabuticaba, o cambuc√° d√° seus frutos direto no tronco, para a alegria de todos e duplo divertimento das crian√ßas. Enquanto isso . . .

 

A Patrulha Tupi

Vindos de longe, h√° dias de viagem pelas matas e pelas praias, quatro guerreiros Tupinamb√°, sorrateiros e extremamente alertas, se esgueiravam pela floresta Goitac√°. Sua miss√£o era observar e, se poss√≠vel, tirar alguma vantagem. Ao chegarem pr√≥ximos √† foz do Rio Para√≠ba do Sul, percebendo a aldeia inimiga, guerreiros experientes, procuraram um esconderijo em terreno alto, do qual pudessem ver, sem serem vistos. E assim permaneceram observando a cabeceira do rio, as praias e a parte da aldeia Goitac√° vis√≠vel do ponto onde estavam. Em sil√™ncio, faziam um rod√≠zio na espreita, permitindo que todos tivessem a vez para descansar, recompondo as for√ßas para eventual assalto aos b√°rbaros ou para o retorno ao seu pa√≠s, o mais r√°pido poss√≠vel em caso de serem descobertos. Salvo, se preferissem ficar e lutar at√© a morte certa, o que tamb√©m era uma op√ß√£o consider√°vel, desde que pelo menos um escapasse levando as informa√ß√Ķes obtidas. Ali permaneceram ao longo da tarde e da noite, observando o movimento da Aldeia e do jovem Goitac√° em especial, que, duas horas antes do nascer do dia, se dirigiu sozinho para a praia.

 

A Iniciação do Jovem Goitacá

Os primeiros raios solares despontavam no horizonte, colorindo o c√©u do oriente sobre o Oceano Atl√Ęntico. O jovem Goitac√° sabia exatamente o local prop√≠cio para mergulhar. Pr√≥ximo da cabeceira do rio, no lado sul da aldeia, quase em frente ao covil dos inimigos Tupi, que a tudo miravam atentamente e no mais profundo sil√™ncio, havia uma vala natural muito apreciada pelas tartarugas marinhas. Os guerreiros Tupi observavam sem imaginar o que pretendia o jovem Goitac√°, que de repente passou a caminhar em dire√ß√£o ao mar. Metros antes de molhar os p√©s, parou e, com o olhar no infinito, encomendou a alma para Tup√£. Trazia na m√£o um diminuto pente com tr√™s dentes feitos de espinhos de tucum[7]. Fez um pequeno arranh√£o do lado esquerdo do peito, rasgando a pele em tr√™s filetes de sangue e adentrou ao mar. Totalmente nu, levava consigo apenas o peda√ßo de pau-ferro de seu pai, muito bem seguro na m√£o esquerda.

O dia amanhecia e a visibilidade embaixo d’água ia aumentando. A visão, somada à destreza e à força, seria vital para o sucesso de sua caçada. Nadando sobre a vala que se formara há alguns anos paralelamente à praia, fez o primeiro mergulho, anunciando ao mundo marinho a sua presença pelo sangue. A profundidade não passava de poucos metros e pode examinar o entorno por vários segundos. Subiu à superfície e voltou a mergulhar, avistando agora um enorme vulto que se aproximava. Mais alguns instantes e uma Tartaruga-verde se revelou em toda a sua leveza, parecendo voar embaixo d’água. O jovem Goitacá, num rápido movimento, segurou-lhe a parte posterior e se deixou levar por uma centena de metros ao longo da vala. Não encontrou o que estava procurando. Subiu à tona para respirar. Observou a superfície do mar por um bom tempo e mergulhou mais uma vez. Nada avistou. Mergulhou várias vezes e nada. A primeira tentativa estava encerrada. Voltou para as areias da praia onde descansou, sem desconfiar daqueles espias mal-intencionados, que acompanhavam todos os seus movimentos. Os guerreiros Tupi não atacariam de dia, pois o alarido que vinha de longe, da aldeia, indicava a possibilidade de que outros inimigos andassem por ali. Permaneceriam em seu esconderijo até o cair da noite, comendo sementes, que sempre traziam consigo.

O jovem Goitac√°, ap√≥s um r√°pido descanso, o corpo quase seco, se dirigiu √† sombra das √°rvores. N√£o retornaria √† aldeia antes de completar a tarefa, tampouco seus familiares viriam √† praia. S√≥ quem podia acompanhar o iniciando at√© o local e permanecer observando eram os anci√£es da tribo. E o velho curandeiro estava l√° desde o in√≠cio. S√≥ n√£o desconfiava que tamb√©m era observado de longe pelo inimigo. Abordando seu pupilo, que descansava, com um extrato de pimenta, dentro de uma pequena ca√ßamba, adrede preparado para a ocasi√£o, untou os tr√™s arranh√Ķes no peito do jovem. Circundando o corpo do rapaz com uma dan√ßa de passos misteriosos, enquanto entoava um c√Ęntico aos deuses, salpicava-lhe a pele com uma mistura de ervas que somente ele conhecia. O corpo estava novamente fechado e a alma segura. ¬†Agora era s√≥ aguardar o crep√ļsculo. As mulheres lhe trouxeram comida e mais √°gua numa caba√ßa especial, ornada com os s√≠mbolos da menoridade. Vieram descendo a trilha aos gritos para anunciar sua presen√ßa. N√£o podiam, sob nenhuma hip√≥tese, ser vistas pelo jovem iniciando; se o fossem, sofreriam severa advert√™ncia e castigo, suspendendo-se a Inicia√ß√£o at√© que os s√°bios da tribo decidissem por faz√™-la novamente. Isso servia para os homens tamb√©m, com exce√ß√£o dos membros do Conselho de Velhos. As √≠ndias deixaram os alimentos no local de costume, antes de chegar √† praia, e voltaram correndo para a aldeia. Mais uma vez fazendo o maior alarido. Se tudo ocorresse dentro do esperado, se a fera fosse morta e conquistados os s√≠mbolos da maioridade, seria a √ļltima vez que tocaria naquela caba√ßa. A √°gua estava deliciosa; a comida tamb√©m, uma esp√©cie de ensopado de f√≠gado de veado e sangue misturado com ervas e farinha de mandioca. Passaria o resto da tarde no local, esperando aquela que seria a hora derradeira.

A tarde de ver√£o ia chegando ao final e este era um momento prop√≠cio para encontrar a fera. Teria pouco tempo at√© que a escurid√£o impedisse a continuidade da ca√ßada. Repetiu o mesmo gesto, pediu a prote√ß√£o dos deuses e de Tup√£ em especial e rasgou novamente o peito, agora no lado direito, com o pente de tr√™s espinhos. Enquanto o sangue descia sentiu uma sensa√ß√£o inquietante, como se estivesse sendo observado pelas mulheres. Olhou no entorno, mas como nada se mexia, deu os primeiros passos e mergulhou no mar. Embora o Sol j√° se encaminhasse para o poente, as √°guas ainda estavam razoavelmente claras. O jovem Goitac√° ent√£o nadou submerso e a princ√≠pio nada avistou, sen√£o uma mir√≠ade de pequenos peixes, que brilhavam pr√≥ximos √† superf√≠cie com a incid√™ncia dos √ļltimos raios de sol. Emergiu para respirar e quando mergulhou novamente percebeu um grande vulto se aproximando, atra√≠do pelas part√≠culas de sangue. De pronto, soube que n√£o era uma tartaruga, pela maneira como o bicho nadava. E a sombra vinha rapidamente em sua dire√ß√£o. Avan√ßou em dire√ß√£o a ela com toda a concentra√ß√£o poss√≠vel, quase que enxergando com a intui√ß√£o. N√£o teve medo quando, a poucos metros, identificou a fera. Os deuses haviam ouvido o seu pedido e o gigante que vinha em sua dire√ß√£o era um Tubar√£o-Cabe√ßa-Chata, a mais feroz de todas feras marinhas. Comedor de homens e tartarugas, de golfinhos e outros tubar√Ķes, inclusive da pr√≥pria esp√©cie. Que embate! Que contenda espetacular! Canibal versus canibal! Homem versus tubar√£o! Um investindo ferozmente contra o outro. No momento derradeiro, no instante do choque, a enorme boca se abriu para a mordida fatal, mas n√£o se fechou. A Inicia√ß√£o se realizava. O pau-ferro cravado no interior da boca. O tubar√£o se debatendo, girando em torno do pr√≥prio corpo e o guerreiro que nascia, segurando firme sua inesperada arma. As pontas afiadas do pau-ferro penetraram na cabe√ßa do animal, que continuou se debatendo, agora com o pavor em seus pequenos e arredondados olhos, percebendo instintivamente ter encontrado um rival mais poderoso. Um guerreiro Goitac√°, matador de tubar√Ķes! Morta a fera, as √ļltimas for√ßas foram gastas para retir√°-la das √°guas do mar.

Um jovem mergulhara, um homem saia das √°guas, um √≠ndio comedor de gente, furioso e intr√©pido guerreiro. Um matador de tubar√Ķes, como seu pai e av√ī e seu pai e av√ī, at√© que a mem√≥ria se perdesse nas long√≠nquas brumas do passado remoto. Os guerreiros Tupi, embora n√£o tenham presenciado os momentos mais terr√≠veis da batalha no fundo do mar, assistiram estarrecidos a ca√ßada do tubar√£o. Era desconcertante ver um homem entrar na √°gua e sair carregando um trof√©u tamanho. O ca√ßador de tubar√Ķes era pr√™mio muito maior do que poderiam ter sonhado com aquela incurs√£o no territ√≥rio inimigo, a princ√≠pio apenas para observar.

N√£o pensaram duas vezes e nem precisaram falar. Enquanto o guerreiro Goitac√° arrancava um a um os dentes do tubar√£o, os de cima triangulares e serrilhados e os de baixo parecendo verdadeiros pregos, s√≠mbolos e prova da maioridade conquistada, sob o olhar orgulhoso do curandeiro, um dos Tupi, sorrateiramente, aproximou-se por tr√°s do velho e rapidamente, sem nenhum ru√≠do degolou o pobre coitado. Os outros tr√™s ca√≠ram sobre o exausto guerreiro e conseguiram captur√°-lo. A noite j√° tinha ca√≠do e apenas o luar iluminava o caminho de volta. Os guerreiros Tupi tinham, portanto, uma noite de vantagem, at√© que o povo da aldeia descobrisse o acontecido na manh√£ seguinte. Com o guerreiro Goitac√° amarrado com rigor, numa esp√©cie de pau-de-arara, sendo puxado com cip√≥s pelo pesco√ßo e pela cintura, e j√° sob o flagelo dos modos violentos de seus captores, o grupo rumou com pressa em dire√ß√£o ao sul, para o pa√≠s Tupinamb√°. O ref√©m sofreria toda a sorte de inj√ļrias e maus tratos, mas n√£o poderia passar fome, nem sede, e muito menos ser ferido com gravidade. Podia apenas ser surrado pelo caminho, sem ser seriamente machucado. Era um pr√™mio muito valioso, que traria gl√≥ria e fama aos seus captores, e, com sua carne de valente campe√£o, muitos poderes √†queles que participassem do banquete antropof√°gico. E todos participariam, inclusive as crian√ßas! Tamb√©m era certo que o cora√ß√£o e os olhos estavam reservados para eles, os her√≥is captores. Pr√™mio mais do que suficiente para o risco que, a partir daquele instante, passaram a correr.

 

A Travessia da Selva

A floresta atl√Ęntica[8] – uma pequena por√ß√£o de mata, meia d√ļzia de quil√īmetros quadrados de √°rea j√° bastariam – representa para o Brasil, em termos de flora, o que os animais das sufocadas savanas africanas representam para os pa√≠ses da regi√£o, em termos de fauna. Uma diversidade campe√£ mundial! Culturalmente, temos olhos para a fauna africana, mais rica em esp√©cies de grande porte – eles de elefante e n√≥s de anta – mas n√£o enxergamos que em mat√©ria de flora os campe√Ķes somos n√≥s[9]. Para os guerreiros Tupinamb√°, contudo, viajar pela diversificada floresta era como percorrer os caminhos do jardim de casa. √Ārvores, palmeiras, brom√©lias, orqu√≠deas, samambaias, avencas, cip√≥s, entre outras plantas, todas eram familiares. Os animais eram identificados pelo som, pelo cheiro e pelos vest√≠gios deixados na mata, invis√≠veis aos nossos olhos, mas um livro de letras garrafais para os selvagens. Selvagens sim, porque viviam nas selvas[10]! Ao longo da noite, a patrulha Tupi, carregando seu valioso prisioneiro, tinha avan√ßado uma boa dist√Ęncia da aldeia Goitac√°, mas a jornada ainda seria longa. Com certeza o inimigo vinha no seu encal√ßo. O passo era apressado; o guerreiro Goitac√° tinha pequenos machucados em v√°rias partes do corpo, puxado que era, de forma grosseira, no interior da mata. Nada obstante a pressa evidente, a fuga de retorno estava bem planejada. Os guerreiros Tupi sabiam exatamente onde parar para comer, beber e descansar. N√£o fossem as v√°rias horas de vantagem, jamais escapariam dos melhores corredores das matas. O guerreiro Goitac√° fora capturado logo ap√≥s a sua Inicia√ß√£o, ainda terminando de arrancar os dentes do tubar√£o, os quais foram trazidos como rel√≠quia junto com o prisioneiro. A corrida de volta iniciou antes das 20 horas, em plena escurid√£o da noite, sendo que o corpo do velho curandeiro s√≥ seria encontrado no dia seguinte. At√© que o inimigo tomasse p√© da situa√ß√£o, achando seu rastro, teriam pelo menos umas dez horas de frente. Mais de 20 quil√īmetros. Faltariam cerca de 50 at√© as cercanias da Lagoa de Imboassica, ao sul de Maca√©, in√≠cio do pa√≠s Tupinamb√°, onde a popula√ß√£o, quase 10 vezes maior, garantiria a seguran√ßa contra os b√°rbaros, que comiam seres humanos sem observar a etiqueta e as regras sagradas da antropofagia. Eram apenas desprez√≠veis canibais, que, no entanto, ca√ßavam tubar√Ķes apenas com um pauzinho e, portanto, sua carne tinha poderes excepcionais.

A Mata Atl√Ęntica √© o bioma das esp√©cies end√™micas. A Jabuticabeira[11] √© um saboroso exemplo. Ap√≥s um dia e meio de caminhada, o Sol se aproximava do meio-dia, o grupo fez a primeira parada. Um estreito e longo riacho, que penetrava na floresta como uma art√©ria que leva vida ao corpo. Ao contr√°rio da maioria dos c√≥rregos da mata, que correm por dentro da floresta, esse corria a c√©u aberto por um longo trecho, quando s√≥ ent√£o mergulhava abruptamente no interior da selva formando uma comprida e delgada cachoeira. Nas duas margens, pequena faixa de areia, literalmente dourada sob a luz do sol, envolvida por gram√≠neas floridas e s√≥ ent√£o as primeiras √°rvores. Uma obra-prima da natureza no seio da floresta. Era o local onde a on√ßa bebia √°gua e ca√ßava. Enormes capivaras. A patrulha se aproximou em sil√™ncio, o prisioneiro tinha sido amorda√ßado minutos antes, pois sabiam que iriam parar por alguns instantes. Ainda tinham cerca de 6 a 7 horas de dia claro e s√≥ parariam bem depois do anoitecer, para descansar no m√°ximo tr√™s horas, num esconderijo escolhido e preparado na vinda. Beberam √°gua como c√£es, ou melhor, como tigres, o prisioneiro sempre vigiado. O jovem Goitac√° ao beber direto do rio, pois n√£o tinha outro jeito, sentiu que os deuses realmente estavam contrariados. Enquanto bebiam vagarosamente poucos goles d‚Äô√°gua, os Tupi se deliciavam comendo os frutos da guabiroba, os quais foram gentilmente oferecidos ao guerreiro Goitac√°, que os aceitou. As arvores frut√≠feras, mais pr√≥ximas do c√≥rrego do que da mata fechada, estavam carregad√≠ssimas de frutos, que iam do amarelo at√© o vermelho. Neste quadro natural, emoldurado pelos v√°rios tons de verde da mata e embalado pelas mil vozes da floresta, das quais sobressa√≠a o met√°lico e melanc√≥lico canto da araponga[12], a patrulha retomou a marcha, seguindo pelo riacho quase meio quil√īmetro para depois enveredar mata adentro. Ainda n√£o estavam cansados e apressaram o passo.

Chegaram no esconderijo, uma pequena gruta no alto de uma eleva√ß√£o do terreno, encoberta pela vegeta√ß√£o, por volta das 21 horas. Confiantes com a supera√ß√£o de mais essa etapa, acomodaram-se, sem esquecer de apertar bem as amarras do prisioneiro, para fazer uma refei√ß√£o e descansar n√£o mais do que tr√™s horas. No local tinha √°gua, brotando das pedras, e comida deixada ali na vinda para saciar a fome e recuperar as for√ßas para a √ļltima etapa da jornada, a mais longa, mais de trinta quil√īmetros. Enquanto dois vigiavam o guerreiro Goitac√°, dois dormiam recostados na pedra. Por volta da meia-noite, desceram a pequena encosta do morro e partiram ligeiros pela mata em dire√ß√£o ao sul.

 

A Reação Goitacá

Como de costume, bem cedo, as mulheres levaram comida para a praia. Nada obstante √† paz que aparentemente reinava, seus chamados n√£o foram correspondidos v√°rias vezes. Voltaram apressadas √† aldeia e alertaram o cacique. Guerreiros foram imediatamente verificar. Pelo menos o curandeiro deveria ter respondido! Pensaram todos. Ao chegarem no local viram o corpo do velho esva√≠do em sangue. A primeira rea√ß√£o foi correr para todos os lados, enlouquecidos. O tubar√£o tamb√©m estava l√° provando que o jovem tinha cumprido o Ritual de Inicia√ß√£o e que se tornara um guerreiro. Teria sido morto tamb√©m? Onde estaria o corpo? Passado o primeiro momento, retornaram √† aldeia aos gritos, sendo ouvidos bem antes de chegar, arrancando a todos das palafitas. A tribo, sem a necessidade de um comando, entrou em p√© de guerra. As mulheres e crian√ßas se recolheram sob a guarda de fortes guerreiros e o Conselho de Guerra rapidamente se formou. A decis√£o foi un√Ęnime: estavam em guerra, preferencialmente contra os culpados, se fossem encontrados, ou com os primeiros que encontrassem pela frente, mesmo que n√£o tivessem nada a ver com a investida inimiga. Muitos iriam morrer! O jovem guerreiro de 17 anos era descendente de poderosos guerreiros Goitac√° e o curandeiro tinha muitos filhos e crescera lado a lado com os mais velhos da tribo. Tinha quase 60 anos, uma longevidade creditada aos poderes m√°gicos da natureza. Os melhores mateiros da tribo conheciam o pa√≠s como a pr√≥pria palma da m√£o. Formaram-se oito grupos de quatro guerreiros. Quatro grupos rumaram para o norte em dire√ß√£o ao pa√≠s dos Temimin√≥ e quatro para o sul em dire√ß√£o ao pa√≠s dos Tupinamb√°. Do lado sul, foram achados tr√™s dentes de tubar√£o no in√≠cio da trilha que levava da praia at√© o alto do morro do qual se avistava parte da aldeia. Morro acima, logo descobriram, cheios de √≥dio, o local onde os inimigos haviam estado. As buscas se intensificaram para o sul, pelas praias e pela floresta. A certeza de que os assassinos e sequestradores eram os Tupinamb√° veio depois de uma hora de procura. Algu√©m havia marcado com sangue tr√™s imba√ļbas, uma depois da outra em dire√ß√£o ao sul. No escuro os guerreiros Tupi n√£o perceberam o Goitac√° se encostando propositalmente nas √°rvores. Os grupos de batedores iniciaram uma corrida fren√©tica. Mas estavam 25 quil√īmetros atr√°s e os Tupi tamb√©m sabiam se locomover na floresta, menos r√°pidos, √© verdade, por natureza, e inclusive porque o prisioneiro muitas vezes tinha que ser puxado √† for√ßa, retardando o passo. Os Goitac√° n√£o parariam nem para beber. Correriam trinta horas sem parar, se preciso fosse, e era preciso, pois compreenderam que o inimigo ia muito √† frente.

 

A √öltima Etapa da Travessia

Ap√≥s um descanso de cerca de tr√™s horas, a jornada noturna transcorreu sob fortes pancadas de chuva, aumentando o perigo e retardando a chegada. Amanheceu e a chuva passou. O c√©u se mostrava colorido pelos primeiros raios de sol de uma nova manh√£ de ver√£o nos tr√≥picos. A temperatura era de 23 graus e subiria bastante conforme as horas fossem passando. Teriam que fazer uma √ļltima parada de tr√™s horas para recompor as energias, mas antes correriam o dia todo, apenas parando poucos minutos para beber e comer algumas frutas. O jovem matador de tubar√Ķes acompanhava seus captores sem nenhum problema, apesar de amarrado no pesco√ßo e na cintura. Embora soubesse que a chance de que seus irm√£os chegassem a tempo era muito pequena, n√£o temia o cruel fim que lhe aguardava. At√© sentia uma esp√©cie de m√≥rbido prazer, pois sua morte seria gloriosa. De qualquer maneira, sabia que seria vingado atrav√©s da guerra! Ap√≥s v√°rias horas de marcha acelerada, o grupo chegou a uma lagoa paradis√≠aca. A travessia representaria um importante ganho de tempo, pois tinham, escondida na margem, uma canoa ligeira, tamb√©m utilizada na primeira etapa da jornada. Seus perseguidores teriam que atravessar a nado ou contorn√°-la, perdendo precioso tempo. Enquanto remavam, comiam lascas de carne seca, deixadas no interior da pequena embarca√ß√£o durante a vinda, precisamente para este momento. Enquanto atravessavam a lagoa, os Tupi perscrutavam atentamente o entorno, sem sequer apreciar a beleza ed√™nica do lugar. A leste, em dire√ß√£o do mar, as √°guas da lagoa desembocavam cachoeira abaixo formando um rio. Bem no centro do caminho das √°guas, no topo da cachoeira, erguia-se um poderoso rochedo, cerca de um metro acima da superf√≠cie das √°guas, sobre o qual a natureza fizera crescer uma linda palmeira.

Vencida a Lagoa da Itapeba em poucos minutos, o Sol no z√™nite, o grupo Tupi adentrou por uma trilha na mata fechada. Estavam, ainda, a um dia de casa; cerca de 20 quil√īmetros. J√° se encontravam em plena √°rea de transi√ß√£o entre os dois pa√≠ses e sabiam que os tapuias vinham acelerados em busca de seu irm√£o, o guerreiro Goitac√°, ca√ßador de tubar√Ķes. Deveriam estar a poucos quil√īmetros, mas teriam pela frente a lagoa, que os retardaria o tempo suficiente para que a fuga se completasse. Uma vez atingida a regi√£o de Imboassica, teriam conseguido o seu objetivo, pois os perseguidores teriam que enfrentar centenas de guerreiros Tupinamb√°, provavelmente recuando escondidos na mata, ao inv√©s de se exporem √† morte certa. Assim, seguiram marchando o mais r√°pido poss√≠vel, numa trilha em terreno √≠ngreme, que n√£o permitia a corrida acelerada. E, al√©m de ter que cuidar de si pr√≥prios, o ref√©m s√≥ tinha valor vivo; se ca√≠sse no precip√≠cio n√£o valeria nada, o corpo ficaria l√°, para servir de repasto √†s feras. J√° passava da meia-noite, quando fizeram a √ļltima parada. Estavam a menos de 10 horas da chegada! Todavia, precisariam recompor as energias, tomando um f√īlego, pois o √ļltimo trecho percorrido foi o mais √°rduo, com a dificuldade agravada pela chuva torrencial, que desabou ao longo da tarde. Mais uma vez, escondidos na mata, num ponto do qual observavam a trilha, comeram carne seca e beberam √°gua, que jorrava de uma nascente. Enquanto um vigiava o prisioneiro, que permanecia de olhos fechados, mas bem acordado, dois dormitaram e o quarto, o mais atl√©tico e que estava menos cansado, ap√≥s comer um naco de carne e tomar tr√™s goles d‚Äô√°gua, seguiu na frente do grupo para contatar o quanto antes as primeiras sentinelas da grande na√ß√£o Tupi.

 

O Ataque da Cobra Gigante

Boia√ßu[13], parente distante de boitat√°, vivia sob a pedra. Sua morada era a Itapeba, sob a palmeira de frutos dourados. Naquele dia havia sido acordada pelo barulho de remos na √°gua. O entardecer se aproximava, quando os ferozes √≠ndios Goitac√°, um bando de 16 guerreiros, enfim chegou √†s margens da lagoa. Rapidamente flecharam uma capivara, cortaram o corpo, para fazer o sangue escorrer, e jogaram na √°gua, a 50 metros de onde escolheram para atravessar a nado aquelas √°guas serenas e misteriosas. Rapidamente, a √°gua passou a fervilhar em torno do cad√°ver do roedor. N√£o foi poss√≠vel ver exatamente o que estava acontecendo, mas o s √≠ndios sabiam. Irritada com a agita√ß√£o provocada nas √°guas, serpenteando na superf√≠cie da lagoa como se estivesse voando, Boia√ßu e seus 300 quilos de peso, em 11 metros de cumprimento, que a tornavam a maioral da floresta, investiu contra o grupo de √≠ndios, que j√° vinha pela metade da lagoa, com bra√ßadas fortes e determinadas, apesar do cansa√ßo. Apenas 14 sa√≠ram das √°guas. O que vinha na vanguarda, mordido na cintura, morreu j√° no primeiro golpe e foi levado para o fundo. Neste √≠nterim, os Goitac√°, grandes nadadores que eram, estavam quase atingindo a margem, quando o √ļltimo do grupo foi puxado para baixo. Ainda emergiu enrolado na serpente, mas s√≥ a tempo de dar o √ļltimo gemido de dor. O abra√ßo constritor acabava de quebrar-lhe a coluna vertebral e as costelas. Boia√ßu, foi dormir mais tarde, com a barriga t√£o cheia, que s√≥ acordou dois meses depois.

Os Goitac√° n√£o choraram seus mortos; tinham ido direto para o para√≠so de Tup√£, levados pela Senhora das √Āguas Paradas, a gigantesca serpente-verde. Ap√≥s a travessia procuraram a pista do grupo Tupi e acabaram por achar a canoa. N√£o a destru√≠ram; seguiram em frente no encal√ßo do inimigo.

O Encontro dos Inimigos

A aurora dispensava a madrugada, encaminhando-a para o outro lado do mundo, e enchia o espa√ßo de m√ļltiplas cores, que vinham riscando o c√©u, logo acima do horizonte, projetando seus reflexos do oriente para o ocidente. Muito depois que a √ļltima na√ß√£o ind√≠gena fora exterminada, v√°rios poetas baianos e cariocas cantaram em verso esse quadro de cores e formas misteriosas. Enfim, os primeiros raios de sol despontavam e, hoje, seria um belo dia para matar ou morrer. Todos marchavam apressados! O primeiro Tupi, pr√≥ximo √† Imboassica, no in√≠cio do pa√≠s Tupinamb√°, j√° avistava os sinais de seus irm√£os e vinha pela trilha dando o alarme aos gritos. Dezenas de guerreiros, em torno de cem √≠ndios, rapidamente se organizaram e partiram em dire√ß√£o ao norte a fim de acudir seus irm√£os, que traziam o mais cobi√ßado dos pr√™mios. O grupo com o prisioneiro vinha cerca de tr√™s horas atr√°s e os Goitac√° a menos de cinco. N√£o pararam nenhuma vez para dormir, correram mais de 70 quil√īmetros e, pelos sinais na mata, estavam quase alcan√ßando o inimigo Tupi. As selvas estavam movimentadas de guerreiros inimigos, que em breve se encontrariam. O encontro entre os dois grupos Tupi era iminente, pois enquanto uns corriam para o sul, exaustos pela longa jornada, outros, um enorme grupo de irm√£os, corriam em sua dire√ß√£o, e com todas as for√ßas. A exaust√£o dos captores tamb√©m advinha da resist√™ncia e da morosidade do prisioneiro, que apanhou muito ao longo do trajeto, sempre sem gravidade, pois era fustigado apenas com tapas e com um peda√ßo da taquara flex√≠vel nas pernas e nas costas, de modo que apanhou, mas n√£o se feriu. Estava, sim, ferido, mas tamb√©m sem gravidade, devido aos muitos arranh√Ķes sofridos na correria. Todavia, iminente tamb√©m era o assalto dos Goitac√°.

A patrulha Tupi decidiu parar e se entrincheirar, aguardando de frente o inimigo, que j√° havia chegado, encontrando-se a menos de um quil√īmetro. A chegada de refor√ßo tamb√©m era iminente; assim, resolveram flechar alguns inimigos antes da luta corporal, que fatalmente aconteceria. Estavam estrategicamente posicionados no ponto mais alto de um outeiro; pelo lado norte vinham os Goitac√°, mas pelo lado sul j√° estava chegando o refor√ßo. O embate seria desigual, com uma centena de guerreiros Tupi para apenas 13 guerreiros Goitac√°.

A eleva√ß√£o onde se entrincheiraram n√£o passava de 200 metros de altitude, mesmo assim a parte superior n√£o era coberta por mata fechada, a vegeta√ß√£o era rasteira e arbustiva. O prisioneiro bem amarrado e amorda√ßado, foi deitado no ch√£o no lugar mais seguro, a vista de seus captores, que temiam o fogo amigo. Os Goitac√° chegaram no topo e com seu grito de guerra avan√ßaram sob as flechas Tupinamb√°. Um guerreiro foi flechado no pesco√ßo e tombou, O Tupi que o acertou foi alvejado por uma flecha que lhe entrou pelo olho direito e tamb√©m tombou. Outro foi ferido e continuou o ataque, at√© que os Goitac√° estavam em cima da patrulha Tupi, reduzida a dois guerreiros. Em segundos, estavam mortos pelas borduadas do inimigo. Neste mesmo instante, antes que o prisioneiro pudesse ser libertado, um enxame de guerreiros Tupi chegou ao topo, rapidamente cercando o prisioneiro, matador de tubar√Ķes, e entrando em choque corporal com os guerreiros Goitac√°, que foram trucidados, n√£o sem antes levar para o al√©m um n√ļmero maior de inimigos. O 14¬ļ. Guerreiro Goitac√°, que observava tudo de longe, virou o rosto para o norte e correu, como nunca correra na vida, para contar em casa tudo o que acontecera. Deve ter contado, pois meses depois estourou a guerra generalizada, com as investidas Goitac√° contra aldeias inimigas chegando a Cabo Frio, onde vivam milhares de √≠ndios da grande na√ß√£o Tupi, todos da fam√≠lia Tupinamb√°.

 

A Aldeia Tupinamb√°

Comecemos pela parte interna da oca. Mandi nasceu de um sonho, pois sua m√£e, embora virgem, deu √† luz dentro da oca. Discriminada pelo pr√≥prio av√ī, que exigia conhecer o pai, Mandi vivia dentro da oca; sua pele clara e seus cabelos loiros, mal conheciam o Sol. No entanto, todas as crian√ßas iam brincar com ela. Mandi, ainda menina, adoeceu e morreu. Foi enterrada dentro da oca. Muitas l√°grimas foram derramadas por sua m√£e e pelas crian√ßas sobre a terra onde estava sepultada. E, assim, dentro da oca, Mandi renasceu com o nome de Mandioca! A oca para o selvagem, aquele para quem a selva n√£o √© mais do que um grande jardim, extens√£o de sua casa e de seu pr√≥prio ser, que √© uma pequena parte do todo, √© o primeiro reduto aonde de certa forma a coletividade humana, pela primeira vez, se separa da natureza para iniciar o processo de encontrar a pr√≥pria identidade. A oca √© o reduto no qual os olhos s√£o fechados de verdade e o sono uma hipnose profunda. Olhando para a palha da cobertura e para os paus bem amarrados da estrutura, o guerreiro, por um momento, n√£o pensa em batalhas, em ca√ßadas, em embates contra as for√ßas antag√īnicas da natureza e do sobrenatural. Num instante, o selvagem guerreiro, afinal um comedor de carne humana, se torna no homem que pensa, que sente, se torna no fil√≥sofo, que j√° vem programado no DNA humano, mas que ele pouco compreende.

A oca, em tr√™s palavras definitivas, protege da chuva! A casa √© a floresta, o p√°tio √© a taba, o campinho √© a ocara e o quarto-de-dormir √© a oca! Eis o mundo do povo Tupinamb√°. A porta da oca √© feita em forma ogival; passemos por ela. Estamos na ocara, a pra√ßa onde tudo acontece. As mulheres preparam grande quantidade de cauim, bebida fermentada a base de mandioca. Mastigam, mastigam e cospem na caba√ßa. Al√©m de muito apreciado periodicamente, o cauim far√° parte do ritual, que se aproxima. Muitas delas, em cintas de algod√£o, carregam nas costas os curumins. Totalmente nuas, t√™m os cabelos longos, √†s vezes entrela√ßados em uma ou duas longas tran√ßas descendo sobre as costas. Uma √≠ndia mais velha, com os seios muito ca√≠dos, o que lhe conferia alto grau de respeitabilidade, ornava a ibirapema[14], delicadamente com um pincel feito de pena, com cores vivas, e grande destaque para o vermelho. Alguns rapazes avivavam a fogueira, que se mantinha h√° anos no mesmo ponto central do terreiro, em torno do qual as hist√≥rias eram contadas e as decis√Ķes mais dif√≠ceis eram tomadas. Em torno da ocara a taba, o conjunto de ocas, que constitu√≠am a aldeia ind√≠gena. Em todas as dire√ß√Ķes havia sa√≠das que levavam para a lagoa, para o mar e para a floresta.

 

O Ca√ßador de Tubar√Ķes

Os guerreiros Tupi, em bem maior n√ļmero, venceram o confronto com os Goitac√°, e traziam exultantes o seu trof√©u. Tr√™s dos quatro membros da patrulha avan√ßada estavam mortos; apenas o batedor, que cumpriu com honra a sua tarefa, sobreviveu √† perigosa miss√£o. A ele caberia a primazia no banquete antropof√°gico e, at√© l√°, o matador de tubar√Ķes ficaria sob os seus cuidados. Euf√≥ricos, assim que cruzaram a linha de entrada da aldeia, desamarraram o prisioneiro, mantendo apenas a corda na cintura, que, livre das amarras no pesco√ßo, m√£os e bra√ßos, passou a bradar:

РEu sou o vosso inimigo! Eu sou o vosso inimigo! Minha intenção é matar a todos! Eu sou um guerreiro Goitacá!

Foi o suficiente para que os √Ęnimos se inflamassem quase que descontroladamente. As mulheres e crian√ßas cercaram o Goitac√°, proferindo toda a esp√©cie de improp√©rios. Sob o olhar dos homens, passaram a surr√°-lo com varas de taquara e tapas. As crian√ßas e adolescentes imitavam. Depois de t√™-lo fustigado por mais de uma hora, as √≠ndias se desinteressaram do prisioneiro. Foi libertado de todas as amarras, e a partir de ent√£o passou a ser o convidado de honra de um grande banquete. Estava totalmente livre de amarras e andava solto pela aldeia. Iria dormir na oca de seu captor e com a mulher dele. Sua miss√£o era engravid√°-la. A crian√ßa seria criada como filha da tribo, mas um dia, quando crescesse, tamb√©m seria comida, pois carregaria o sangue do matador de tubar√Ķes.¬† Embora n√£o conhecesse os detalhes dos rituais de seus captores, sabia que a honra n√£o permitia que fugisse; desonraria a todo o seu povo. Ademais n√£o era de seu interesse simplesmente fugir. Ser sacrificado como um super-homem lhe garantiria um lugar no para√≠so junto a Tup√£, velho pai de todos os √≠ndios, Tupi ou Tapuia.

Os dias foram passando. A √≠ndia Tupi, mulher de seu captor, com os dentes do tubar√£o sacrificado, fez um esplendoroso colar para o guerreiro Goitac√°, que ao receb√™-lo, colocando-o no pesco√ßo, se sentiu ainda mais poderoso; se quisesse poderia fugir da aldeia, mataria v√°rios guerreiros e iria embora. Contudo, n√£o queria! Passou a conviver com seus captores, sob o olhar de todos, pois era mais alto, mais forte, tinha a pele mais clara, intrigando as √≠ndias, e ostentava um colar de dentes da mais perigosa fera do mar, o Tubar√£o-cabe√ßa-chata, temido por todos. Mais de uma √≠ndia, no sil√™ncio da noite, com a coniv√™ncia da mulher de seu captor, adentrou discretamente na oca para dormir com ele; seus genes ficariam por muito tempo misturados ao sangue Tupinamb√°. Os homens sabiam e, ao contr√°rio de n√£o gostar, ficavam satisfeitos com a mistura de ‚Äúsangue‚ÄĚ. Naquele para√≠so primitivo, o sexo n√£o estava associado a tabus, muito menos ao ego dos seres humanos, era algo simples e sem vergonha.

 

Quase Hora do Banquete

Os maiorais da tribo marcaram a data do banquete antropof√°gico, escolhendo a noite de lua cheia. Os dias e noites passariam rapidamente. A tribo estava euf√≥rica com a aproxima√ß√£o de t√£o importante evento. O convidado Goitac√° recebia as melhores iguarias como alimenta√ß√£o e o rod√≠zio noturno de √≠ndias se intensificara. Faltando tr√™s dias para o plenil√ļnio, tudo mudou. O Goitac√° foi novamente amarrado e confinado numa oca vigiada. Na v√©spera do banquete, guerreiros e √≠ndias, sorvendo litros de cauim, dan√ßavam, cantavam e bradavam como que enlouquecidos, em torno de uma imensa fogueira. No entorno da aldeia e ao longo da pali√ßada defensiva, sentinelas de arco e flecha e borduna, mantinham tudo sob atenta vigil√Ęncia. A rede de postos avan√ßados tamb√©m estava mais atenta do que nunca. A tribo festejava na cerim√īnia do cauim, at√© cair, mas estava bem ciente do perigo representado pelos inimigos, agora furiosos e em p√© de guerra, menos pela perda de guerreiros em combate, muito mais pelo desaforo do sequestro e pelo assassinato covarde do velho curandeiro. A vingan√ßa n√£o seria um prato frio, mas viria pegando fogo. Ali√°s, numa guerra generalizada, pois as patrulhas Goitac√° que seguiram para o norte, acabaram entrando em conflito com os Temimin√≥, que nada tiveram a ver com os fatos, e muitos guerreiros acabaram mortos.

O dia t√£o esperado amanheceu. Exceto pela guarda, a aldeia estava dormindo; muitos √≠ndios e √≠ndias dormiam no pr√≥prio local da festa, em torno da fogueira permanentemente acessa. Apenas uma oca se manteve longe do festim. Dentro dela um imp√°vido guerreiro, o carrasco do Goitac√°. Sentado ritualisticamente, com o corpo totalmente coberto de jenipapo, exceto onde tinha suas magn√≠ficas tatuagens, o executor do golpe final, apenas esperava a passagem das horas e o chamado do cacique, para a execu√ß√£o de sua honrosa tarefa. As √≠ndias mais velhas cuidavam de tudo, pois as jovens e os homens ainda se recuperavam do porre da noite anterior. Um enorme moqu√©m triangular, feito de peda√ßos de pau-ferro j√° estava devidamente preparado, esperando partes do corpo do guerreiro Goitac√°. Tudo estava pronto! As caba√ßas para recolher o sangue escolhidas e separadas, a ibirapema exposta em lugar de destaque, com as cores variadas, brilhando sob o Sol dos tr√≥picos. No meio da tarde o prisioneiro foi retirado da oca, e libertado de suas amarras; o povo todo reunido, saboreando o momento √≠mpar. A prova de coragem teria in√≠cio. Enquanto tinha o corpo besuntado por uma esp√©cie de extrato de pimenta e outras ervas que n√£o identificou, lembrou do curandeiro, seu velho professor. Estava mentalmente preparado para enfrentar numa luta de borduna tr√™s bravos oponentes. Na verdade, existiam, dentre o povo numeroso, guerreiros de porte atl√©tico, mas acreditar que todos eram assim √© crer num mito. Muitos √≠ndios eram magros ou tinha uma complei√ß√£o f√≠sica certamente distante do ideal renascentista, embora a maioria esmagadora gozasse de boa sa√ļde. No entanto, para aquela peleja ritual√≠stica de morte, tinham sido escolhidos tr√™s vigorosos guerreiros. Depois de minutos de luta, os tr√™s estavam mortos, com os cr√Ęnios esmagados e os miolos espalhados no ch√£o, para repasto dos cachorros. Terminado o combate, o guerreiro Goitac√° devolveu gentilmente a borduna, foi amarado pela cintura e novamente desafiou aos brados o povo em sua volta. ‚Äď Eu sou o vosso inimigo . . . a como√ß√£o foi geral e ruidosa, com gritos de guerra reverberando pelo espa√ßo da taba ensandecida.

Anoitecia, no horizonte, sobre o mar não muito distante, uma Lua vermelha gigantesca impressionava até mesmo aos mais velhos. O guerreiro carrasco foi chamado protocolarmente pelos oficiais do cacique, três índias rechonchudas e sorridentes, acompanhadas de uma velha rabugenta.

 

O Golpe Fatal

O povo abriu passagem para o guerreiro carrasco, aquele sim, um √≠ndio todo f√≠sico, multicolorido, a pele brilhosa sob o plenil√ļnio, todo orgulho de sua fun√ß√£o ritual√≠stica, todo f√© em sua cren√ßa m√≠stica. No ponto geom√©trico por todos conhecido, apanhou o tacape sagrado e numa fra√ß√£o de segundos, quando reinou o mais profundo sil√™ncio, desferiu um golpe violento na cabe√ßa do guerreiro Goitac√°, que n√£o morreu e, mesmo com o sangue esguichando literalmente de seu cr√Ęnio fraturado, teve for√ßas para pular no pesco√ßo de seu carrasco. Por pouco n√£o o estrangulou. O matador de tubar√Ķes foi rapidamente puxado pela cintura e recebeu o segundo golpe, agora mortal, com o esfacelamento da cabe√ßa de um super-homem. O pesco√ßo e os membros foram rapidamente cortados e virados para baixo para escorrer o sangue, que √≠ndias atent√≠ssimas recolhiam nas caba√ßas. Os miolos tamb√©m foram recolhidos, juntamente com as v√≠sceras, depois de limpos os intestinos, tudo iria para as grandes caba√ßas levadas ao fogo. Um ensopado, com carnes de um bravo, digno de Tup√£, o deus do bem! Os dois olhos foram dados para o √ļnico sobrevivente da patrulha captora, que os comeu crus e passou a enxergar o mundo com a vis√£o de um matador de tubar√Ķes. O carrasco, abalado com a necessidade de dois golpes, foi tratar das dores no pesco√ßo. As √≠ndias iniciaram o servi√ßo do cauim, para alegria pr√≥pria e dos guerreiros. Os velhos tamb√©m iriam beber at√© cair.

 

O Banquete Antropof√°gico

Exceto o cora√ß√£o, dado ao cacique pelo √ļnico sobrevivente da patrulha captora e algumas gl√Ęndulas retiradas pelos pr√≥prios curandeiros, sob a supervis√£o do paj√©, um velho, considerado imortal pela maioria, pois tinha mais de 70 anos, caso extraordin√°rio em todas as aldeias, as v√≠sceras e o sangue foram para a panela, e os membros e partes do tronco, os gl√ļteos e parte da cabe√ßa, o que sobrada, depois de duas violentas bordoadas, foram para o moqu√©m. O fogo ardia, mas tudo seria comido quase cru. Todos, sem exce√ß√£o, inclusive as crian√ßas, pareciam ter entrado em estado de transe, externado por uma alegria incontida, quase descontrolada, com o alarido subindo alto no c√©u e invadindo a mata quil√īmetros a dentro. Os bra√ßos foram servidos aos principais guerreiros. O restante da carne, pouco passada, aos demais guerreiros, mas toda tribo ganhou um bocado das partes cozidas, misturadas ao sangue do Guerreiro Goitac√°.

Ao amanhecer todos dormiam; cachorros latiam ao longe, quebrando o sil√™ncio, as vozes da floresta, que na verdade nunca silenciam totalmente, voltavam a ser ouvidas com intensidade e, no centro da ocara, como s√≠mbolo da cren√ßa at√°vica, o colar de dentes de tubar√£o, que mal pertencera ao her√≥i desta hist√≥ria, mas que ficaria para a posteridade como um aviso de que ali moravam √≠ndios Tupinamb√°, comedores do comedor de tubar√Ķes. Todavia, aquela tranquilidade duraria pouco, pois estava sendo preparada, pelos inimigos . . .

A guerra dos Matadores de Tubar√Ķes contra todos os povos!

 

CONCLUSÃO I

A Europa Culpada

Apresento-vos uma vis√£o tupinoc√™ntrica, em contraposi√ß√£o ao eurocentrismo de sempre. Em primeiro lugar, os selvagens s√£o assim chamados porque eram os habitantes das selvas e n√£o porque comiam carne humana, sen√£o todos ser√≠amos selvagens, pois o canibalismo foi praticado no continente europeu at√© a Segunda Grande Guerra (1945) e, pelo que soubemos, aqui perto, na Cordilheira dos Andes, h√° poucos anos atr√°s. Os Goitac√° tamb√©m comiam carne humana para matar a fome, e a vis√£o paradis√≠aca que temos das selvas, n√£o garantia a eles a quantidade necess√°ria de alimentos vegetais e animais. N√£o podemos julg√°-los com os olhos de nossa cultura, assim como n√£o podemos julgar os √ļltimos europeus canibais pelos seus motivos. O que se faz aqui √© apenas destacar o fato, desfazendo o mito. A grande na√ß√£o Tupi, por seu turno, al√©m de alimentar-se, proporcionava ao devorado uma sensa√ß√£o parecid√≠ssima com a de um viking passando pelas portas de Valhala, e, ao inv√©s do que fez Jac√≥, subindo a longa escada at√© o ponto no alto, fulgurante, todo luz magn√≠fica e adentrar o Grande Sal√£o, passando entre duas gigantescas est√°tuas de guerreiros ind√≠genas, todo rocha, todo min√©rio, todo pedra! At√© aqui todos somos culpados e inocentes. Contudo, uma culpa longeva persiste! Assim como os Charrua dos Pampas, a na√ß√£o Goitac√° n√£o se dobrou aos inimigos, tampouco aos barbudos e fedorentos europeus. Impotentes, os invasores ditos civilizados, utilizaram armas qu√≠micas contra os Goitac√°, exterminado a brava e ind√īmita na√ß√£o ind√≠gena. Todos os historiadores e pesquisadores s√©rios conhecem a Hist√≥ria do Brasil, principalmente a parte que n√£o √© valorizada, que passa despercebida pelos desapercebidos de plant√£o.

 

CONCLUSÃO II

O Brasil Culpado

Do para√≠so selvagem da ind√īmita na√ß√£o dos matadores de tubar√Ķes, nada restou. Na verdade, boatos dizem que o colar de dentes de tubar√£o ainda existe, se tivermos tempo, vamos procur√°-lo. Parece que tamb√©m restou uma est√°tua numa pra√ßa da cidade de Campos dos Goytacazes, aquela banhada pela Lagoa Feia. A est√°tua caiu e foi jogada no quintal de uma Secretaria Municipal? I-na-cre-di-t√°-vel! Esperemos que a Prefeitura tenha feito o devido restauro. Se algu√©m souber de alguma coisa, favor avisar . . .

Entrementes, nossa culpa n√£o √© essa. √Č muito mais grave, com consequ√™ncias nefastas para n√≥s mesmos, o povo brasileiro, cuja gravidade, infelizmente, a maioria sequer imagina. N√£o lembro o nome do professor, mas algu√©m lecionou que ‚Äúabrimos m√£o da exuber√Ęncia em troca da paisagem . . . do espa√ßo‚ÄĚ. Os nossos irm√£os selvagens foram assassinados covardemente pelos europeus, no caso dos Goitac√°, com o v√≠rus da var√≠ola, uma moda que, se pega, p√Ķe a humanidade √† beira do exterm√≠nio e d√° todo o poder para um √ļnico povo. Infelizmente, nada podemos fazer quanto aos Goitac√°. Contudo, meus caros leitores, se tendes siso, concordareis comigo: o bioma chamado Mata Atl√Ęntica, a flora que o estrutura e comp√Ķe, a fauna que o enriquece e permite crescer, por exemplo quando a paca come o fruto do jatob√° e leva sua semente longe para germinar, jatob√° de cujas flores dependem os morcegos, que se alimentam do p√≥len, a maior biodiversidade da Terra, enfim, o maior conjunto de fitofisionomias, a terra dos muriquis, das panteras, o bosque das 20 mil esp√©cies de √°rvores, o maior conjunto de angiospermas, o bioma top do planeta Terra, este sim, era e √© de nossa inteira responsabilidade e n√≥s somos os culpados por sua catacl√≠smica devasta√ß√£o.

 

Fim, até que chegue a guerra nas selvas do Brasil . . .

 

[1] Segundo Eduardo Bueno, no in√≠cio da Era Crist√£, portanto h√° dois mil anos, levando v√°rios s√©culos nesta dantesca jornada at√© chegar no litoral atl√Ęntico.

[2] Na hist√≥ria da humanidade, pesa sobre a Europa o uso de armas biol√≥gicas no Novo Mundo. Na hist√≥ria contempor√Ęnea, do mundo globalizado, parece que existem outros candidatos √† execr√°vel condi√ß√£o de inimigos da Humanidade. A esses resta apenas duas possibilidades: dominar√£o o mundo, e ent√£o n√≥s seremos os escravos, ou ser√£o severamente responsabilizados por seus crimes de guerra, ali√°s, n√£o declarada. Em caso de responsabiliza√ß√£o, ter√£o inveja da flexibilidade do Tribunal de Nuremberg, porque pelo menos os famigerados nazistas utilizavam canh√Ķes e tanques de guerra e estes nos atacam com o invis√≠vel.¬†

[3] A conhecida Lachesis muta, cuja textura das escamas, que formam sua pele, lembra a casca de uma jaca.

[4] Lembrando que os sambaquianos eram os brasileiros antigos, cuja presen√ßa no litoral era bem anterior aos chamados ‚Äú√≠ndios‚ÄĚ, Tapuia ou Tupi.

[5] Interpretado pelo ator Rudy Youngblood.

[6] Hans Staden ficou rico vendendo livros e palestras na Europa sobre o tema. Ali√°s, com todo o direito, pois por pouco n√£o fora o personagem principal de um grande banquete Tupi.

[7] Bactris setosa. Pesquise! Uma palmeira completa: os frutos s√£o saborosos, das sementes √© extra√≠do um √≥leo comest√≠vel, das folhas s√£o feitas fibras fortes e √ļteis, o caule oferece o palmito, muito utilizado em diversas culin√°rias, e os espinhos s√£o utilizados como ornamento ou para confec√ß√£o de pentes utilizados pelos ind√≠genas para fazer sangria no pr√≥prio corpo.

[8] Mata Atl√Ęntica

[9] O Brasil possui cerca de 20% das angiospermas do mundo. A Mata Atl√Ęntica possui um ter√ßo das √°rvores com sementes dentro de frutas do Brasil.¬†

[10] E comiam gente!

[11] Myrciaria trunciflora. Iapoti-kaba (frutas em botão) para os índios da grande nação Tupi.

[12] Procnias nudicollis, o p√°ssaro ferreiro das florestas. Seu canto lembra duas roldadas de ferro rangendo com o movimento.

[13] Eunectes murinus, também conhecida como sucuri-verde.

[14] Pré-histórica arma indígena cilíndrica e alongada, também chamada de borduna ou tacape. Uma clava, pesada, feita de madeira dura, que feria, muitas vezes mortalmente, pelo impacto direto.   

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