Escolhido: “Farmácia Leão”, de Maria Cristina Dias

Preservado, prédio centenário acompanhou o desenvolvimento de Joinville

O imigrante dinamarquês Olaf Hygom começou o ano de 1900 cheio de esperanças e com muitos planos. Depois de seis anos na Colônia Dona Francisca, ele conseguiu adquirir um terreno  bem localizado, na esquina da rua 9 de Março com rua Comandante Eugênio Lepper, construir um prédio moderno para a época e se estabelecer. Na porta principal colocou um leão de bronze, que durante anos foi a marca do imóvel e deu o nome ao local: Farmácia Leão. Ao longo de 110 anos, o prédio adquiriu novos usos, acompanhando o desenvolvimento da cidade. E hoje, preservado, se destaca no cenário agitado de uma das ruas mais tradicionais de Joinville.

Farmacêutico, ou “boticário”, como era usado na época, Olaf Hygom  nasceu em Copenhagem, em 1852, e chegou a Joinville em 1894, com a esposa  Helene Ulrichsen e os filhos mais velhos –  a  primogênita, Emilie nasceu em 1888 e veio ainda menina. Em 1899 conseguiu adquirir o terreno que pertencia a Frederico Lange, na rua 9 de março, e dar início ao sonho de ter a própria farmácia. Como era comum na época, o estabelecimento ficava no térreo e a família morava no sobrado. A felicidade do casal, porém, durou pouco. No início de 1900, Olaf morreu subitamente, deixando a esposa com seis filhos (o mais novo faleceria também no mesmo ano) e uma farmácia para administrar e garantir o sustento da família.

Aos 36 anos, sozinha, e sem entender deste tipo de negócios, Helene entregou o estabelecimento aos cuidados de um farmacêutico responsável. Não que não desse conta do recado.  Distante do conceito romântico de feminilidade difundido na época, que exalta figuras frágeis, delicadas, que cultivavam amenidades e eram voltadas ao lar e aos filhos, as mulheres da Colônia Dona Francisca, especialmente nas primeiras décadas, trabalhavam duro para construir a cidade. No livro “Tensões, trabalhos e sociabilidades – Histórias de Mulheres em Joinville no século 20”, a historiadora Janine Gomes da Silva questiona este conceito de mulheres urbanas idealizadas, que aparecia no periódico “Folha Livre”, em Joinville. “Entendemos haver uma distância muito grande entre a imagem construída pela imprensa de uma mulher ideal e a realidade da Colônia Dona Francisca. Dos 19 mil habitantes que Joinville tinha no último ano do século 19, apenas 3 mil residiam na cidade. Nesse sentido, as rendas, o pó de arroz, os bailes, a leitura, enfim, os códigos de conduta sugeridos pelos jornais eram destinados, prioritariamente, às mulheres urbanas, pois não combinavam com a ‘lida diária´”, escreve.

E mesmo no núcleo urbano não faltam relatos de mulheres que, lado a lado com seus maridos, aliavam a rotina doméstica (que já incluía pequenas criações) à contribuição nos negócios da família. Um exemplo é o de Marie Wetzel (nascida Isensee), casada com Germano Wetzel. Consta no Arquivo Histórico de Joinville relato sobre sua participação nos primeiros tempos da fábrica de velas e sabão fundada pelo sogro e administrada pelo marido. “Maria, recém-casada, cozinhava para os operários que trabalhavam na fábrica instalada no fundo de quintal. Também atendia na loja, onde vendia os produtos da firma: vela e sabão”.

Assim, o mais provável é que na hora de Helene Hygom decidir arrendar a farmácia, tenha pesado a necessidade de um profissional específico para dar continuidade ao atendimento. Helene e os filhos, entretanto, continuaram a morar no sobrado.

 

Campainha garantia atendimento 24 horas

Os anos passaram, as crianças da família Hygom cresceram e Emilie, a mais velha, casou-se com o jovem Frederico Henrique Germano Koelling. Para administrar os negócios da família, Fritz, como era chamado, foi estudar farmácia.

No antigo sobrado, a família de Emilie e Fritz cresceu. O filho mais velho, Frederico Henri Olavo (também conhecido como Fritz), nasceu em 1920. Em 1923 nasceu Helena, a Leni (que veio a se casar com Werner Richlin). Em 1929, após um arranjo familiar, Emilie e o marido assumiram a Farmácia Leão. O atendimento ao público era realizado no mesmo prédio. Já o laboratório para a manipulação dos medicamentos funcionava em uma casa ao lado, que já não existe (no local, hoje funciona uma sapataria).

Ainda na primeira metade do século 20, Fritz já garantia o atendimento às emergências durante à noite. Filha caçula de Helena e com o mesmo nome da mãe, a tradutora Heleninha Richlin conta que a farmácia tinha uma campainha ligada diretamente ao sobrado. A qualquer hora da noite, ao ouvir o chamado, Fritz descia para atender o cliente. Além disto, as farmácias do centro de Joinville já faziam um rodízio para não deixar a comunidade na mão. “Sempre havia uma de plantão para as emergências”, conta.

Mais uma morte, porém, veio alterar a rotina da família. Em 1940, Emilie faleceu prematuramente. Desgostoso, Fritz vendeu a farmácia (não o prédio), mandou retirar o já tradicional leão da porta de entrada e decidiu se aposentar. “Quando viram, o leão já estava derretido”, conta Heleninha. Apesar disto, ele continuou morando no sobrado, onde faleceu em 1948.

 

Novos tempos, novos usos

Tombado e bem conservado pela família, o casarão da antiga Farmácia Leão, na rua 9 de Março com  rua Comandante Lepper (a da praça da biblioteca municipal) é um exemplo de preservação do patrimônio histórico. O imóvel perdeu o leão da fachada, mas mantém as características originais e, adaptado aos novos tempos, continua tendo uso comercial.

Depois da morte de Fritz, a família continuou a morar no local. Helena se casou com Werner Richlin em 1958 e também residiu ali, onde nasceram os três filhos do casal. “Nasci aqui e morei até um ano de idade. Depois os meus pais se mudaram”, conta Heleninha. O imóvel só deixou ser usado como residência a partir do início dos anos de 1970.

Na década de 80, ele foi ampliado. A nova construção, porém, conta com as mesmas características do prédio centenário e só um observador atento consegue distinguir a parte nova da antiga. A área térrea passou a abrigar estabelecimentos comerciais variados, como lojas de roupas, cosméticos e óticas. O segundo andar é alugado para  profissionais liberais e prestadores de serviços, como psicólogos, massagistas, entre outros. “Está todo tombado. Até a parte nova, da década de 80”, conta Heleninha.

Obs.: Este texto integra o livro “Se Essas Paredes Falassem – um breve olhar sobre antigas casas que marcaram a construção de Joinville”

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