đź“– “Manhas do GregĂłrio” (OnĂ©vio Zabot)

MANHAS DO GREGĂ“RIO

Gregório era um crioulo espigado. Gigante dos sertões. Um touro na acepção de Zé Baiano, não menos robusto. Gregório, porém, era dotado de uma calma de “dar nos nervos”, falava-se por lá, estrada Flórida. Não importava o aperto: não abria o passo. E muito menos o compasso. Tudo na conta de Deus.

– Aqui tĂ´, nĂŁo pedi pra nascĂŞ, pra que pressa. Isso incomodava a vizinhança, italianos sempre apressados. “Morrire de la fame”, cuspiam. E um corre dos diabos. Faça chuva ou faça sol. GregĂłrio nem aĂ­.  Trabalhava por dia. A seco. Levava marmita: invariavelmente farinha de pau, ovo e um feijĂŁozinho, arroz quando tinha, misturado, porque ninguĂ©m era de ferro. Moringa d’água pega lá na mina. Fresquinha. O resto era por conta do Deus quiser. Ah, e uma porção de fumo de corda, fumo forte lá de Arapiraca comprado na bodega do Valdo, e palha de milho com o que besuntava um bom palheiro pra rebater pernilongos. E nĂŁo esquecia da binga. Sem fogo, nam, nam!!

Na capina de cafĂ©, vez por outra, uma moita de tomateiro, frutos miĂşdos – famosa cereja – fechava o rango. Pra completar: as pescarias no rio Jangada. Rio bom de peixe, remansos tomados de capituva, coalhados de traĂ­ras. Cesto cheio, sal nelas, defumava-as no varal. Quando sobrava, a troca. Carne de porco na banha, trem bom demais! Jeito mineiro de manter cortes de capado longe das varejeiras.

Mas Gregório gostava mesmo era da vendinha do Valdo.    Invariavelmente, final de tarde, ali apontava, dia sim, o outro também. O cantinho do Gregório, famoso era.  Acocorado, encostado na parede, perto da porta. Sempre no mesmo lugar. Aí se alguém acocorasse ali. Copo de pinga ao lado. Astuto, mais ouvia do que falava. Mas não perdia conversa. Porém, não se metia no meio. Curtia a prosa que sempre corria solta, como quem curte uma boa pinga depois de um dia de trabalho duro no roçado.

– GregĂłrio, provocava Zezinho, italiano bom de pinga, me diga uma coisa: como tu aguenta ficar aĂ­ agachado sem nem piscar o olho. GregĂłrio sabia das manias do Zezinho. Eram mais do que amigos, irmĂŁos mesmo.

– Ora, Zezinho, estou sempre preparado para uma boa carreira. Gargalhada geral! E, emendava: sabe como é: cachaça muda o juízo de qualquer caboclo. E, neste caso, se o pau pegar, “sarto” como um sapo.

– Zezinho insistia: e esta força toda, que uso faz dela. Prega rasteira no atrevido, ora! – Que nada Zezinho. Guardo ela pra modĂŞ puxá o cabo da enxada. Esforço que fique por conta do Valdo, dono da bodega. Valdo, italiano de dois metros de altura, nariz avantajado que mais parecia bico de arado, desencorajava valentões sĂł no olhar.

Assim que escurecia GregĂłrio deitava o cabelo, nĂŁo sem antes dar um Boa Noite caprichado, e rebater a Ăşltima marvada.

– Copo Ă  mĂŁo, antes da Ăşltima talagada: – Por gentileza, sirvam-se. Como ninguĂ©m se manifestava, metia no buxo. Uma sĂł entalada.

Assim vivia Gregório, depois que ficará viúvo. Adorado pelos filhos e filhas: turminha nada pequena. Doçura de gente. Todos criados. Gente trabalhadora. Tozinho, esse era bom de bola. Puxou a ginga do velho. Espigado, entortava zagueiros. Toninho Cerezo dos sertões, dizia José Aparecido que entendia de bola.

Gregório faz parte de minha infância, de minha formação de roça. Aquela sua calma, mesmo diante dos piores cenários, sempre será uma luz a guiar-me nesse mundão de Deus.

Joinville, 7 março de 2020

Onévio Antônio Zabot

 

 

 

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