Felicidade

O Leocádio fazia uns bicos no jornal. Como “foca”, realizara algumas boas reportagens e tinha, sob sua responsabilidade a crônica policial diária, a qual dava sabor inventando títulos engraçados para as notinhas sobre prisões, desordens, embriaguezes, brigas domésticas entre casais e vizinhos.

Entretanto, não fora arrolado entre os membros da comitiva governamental que visitaria uma cidade no centenário de sua fundação, participando dos festejos comemorativos.

Mas, à última hora, o diretor, por conta e risco próprios, gritou para ele.

– Oh Leocádio, não queres ir também ?

Leocádio, com os olhos compridos de quem espera tal convite, espiou por cima dos óculos e respondeu:

– Tem lugar?

– Dá-se um jeito. Te arruma e vamos logo, que o automóvel da Secretaria está esperando.      Nem contou tempo. Apanhou a impermeável, eternamente pendurada no cabide da sala de redação, vestiu o paletó de lã xadrez e gritou:

– Estou prontinho chefe.

– Então, vamos.

Era um viagem de três horas por estradas em péssimo estado, mas que, para a passagem da comitiva, fora patrolada, tornando-se uma fita no dizer geral.

Leocádio estava excitado com a inesperada aventura e preocupado por não trazido dinheiro. Será que o diretor soltaria algum? Ficava chato pedir, depois do convite.

A recepção foi festiva, com a bandinha tocando, foguetes espocando, colegiais balançando bandeirinhas e retratos do governador, o povo aplaudindo das calçadas, a passagem da comitiva  pelas ruas da cidadezinha.

Leocádio estava impossível de contentamento. Fora apresentado pelo diretor às autoridades como “o meu secretário”.

Foi um dia cheio de recepção, almoços, coquetéis, discursos, declamações, e à noite, após o jantar, uma retreta encerrou os festejos, que teriam prosseguimento na manhã seguinte.

Leocádio estava exausto. Mas não frouxa. Ainda ficaram tomando uns aperitivos, o diretor, algumas autoridades e pessoas do local.

Por fim, alguém sugeriu irem descansar, para estarem dispostos amanhã. Foi uma ideia aceita e todos se prepararam para dormir. Menos o Leocádio, é claro, que, não estando arrolado na comitiva, deixava de ter aposentos reservados. O diretor falou sobre o problema e logo surgiu uma solução. Um senhor disse que tinha um quarto, não muito bom, mas que serviria para ele descansar. Era onde dormia a babá das suas crianças, que estava desocupado. Leocádio nem titubeou em aceitar.

Despediu-se de todos, tomou o carro com o seu hospedeiro e foi dormir, na cama da babá.

Lá pelas duas ou três horas da madrugada, acordou-se com uma voz que chamava baixinho:

– Felicidade! Felicidade!

Ficou quietinho ouvindo os chamados em tom amoroso. Vinham do lado de fora da janela, que estava aberta e só encostadas as suas folhas.

– Felicidades! Felicidades! Eu vou aí, tá? Abrindo a janela e preparando-se para pular para dentro, como se isto fosse um velho costume.

Aí o Leocádio sentou-se na cama  e disse baixinho, também para não fazer escândalo:

– Que é isto?

E a voz cavernosa, quente e languida respondeu quase num sussurro:

– Sou eu. O que é Felicidade?

– Felicidade, é? Felicidade – gritou, acendendo a luz e frustrando as intenções do Don Juan – foi eu ter-me acordado.

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