“Ingratidão”, de Alessandro Machado

A arte de ser Policial Militar é um sacerdócio. Normalmente, tem-se que conviver com uma luta diária contra o crime, contra as mazelas sociais que de forma proposital ou não existem no cunho íntimo desse Brasil. Todo policial, militar ou não, já tem em mente que “enxuga gelo”. No livro “A Síndrome da Rainha Vermelha”, o autor, Marcos Rolim, teve a intelectualidade de expor a doutrina da atividade policial. Em seu título já decifra o que se vê no filme “Alice no País das Maravilhas”, de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll, onde a personagem da rainha fala a Alice:

“Vamos, Alice, corra, corra mais”. Exausta com o esforço, ela se frustra quando percebe que não saiu do lugar. No mundo da Rainha Vermelha é assim mesmo. Corre-se mais e mais, para não sair do lugar. Alias, é preciso correr muito para ficar no mesmo lugar. (Rolim, Marcos – 2009) 

 

Corremos para sofrer nos mantendo no mesmo lugar. O normal, das Polícias Militares e Corpo de Bombeiros Militares, é ter a procura de ingresso por jovens que querem uma mudança na sociedade. Jovens que querem ajudar e servir ao próximo. Não é à toa que o juramento policial militar nos obriga a defender a sociedade mesmo com o risco da própria vida. A nossa vida, para nós mesmos, é menos importante que a de quem nós servimos.

Esta introdução, um pouco maçante confesso, serve de esclarecimento para o caso que vem a seguir.

Certa feita, nos idos da primeira década do século 21, alguns bravos policiais militares, lotados no GRAER, foram acionados para um atendimento de resgate, em um bairro chamado Espinheiros, na cidade de Joinville.

Assim que ocorreu o empenho, a guarnição correu até a aeronave para dar início aos procedimentos de acionamento. Na época, e sinceramente não sei se ainda vale nos dias de hoje, saímos todos em desabalada carreira, o que era proibido e condenado internamente com a justificativa de atentar contra a segurança de voo. Ainda hoje fazemos assim e nunca houve relato de perigo a respeito. Mas, pois bem, voltemos ao caso.

Tripulante operacional a postos defronte a aeronave, piloto gesticula solicitando acionamento, tripulante responde reportando o mesmo gesto, ignição e rotores girando. Assim que todos estão a bordo, dado o comando de “cabine pronta”, a decolagem está autorizada. O tempo estava abaixo dos mínimos para decolagem, mas dentro de um padrão aceitável de gerenciamento de risco, que somente se justificava por se tratar de socorro a uma pessoa que estava em risco de morte.

O voo, comandado por um experiente comandante, transcorreu normalmente, e assim que chegamos ao local, cerca de cinco minutos após o giro dos rotores, foi feito um breve circuito no entorno do acidente, em uma rua movimentada do bairro, a procura de local para pouso.

Na rua, podia ser visto um ser humano envolto em um manto vermelho e um pouco a frente sua motocicleta, em estado irrecuperável, e ironicamente envolto em um manto negro sob suas ferragens. Ambos os líquidos que compunham os mantos reluzentes eram liquido vital para o funcionamento das máquinas em questão.

Afastado cerca de uns 50 metros da motocicleta, havia um poste danificado e partes de metal e plástico espalhados no asfalto molhado, o que presumia a alta velocidade e, pela curva, a perda de controle e colisão com o monstro de concreto.

Um local para pouso foi encontrado. Defronte ao local do acidente, havia uma escola, e nos fundos, uma quadra de basquete. Não havia fios cruzando a quadra, e apesar de muito apertado, a perícia do piloto fez com que nossa Águia “estacionasse” bem no centro daquele pedaço de cimento pintado.

Os nossos socorristas, policiais militares, treinados para as mais diversas funções, naquela missão estavam imbuídos em fazer o suporte básico da vida àquele jovem que aguardava ser removido a uma unidade hospitalar.

Os policiais, de modo geral, não estão acostumados a reconhecimento e elogios, mas na atividade aérea, assim como na dos Bombeiros, algumas vezes pessoas ficam impressionadas e algumas vítimas emocionadas em gratidão pelas asas que a salvaram. Mas nem sempre é assim.

No local, os dois socorristas e o Comandante de Operações aéreas participaram do resgate. O Comandante, cioso de suas atribuições junto ao seu pássaro, fica sempre junto a ele na espera da chegada de seus comandados, geralmente com a maca rígida sendo carregada pelos mesmos.

O motociclista foi “embalado” e conduzido a pé até a quadra onde estava a aeronave. No local de embarque, a vítima, um jovem com muitas tatuagens, aparentando ter pouco mais de 18 anos, estava consciente, com diversas fraturas, suspeita de traumatismo craniano e hemorragia interna. No momento em que foi posto dentro da aeronave, o segundo piloto que exerce a função de Comandante de Operações Aéreas, trazia nas mãos alguns pertences da vítima, como um pé de seu tênis.

A surpresa ocorreu de forma súbita e impressionante. De repente, o jovem olhou para o 2 P (segundo piloto ou co-piloto) e disse:

– Vê se não vai roubar meu tênis!

Por alguns instantes, ainda pasmo com aquela súbita declaração, o policial teve vontade de usar aquele pé de tênis velho para dar uma surra naquele ingrato. Algumas pessoas que estavam olhando nossa ação ficaram indignadas. Pode-se ouvir um “deixa ele aí!”, mas teve quem achou graça. Nós achamos triste.

A ingratidão desconcertante daquele rapaz suscitou dúvidas entre os integrantes da guarnição. Prontamente, de posse de sua identidade, foi levantado seu histórico criminal, e para nossa surpresa, uma boa surpresa àquela altura, estava com mandado de prisão em aberto.

Assim que pousamos no hospital, foi solicitada uma viatura com dois policiais a fim de fazer escolta para a vítima que, por falar demais, se transformou em preso.

Esta é o paradoxo do trabalho policial. Algumas vezes você salva, outras você prende, mas o certo é que esse ciclo nunca acaba. O que nunca acaba também, apesar das intempéries e ventos contrários, é o eterno vigor da Polícia Militar em cumprir seu juramento, seja para prender, seja para salvar, sempre sem esperança de reconhecimento e gratidão.

A motocicleta era roubada.

Alessandro Machado

ROLIM, Marcos. A síndrome da rainha vermelha: policiamento e segurança pública no Século XXI. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed: Oxford, Inglaterra: University of Oxford, Centre for Brazilian Studies, 2009.

 

 

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