📗 “A morte do boêmio” (Hilton Görresen)

A MORTE DO BOÊMIO

Hilton Görresen

 

Hoje, fui ao enterro do Mija na Sogra. Eu o conheço há muitos anos, mas só agora, olhando a placa diante da sala da funerária, é que soube de seu nome de batismo: Antolípio. Putzgril, se tivesse um nome desses, preferia mesmo ser chamado pelo apelido.

Estava, naturalmente, deitado no caixão, a proverbial magreza tão pronunciada, como se já fosse um cadáver há anos, metido num terno cinzento, largo, uma bela gravata roxa, emprestada de alguém ou comprada à última hora, pois o Mija detestava usar gravata.

A sogra estava lá, uma mulher baixinha e entroncada. Antipatizei de cara com ela, e me fiquei perguntando a origem do apelido de meu amigo. Num canto, cercada por outras mulheres de olhar compungido, estava a viúva. A santa. Será que ainda amava o marido, ou lá estava pelo dever de aparentar tristeza?

Alguém perguntou a uma das mulheres presentes de que o finado havia morrido.

– Da bebida. O homem bebia muito.

Era verdade. Ou talvez fosse de tristeza, o Mija tinha uma das feições mais tristes que eu já havia visto, os olhos sem brilho, os cantos dos lábios vergados para baixo. Nunca sorria. Costumava pegar o copo de cerveja de um modo esquisito, esticando o mindinho de unhas sujas e compridas. Mas era um amigo fiel. Sempre tinha dinheiro no bolso para quebrar o galho da turma. Não sei de onde vinha essa bufunfa.

Eu o conheci num bar. Conhecido de bar vira amigo de infância. Daí para nos associar – eu, ele e o Tuneca – foi um pulo. Puxávamos contrabando dos navios estrangeiros no porto – cigarros e bebidas. Para nós isso era um meio de vida. O dinheiro das entregas ia quase todo no bar do Alemão e na casa da Elisa Seis Dedos.  Na família, o Mija nunca havia falado.

Nunca tive curiosidade de olhar, mas diziam as meninas que tinha uma jereba tamanho GG. Essas coisas não regulam com o tamanho da pessoa.

Quando o chefe da polícia queria mostrar serviço, mandava os canas atrás de nós. Sempre sabiam onde nos encontrar com as mercadorias na mão. Mas só eu e o Tuneca nos ferrávamos, o Mija sempre escapava. Parece que tinha um radar no rabo, pressentia a hora do perigo e caía fora, com seu andar leve e macio como de um gato.

Tomamos muitos porres juntos. Não sei como ele se equilibrava, bêbado, naquelas perninhas de saracura. Nessas horas, ficava sentimental e virava a cantar as velhas músicas de Nelson Gonçalves, empertigado, de braços abertos, como um cantor de tangos:

“Boemia, aqui me tens de regresso…”

Quando o movimento de pessoas começou a aumentar no funeral, apareceu a Deise Ruiva, acompanhada de uma colega de casa. Mulheres nunca vão sozinhas nem ao banheiro. As pessoas se afastaram com olhar de reprovação e parece que se abriu uma clareira em torno delas, como se alguém houvesse atirado uma bomba no meio da multidão. Foram até o caixão do pobre Antolípio (opa, já guardei o nome) e ficaram contemplando o corpo, como se não estivessem acreditando que era ele mesmo quem estava ali estirado, de terno e gravata. Uma grande perda para as economias da Deise. Vizinhas cochichavam ao ouvido da viúva. Logo, logo as duas foram embora, cabeça erguida. Nem notaram eu e o Tuneca, encostados num dos cantos da pequena sala. Estava quente, o verão mais fudido; não vimos nem uma garrafa de bebida, ao menos uma pinga fuleira. Porra, era o enterro do Mija na Sogra. Como bem diz o ditado: casa de ferreiro, espeto de pau. Saímos para fumar um cigarro.

Mas aí é que apareceu a surpresa. De terno azul-marinho, testa alta e branca, fiapos de cabelo tentando esconder a calva, desceu de uma viatura o próprio chefe de polícia. Seu perfume caro misturava-se com os cheiros de velas e roupas tiradas da naftalina. Unhas bem tratadas, era daqueles que pintavam as unhas com esmalte incolor. Parou na porta da funerária, examinando as pessoas em seu interior com o arrogante ar de autoridade. Perguntou pela viúva, e a ela se dirigiu para os pêsames. As pessoas se afastavam respeitosamente de seu caminho.  A viúva acolheu seus sentidos cumprimentos surpresa e mesmo lisonjeada pela presença ilustre.  Depois ele foi até o caixão e ficou olhando compungido para o Mija. Num gesto quase imperceptível, levou as mãos ao rosto do morto. Abanava a cabeça, como inconformado. Então ficou movendo os lábios, supostamente orando.

Tuneca e eu nos olhamos. Meu amigo coçava a cabeça, piscando continuamente, como era seu costume em momentos de confusão. Vieram à minha cabeça as dezenas de vezes em que fomos “recolhidos às grades”, os socos e chutes dos milicos ainda doíam nos ossos. Caiu a ficha. Se o desgraçado do Mija na Sogra não estivesse já morto, juro que não escapava.

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