Ac. Fiuza leu “A estranha ordem das coisas”, de António Damásio

Nós somos essencialmente racionais?

É verdade que o homem se diferencia das outras espécies por ser o único animal racional? No livro “A estranha ordem das coisas” o neurocientista português António Damásio garante que não. Ele tenta provar, passo a passo, que isto está errado.

O primeiro engano é afirmar que a racionalidade seja uma propriedade restrita aos humanos. Observações diversas desmentem isto, ao demonstrar que outros mamíferos superiores são capazes de tomar decisões sustentadas em pensamento coerente. Chimpanzés se reconhecem no espelho e mostram variações comportamentais que indicam raciocínios sofisticados. Mesmo insetos e bactérias são capazes de alguns comportamentos que podemos classificar de inteligentes.

O segundo erro é pensar que o homem seja um ser essencialmente racional. Se assim o fosse, o comportamento humano seria pautado, antes de tudo, pela lógica. A cultura, produto da inteligência humana, seria uma consequência unicamente da razão. Damásio explica que estas afirmações não estão corretas e devem ser corrigidas. Se considerarmos como inteligentes as atitudes que nos ajudam a preservar a nossa vida, a prosperar e a nos reproduzir, pondera ele, outros atores seriam indispensáveis. Aponta as emoções e os sentimentos como os outros fatores essenciais para orientar o comportamento inteligente. E mostra ainda que nem isto é privilégio nosso, os “evoluídos” humanos.

Todos animais que dispõem de um sistema nervoso têm sinalizadores que diferenciam o bom do ruim. Esses sinalizadores são as emoções e os sentimentos. Quando um animal está diante de uma situação complexa, tem inicialmente informações a partir dos órgãos dos sentidos. Estes demonstram a situação do ambiente e, também, a do próprio corpo. Quase ao mesmo tempo o animal utiliza os sentimentos e as emoções para avaliar a situação. Estes servem para antecipar qual comportamento é favorável, trazendo já a primeira motivação. Por exemplo, um lobo está com fome e vê um coelho passar correndo. A sensação fome o faz correr em direção à presa. Entretanto, na trilha para onde vai o coelho, vem uma onça em sentido contrário. As emoções susto e medo passam a comandar o comportamento, e o nosso lobo desiste do coelho e trata de fugir. Nós faríamos o mesmo e começaríamos a correr antes mesmo de pensarmos se era mesmo o certo a fazer. Essas emoções são desencadeadas por necessidades internas (regulação corporal e homeostasia) ou externas (objetos e seres do ambiente, que servirão para nós ou se servirão de nós). As emoções permeiam qualquer decisão, de animais e humanos. Elas impulsionam ou restringem os nossos pequenos e grandes planos.

Os sentimentos são as emoções trazidas a nível consciente. Eles são essenciais para sentirmos o nosso corpo, para avaliarmos o ambiente e servem de interface entre nós e o mundo, definindo nossa individualidade. Além disso, são determinantes ao nos indicar quando devemos favorecer o indivíduo (eu) e quando privilegiar o grupo (nós).

As ações coletivas podem ser favoráveis a qualquer ser vivo. Os tropismos e emoções induzem ao engajamento de ações coletivas. Assim, uma bactéria já dispõe de mecanismos que as aproximam do que é “bom”, como um nutriente, e outros que as afastam de substâncias nocivas. Já as colônias de bactérias (bem como os formigueiros) vão além e demonstram o poder do grupo para proteger o indivíduo.

Os humanos também são seres sociais e suas ações conjuntas resultam em uma situação mais favorável para viabilizar qualquer plano de um ser humano individual. Os sentimentos têm sido decisivos para a formação desse universo de conhecimento, crenças e costumes que é a cultura.

Foi por motivação desses sentimentos que os grupos de homens usaram o intelecto e construíram as primeiras ferramentas, se abrigaram nas cavernas e dominaram o fogo. Com os sentimentos auxiliando a linguagem, inventaram a roda, as armas, a agricultura. Impulsionados pela escrita desenvolveram uma monumental coleção de objetos, práticas e ideias que formaram esse conjunto maravilhoso denominado cultura.  Não existiria a medicina se os sentimentos do grupo de homens não os motivasse para cuidar da homeostasia do corpo de um indivíduo. Não existiria a engenharia e a tecnologia se não fosse a motivação trazida pela melhoria das condições da vida de cada ser naquela comunidade. Não existiriam as leis ou códigos morais se não houvessem os valores, filhotes dos sentimentos. Não existiriam os sistemas de governança ou qualquer sistema financeiro se não fosse pela ânsia de aprimorar a relação do indivíduo com o grupo.

O núcleo do livro de Damásio procura corrigir a noção de que a construção da cultura se deve somente ao intelecto humano. Enfatiza o modelo que credita aos sentimentos o grande fator que sinaliza e motiva, que valoriza e possibilita a ação. Os sentimentos e emoções funcionam em favor da homeostase, mecanismo que proporciona ao ser a preservação e prosperidade de sua vida.

Ele mostra finalmente como os conflitos podem levar o indivíduo a agir contra seu semelhante ou contra o grupo e como, no longo prazo, a cultura tenta consertar as ações deletérias.

A leitura desse livro nos faz descer do pedestal do intelecto e a entender que essas reações de difícil controle chamadas emoções podem ser determinantes em nossas decisões e comportamentos.

 

Resenha de Ronald Fiuza

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