⭐ “O dia em que Ataliba sumiu”, de Hilton Görresen

O DIA EM QUE ATALIBA SUMIU

Hilton Gorresen

 

Muitos anos depois, os antigos hóspedes ainda perguntariam:

– E o Ataliba, não conseguiu mais encontrar?

Dona Mercês, a gerente da pensão, sacudia a cabeça entristecida, era a resposta.

Naquela manhã, a primeira coisa que fez ao acordar foi levar o pires de leite ao local em que ele dormia estirado em almofadas. Não o encontrou.

– Ataliba, Ataliba, saiu gritando, acordando alguns hóspedes mais retardatários. Donde anda esse minino?

– Não se desespere, dona Mercês, diziam, ele logo aparece.

Apareceu nada. A velha, trancada em mutismo, esqueceu de servir o café da manhã aos hóspedes.

Já de tardinha, um deles sugeriu fazer um boletim na polícia.

– Seja bobo, Mané. Boletim pra sumiço de gato.

Ataliba era um gato grande, bem alimentado; branco, uma faixa negra correndo das costas até a barriga. O nome vinha do avô de dona Mercês, era como se fosse o filho que nunca teve. Casada foi, lá na Paraíba, escorraçou o inútil de casa. Veio pra Brasília, gerenciar a pensão mantida pelo compadre político. O atendimento era bom, refeições, roupa lavada e passada.

Dona Mercês era uma nordestina típica, morena, baixa, com um gostoso sotaque lá das paraíbas, que ela não economizava. Apesar de sua doçura, administrava a pensão como um coronel, ajudada pelo Vandeco, um mulatinho miúdo que preparava o café da manhã, arrumava os quartos, lavava e passava as roupas como ninguém.

Tinha ela seus hóspedes preferidos, o Macedo, o Gaspar, de Recife, o Meireles, de Belo Horizonte. O Vandeco também tinha seus preferidos. Quando ia aos quartos, entregar-lhes as camisas bem passadas, demorava-se um pouco, fingindo colocá-las nos cabides, sussurrando uma canção e balançando a bunda magra.

Quando cheguei a Brasília para um curso de 30 dias, fui bater na porta da pensão pelas duas horas da madrugada. Ruazinha deserta, na Asa Sul, pertinho da W3. Ninguém atendeu. Bati mais forte. Dona Mercês veio mal humorada, de camisola.

– Não precisa quebrar a porta!

Em vez de me desculpar, retruquei:

– Não tenho culpa se meu voo atrasou. Sou o Fernando, de Curitiba. Fiz reserva pra hoje.

Quando entrei na salinha da frente, semiescura, Ataliba me arreganhou os dentes, arrepiando o pelo. Tive impressão que não agradei. Ela me colocou num quartinho na parte térrea, sem banheiro, apenas com uma janelinha basculante voltada para os fundos.

Às seis horas da manhã, começou acintosamente a limpeza da casa colada à porta do meu quarto, fazendo um barulho exagerado, dando ordens quase gritadas ao Vandeco, que lhe respondia com voz aflautada.

À noite, entrou sem avisar no quarto, com novo hóspede, um altão barbudo. Os quartos da pensão comportavam dois ou três hóspedes. O que se ganhava em economia, perdia-se em privacidade.

– Você fica aqui com este gaúcho.

– Não sou gaúcho. Sou paranaense.

– É tudo a mesma coisa.

Os hóspedes, para agradá-la, faziam festas ao Ataliba. Parece que tinham a obrigação de gostar do gato, que tomava conta da poltrona principal na sala de TV, deitado placidamente em sua almofada de seda.

Nos sábados, à tardinha, o Vandeco sumia, tirava o fim de semana para dançar nos forrós, sua única alegria. Pouca gente ficava na casa. Eu tentava puxar conversa com dona Mercês. Ela, de palavrosa com alguns, me respondia com palavras expulsadas de má vontade. Ataliba, enrodilhado em suas pernas, acompanhava esse repúdio.

Não me sentia à vontade ali. Tinha impressão que os outros hóspedes também me evitavam. Seria minha introspecção, minha falta de jeito ao lidar com as pessoas?

Vinha do curso cansado, esperava na fila para tomar banho, depois saía a caminhar pela quadra, nos passeios estreitos ladeados de árvores. Longe do mutismo da velha, do jeito arredio do gato, no distanciamento dos demais. O frescor da noite e o perfume das árvores me agasalhavam.

Macedo trazia bombons para a velha, que se babava toda, empretecendo a dentadura, chamava-o de filho. Os outros, os preferidos, arrancavam-lhe recordações, contavam casos, ela gargalhava balançando a peitaria arriada. Conversavam, riam com estardalhaço. Uma família. Eu me isolava no quarto. Pensava em me aproximar, chegar junto, como dizia um amigo. E se não me dessem atenção? Se me deixassem de lado, continuando suas conversas, eu solitário sem importância? Nem o miserável do gato de mim se aproximava… O que eu fazia ali?

Deitava na cama e ficava lendo, até que o sono me fazia ler três ou quatro vezes a mesma frase. O barbudo, meu companheiro de quarto, chegava tarde, acendia a luz, remexia no guarda-roupa, saía com a toalha para o banho.

Ataliba, sultão deitado em almofadas, me olhava rindo com seus olhões azulados. Eu pedia mais leite ao Vandeco na mesa do café, ele demorava pra atender. Às vezes esquecia. Não havia dúvidas: eles me desprezavam.

Aí o Ataliba sumiu. A velha, aos berros, tirou todos os hóspedes do quarto. Alguns assustados: morreu alguém? Vasculharam todas as extensas quadras ao redor. Para mostrar boa vontade, participei da busca. Nenhum sinal do gato.

– Donde se meteu esse minino?

Tornou-se intolerável, nervosa, cheia de queixumes. Sumiu também sua alegria espontânea. A dor marcou suas feições com rugas que se vislumbravam de longe. Levantava de manhã de cara fechada, praguejando, batendo portas.  Gritava com o Vandeco na frente de todos, quem não gostasse que sumisse dali. Vandeco era fiel, não discutia, baixava a cabeça, os olhos lacrimejavam. O Gaspar falou em lhe presentear com um novo bichano.

– Pra quê? Pra me cortar o coração de novo?

Alguns hóspedes se mudaram para outra pensão. A “família” se esboroou, esvaneceu-se.

Era isso que eu esperava quando, de madrugada, coloquei a focinheira – comprada um dia antes – enquanto o gato dormia, meti-o num saco, carreguei aquela massa que se agitava pela porta afora. Pensava em esganar o miserável. Se ele tinha mesmo sete vidas, ia acabar com todas elas, para que o vissem estirado como um trapo velho. E agora, hein? Me desprezam, hein? Mas não fiz isso, parei um táxi na W3 e paguei ao taxista para descarregá-lo no final da Asa Norte. Que tivesse sorte de encontrar nova dona.

 

 

 

 

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