“As ovelhas”, de Herculano Vicenzi

As ovelhas

Dois irmãos lá das bandas de Pirabeiraba costumavam roubar galinhas, patos e marrecos, sempre a fim de fazer divertidos jantares com alguns amigos de gandaia.
Bela noite de inverno, depois de esvaziarem um litro de cachaça de alambique, eles decidiram inovar. Nesse embalo inovador, deram uma estivada até Campo Alegre para gatunar ovelhas numa fazendinha pertencente a um primo da dupla.
A bordo de uma Kombi, subiram a serra Dona Francisca e não demoraram para chegar ao destino. Pé por pé, pularam a cerca e foram caminhando com muito cuidado. Nisso, chegaram ao topo de um montículo, de onde, do outro lado, avistaram diversos vultos brancos debruçados sobre a relva.
– Que sorte – murmurou um deles – as ovelhas do primo estão todas dormindo.
– Vai ser moleza. A gente conta até três, cada um cai em cima de uma ovelha e a festa está garantida, emendou o outro, aos sussurros.
Sem perda de tempo, contaram até três e se atiraram. Horas depois os dois deram entrada no hospital de Campo Alegre com a cara arrebentada e algumas costelas quebradas.
Os vultos não eram ovelhas. Dias antes, o primo da desastrada dupla havia pintado com cal algumas pedras concentradas aos pés do montículo onde os bocós se esborracharam, ao destino.

Herculano Vicenzi

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