Escolhido: “Sonho não realizado”, de Nelci Seibel

A seleta plateia aguardava com expectativa o início do espetáculo. A tão esperada artista era eu, que faria minha estreia como pianista. Entraria no salão, trajando um vestido branco de renda, com várias saias de armação, cintura marcada por uma fita de cetim, que acabava do lado esquerdo com um laço e um arranjo de flores suavemente colorido. No cabelo, cuidadosamente ondulado, uma passadeira de strass, que pertencera à minha avó dava o toque final.

Ao adentrar o palco, a plateia eufórica aplaudia. Eu agradecia, com acenos e mesuras, dirigindo-me à banqueta, junto ao imponente piano de cauda, especialmente lustrado para a ocasião. O público se acalmava e prestava atenção, enquanto, com gestos graciosos de menina-moça (16 anos), descalçava as luvinhas rendadas e ajeitava o rodado vestido.

O silêncio era total quando, mãos sobre o teclado extraía dele os acordes de abertura. Minha composição preferida desde minhas primeiras noções de música seria também a primeira interpretação no meu concerto de estreia.

Enquanto tocava minha emoção crescia e revertia em lágrimas, impedindo-me de enxergar. Nem precisava. Meus dedos flutuavam como mágicos, transformando os movimentos em acordes divinos. Que será, será, aquilo que for será, o futuro não se vê, que será, será…” (de Carlos Cezar e Cristiano). Era o ápice da realização e da felicidade.

Pena que foi só um sonho! Ao longo da vida, ao ouvir uma música de piano, fecho os olhos e relembro a visão da minha deslumbrante estreia de pianista. E a emoção aflora pela milésima vez: que será, será, aquilo que for será……”.

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