EDUARDO KRISCH

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EDUARDO KRISCH (*1836 +1903), articulista e crítico austríaco, radicado e falecido em Joinville.

Eduardo Krisch nasceu em Roemerstadt, capital da Província de Meehren, Áustria, em 6 de julho de 1863 e faleceu em Joinville em 3 de março de 1903. Era filho de Johan Krisch e de sua mulher Joahanna, nascida Raab. Emigrou para o Brasil, em agosto de 1865, com 27 anos. Em sua companhia vieram seus pais, a irmã Marie, sua sobrinha Hedwuig e sua prima Gabriela. A viagem de Hamburgo/Alemanha, até Itajaí, Santa Catarina, Brasil durou treze semanas, e o mesmo navio levou-os para São Francisco do Sul/SC.

Ao chegarem, Eduard Krisch e seu pai, providos relativamente com recursos financeiros, pretendiam montar uma indústria. Para isso adquiriram terras na Estrada para Blumenau em construção, dentro do raio da estrada planejada da Colônia Dona Francisca para o planalto, o que garantiria um bom futuro. Construíram serraria, engenhos de açúcar e aguardente e outros. Porém, as estradas não foram concluídas conforme planejadas e os empreendimentos da família fracassaram.

Devido à avançada idade de seus pais, Eduardo tornou-se o chefe da família. Casou-se, poucos meses depois com sua prima  Gabriela Krisch, filha de Anton Krisch e Anna Krisch, também natural de Roemerstadt/Áustria. A cerimônia de casamento foi realizada pelo Padre  Boergerhauser, na Igreja da cidade. Começou então a dura luta de sustentar a família.

Todas as seções do empreendimento foram ultimadas e funcionaram a contento, menos o maquinismo de beneficiar arroz: simplesmente porque não havia arroz para ser beneficiado.

A bem montada fábrica de aguardente e açúcar trabalhou dois anos com prejuízos insuportáveis, e uma grande parte da instalação foi vendida aos poucos, peça por peça, enquanto o resto da instalação desapareceu e ninguém soube que fim levou. Toda a esperança de uma renda suficiente para poder viver com a família, desde o princípio fora depositada na considerada seção principal, a serraria. Já em 1868 Eduardo obteve a cidadania brasileira e foi eleito vereador. Esses foram aproximadamente os primeiros dez anos de vida na região, após a imigração.

O revés de todas aquelas iniciativas e muito trabalho moveram  Eduardo Krisch a aceitar o convite da “Sociedade Colonizadora de Hamburgo”, que o contratou para substituir o engenheiro Frederico Heeren na construção de outra estrada para Blumenau – a atual Estrada do Sul –, a qual ele levou do km 25 até Jaraguá do Sul. Em seguida executou as plantas projetadas da cidade de Hansa-Humboldt – hoje Corupá – e foi nomeado administrador responsável destas terras da concessionária. Durante os mais de 20 anos ininterruptos como administrador, Eduardo Krisch traçou e construiu  mais de 100 quilômetros de estrada carroçável, incluindo a estrada principal desde Brüderthal até a divisa do município de São Bento do Sul na extensão de cerca de 70 quilômetros; de demarcação de milhares de lotes coloniais; de construção de inúmeras pontes e pontilhões; da construção de pontes sobre o Rio Itapocuzinho e o Rio Humboldt, etc… Sem falar da sua atividade em medicina porque para exercer a função de médico não era obrigado. Não era médico diplomado,  mas tinha conhecimentos, com os quais pode amenizar problemas de saúde aos imigrantes naquele inóspito mundo no meio das matas.

As consequências da vida de cigano, inevitável no desempenho de seu cargo, a falta de todo e qualquer conforto e de alimentação regular adequada durante mais de 20 anos abalaram aos poucos, seriamente, a saúde de Eduardo Krisch. Assim, no último ano, só com aplicação de toda a atenção foi-lhe possível cumprir seus afazeres.  Em consideração à sua saúde pediu demissão.

A Diretoria da Sociedade negou-lhe o pedido de demissão e, em vista da realidade das razões que motivaram o pedido concederam-lhe dispensa do cargo de administrador do “Distrito de Hansa” e lhe deram licença por tempo indeterminado para tratar de sua saúde.

Em seguida Eduardo Krisch montou seu cavalo de uso e deixou Hansa como tantas vezes o fez, mas desta vez para não mais voltar.

Hoje, decorridas tantas décadas,  raríssimas são as pessoas que se lembram, que no tempo remoto existiu um homem como Eduardo Krisch, que dedicou a maior parte de sua vida à existência e bem estar da localidade de Hansa e seus habitantes.

Enquanto isso a Sociedade Colonizadora adquiriu as terras do Príncipe Schoerburg-Waldenburg contendo a área de aproximadamente  oito mil morgons (um morgon é equivalente a 2500 m², ou seja, 0,25 hectares)  situado ao noroeste da velha concessão, e limitando-se em parte pelo rio Pirai. Esta parte de ser colonizada pela sociedade denominou-se de “Distrito Piraí” e com sua realização foi  incumbido Eduardo Krisch, cujo estado de saúde havia melhorado sensivelmente, desde a sua retirada do cargo de administrador de Hansa.

Em vista de seu filho mais velho, João Krisch, ter chamado a si todos os serviços a realizar no mato bruto, incluídos na incumbência facilitou para Eduardo o cumprimento dessa tarefa. Semanalmente este se apresentava na residência de Eduardo Krisch para prestar contas do serviço feito e combinar os serviços a realizar na semana seguinte.

As atividades de Eduardo Krisch então se limitaram em dirigir, dividir os terrenos em lotes convenientes, confeccionar o respectivo mapa, etc… De quando em quando, visitar a turma no mato, passando alguns dias junto com seus trabalhadores no rancho, assumindo nessas ocasiões as funções de cozinheiro – sujeito à aprovação decisiva de seu superior , “João Krisch”. Ultimada a construção da estrada estava concluído o trabalho no Distrito Piraí.

Com o estado de saúde de Eduardo Krisch progressivamente sido reestabelecido, de tal forma que ele concordou  com a transferência para o Hamônia, no Município de Blumenau para fazer parte da administração daquele distrito. Devido à incerteza de sua saúde fez-se acompanhar por sua esposa. Imediatamente após sua chegada em Blumenau Eduardo entregou-se aos cuidados de seu velho amigo Dr. Wigand Engelke, pois já os incômodos da viagem não lhe tinham feito bem. No fim de algumas semanas o Dr. Engelke aconselhou a sua esposa que tratasse de regressar o mais depressa possível para Joinville porque os dias de seu marido estavam contados. Decorridos oito dias após sua chegada em Joinville, Eduardo Krisch faleceu, com a idade de 68 anos.

         “O sonho do tempo remoto, relativo a um futuro dourado tinha se transformado em árdua, ininterrupta atividade, com o objetivo de ganhar o pão de cada dia, para si e para seus familiares, deixando suas obras acabadas, para que seus pósteros, pudessem além de usufruírem os benefícios advindos desse trabalho incansável, aquilatassem o valor extraordinário de um homem que apesar de aqui não ter nascido, dedicou toda uma existência em benefício da causa comum”.

         Esta mensagem foi dedicada a Eduardo Krisch, quando foi agraciado pela “Sociedade Colonizadora de Hamburgo” com a Grande Medalha de Ouro pelos relevantes serviços prestados. A dita medalha e seu respectivo documento foram depositados aos cuidados de Hilda Anna Krisch, neta de Eduardo.

Essa descrição da história de Eduardo Krisch foi deixada por seu filho Johann (João) Krisch, nascido em 28 de setembro de 1864 em Joinville e fundara várias indústrias de sua propriedade. Em 13 de janeiro de 1891 João se casara com Anna Maria Müller, nascida em 8 de março de 1867 em Bocwa/Saxônia e falecida em 8 de abril de 1947 em Joinville. João Kirsch faleceu no dia 8 de junho de 1952.

Quanto a Hilda Anna Krisch, filha de João Krisch e neta de Eduardo Krisch formou-se enfermeira, com brilhante carreira no Brasil e no exterior. Com a aposentadoria decidiu retornar à cidade de Joinville, onde tornou-se conhecida como a “locomotiva” do movimento de preservação do patrimônio histórico da cidade, a começar pela restauração do Cemitério do Imigrante. Em reconhecimento a essa sua obstinada luta, a Sociedade Cultural Alemã de Joinville deu seu nome ao troféu, com o qual, anualmente são agraciadas três personalidades e/ou entidades que, no decorrer da vida prestaram e prestam serviços pela preservação da cultura alemã em Joinville.  

 

(Pesquisa e redação de Nelci Seibel)

 

Referências

KIRSCH, João, 1950.

Famílias Brasileiras de Origem Germânica, publicação conjunta do Instituto Genealógico Brasileiro e do Instituto Hans Staden  – 1964. Acrescido de novas informações coletadas com membros da família.

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