Ac. Fiuza leu “Memórias de Adriano”, de Margerite Youcenar

Memórias de Adriano

O livro foi um sucesso. Lá pelos anos 60 todos falavam nele, todos o liam. Os críticos aplaudiam, os intelectuais elogiavam. As adolescentes o levavam para ler na praia. Algumas pessoas me disseram que era um romance menor. Impliquei com o livro e só agora, meio século depois, peguei-o nas mãos.

Memórias de Adriano, de Margerite Youcenar, é muito bom.

Ela conta a história do Imperador Adriano, no segundo século depois de Cristo, liderando uma das maiores potências territoriais e políticas da antiguidade, o Império Romano. O relato vem desde a infância de Adriano na Espanha, e sua juventude, muito influenciada pela cultura grega. A escritora belga conta esta história épica como se estivesse sentada no meio fio conosco. Como se contasse um caso.

É um relato em primeira pessoa, uma carta de Adriano para quem vai sucedê-lo como imperador, seu neto adotivo Marco Aurélio. É uma conversa aberta, generosa, que intenta mostrar como é difícil liderar, mandar e, ao mesmo tempo, ser bom. Ali se encontram muitas viagens pelo Império, as impressões do imperador nas mais diversas situações, as fofocas da corte. O livro mostra como Adriano avaliou todos os conflitos, como os julgou, procurando o melhor. Ele se mostra humano, expões suas fraquezas, reconhece suas limitações. Tenta, entretanto, mostrar sempre sua boa vontade.

Foi um enorme trabalho de pesquisa da autora, que consegue recuperar grande quantidade de informação sobre o que ocorria naquele que talvez tenha sido o maior domínio do mundo. Retrata um tempo, como diz a autora, em que “os deuses romanos não mais existiam e o cristianismo ainda não havia chegado”. E o espantoso é o impacto que ela nos provoca, ao nos mostrar que as dificuldades daquela época são as mesmas que vemos atualmente. Os conflitos com que Adriano lidava estão hoje no jornal da noite, na TV.

Há informações históricas que completam nossa noção de mundo. Um exemplo é a decisão precoce de Adriano de não expandir mais o Império Romano e sim manter os seus limites de então. Ora, todos sabiam que a expansão era muito lucrativa, à medida em que os saques e os impostos adicionais ajudavam a manter o Império. Ele bancou. Chega de agressão, vamos só nos defender.

Adriano procura nos mostrar o seu grande comprometimento em implantar a cultura romana em todo o Império. Constrói estradas, monumentos, templos, aquedutos, estádios. Demonstra a capacidade da engenharia romana. Expande o direito romano, cânone fundamental até hoje, e julga de acordo. É intransigente com os resistentes. Como os judeus não aceitavam a transformação de Jerusalém em uma cidade romana, extingue a Judéia e a transforma em Palestina (vejam bem, foi aí que a briga começou).

Adriano se expõe e mostra seu desinteresse por sua esposa e sua paixão homossexual, que termina em suicídio do parceiro, com grande sofrimento para o imperador. Assim acompanhamos a intimidade do imperador durante toda a vida, como se tratasse do amigo do lado. Isto vai até a doença final, suas tentativas de abreviar a vida e evitar o sofrimento, até a conclusão final, a de que devemos encarar a morte “de olhos abertos”.

É um livro de fácil leitura, é um história contada o pé do ouvido.

 

Resenha de Ronald Fiuza

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