Insólita cólica

Eram idos de uma década passada. Início de experiência no comando da aeronave da Polícia Militar. Época de descobertas geográficas e operacionais a serviço do Estado catarinense.

Nesses dias de estudo, cada ocorrência nos obriga a ter o máximo de atenção e consciência situacional. São dias muito diferentes uns dos outros – e situações das mais diversas.

Certo dia, final de semana com certeza, estávamos muito à vontade nas pobres dependências de uma Base em construção, quando o som que faz sentir frio na barriga dos novatos tocou. O celular do segundo piloto em comando, conhecido em termos técnicos na aviação policial como “Comandante de Operações Aéreas” tilintou. Era o “batsinal” para um atendimento de ocorrência.

Naquele final de semana, devido à entrada de uma frente fria, o dia, que estava manso e sereno na sua escalada matinal, transformou-se em uma buliçosa tarde de verão com ventos muito fortes.

Nosso chamado era da Central dos Bombeiros Voluntários de Joinville. Havia uma pequena embarcação, de aproximadamente 16 pés, com três pescadores em perigo, pois a informação dava conta de que estavam fazendo água. Era de se imaginar como estaria a Baía da Babitonga, com a previsão – que logo se confirmaria – de mar agitado e ondas grandes. A Baía normalmente é de águas calmas, sendo a maior preocupação dos usuários o conhecimento dos mais diversos canais, a fim de que não encalhem em bancos de areia.

Como de costume, a tripulação de voo lançou-se lepidamente ao encontro do pássaro de ferro. Em questão de parcos instantes a decolagem já havia sido feita.

Com velocidade aproximada de 125 nós, a chegada à Baía da Babitonga fez-se em questão de minutos. Com altura suficiente para visibilidade de uma grande área, logo foi possível localizar o barco perto de uma grande pedra oval, abalroada pelas ondas da maré que enchia.

Voando em círculos, mantendo contato visual com os três pescadores, fizemos o planejamento de como seria a operação de resgate. O barco já estava com uma preocupante quantidade de água, e os homens com feições desesperadas tentavam em vão com canecas e com as mãos retirar a água que entrava. Imediatamente supusemos que havia uma avaria no casco, provavelmente relacionada à pedra que estava a poucos metros deles.

As águas estavam agitadas. Era como se a mãe do filho-peixe irradiasse um arroubo de mau humor. A missão teria que ser cumprida.

No alto, um homem vestido de neoprene amarelo pendurado na porta da aeronave sinalizou aos pescadores para que se aproximassem da pedra. Era certamente um procedimento perigoso, pois havia o risco de colisão e dano com esse procedimento. Mas não havia outro jeito.

Remaram. Em instantes estavam tentando fundear a embarcação que colidia lentamente com a face ondulada da formação rochosa, que mais parecia uma enorme bola enterrada na água até a metade.

Nesse intervalo de tempo, em uma manobra em que se coloca apenas um esqui apoiado na pedra, do Águia 01 desembarcou um militar multimissão. Pode assim, de forma segura, auxiliar no desembarque das três pessoas na pedra. Um deles, ainda não identificado relutou em sair, sendo convencido pelos colegas que era a sua melhor opção.

Estavam assim aqueles quatro homens no cocuruto da rocha, aguardando a retirada. Logo a aeronave se aproximou e um a um foram embarcados, ficando solitariamente aquele bravo soldado que os auxiliara. Ocorre que na parte de trás da aeronave, aonde vão os passageiros, cabem apenas quatro pessoas, e já havia um militar a bordo.

No caminho de retorno à Joinville, onde os resgatados seriam deixados no píer do Iate Clube da cidade, em um aprazível bairro de notável gastronomia marinha, chamado Espinheiros, foram questionados sobre a situação em que se encontravam. Foi aí que a parte inusitada dessa história começou.

O planejamento da pescaria vinha de tempos atrás. Colocaram em prática na noite anterior, onde em uma reunião paroquial combinaram um encontro no Iate Clube para, no barco de um deles, se regozijarem em agradável lazer no rio Cubatão, que desemboca na Baía da Babitonga.

Tudo ia dando certo, horários cumpridos, apetrechos de pescaria a bordo, iscas e tudo mais. Como bons amadores, não atentaram para a previsão meteorológica, e focaram apenas na visão maravilhosa e fascinante de uma Baía radiante com o brilho intenso da luz solar rebatendo no espelho d’água.

A manhã passou rápida como a juventude e logo no encetar da tarde o vento começou a soprar mais forte e o mar outrora sereno passou a estapear o casco do pequeno barco. Decidiram então que seria o momento de voltar ao ponto de partida. Porém – sempre existe um porém em histórias como esta – o religioso que estava a bordo, inteirou os demais que necessitava de forma urgente e inapelável dar uma “barrigada”.

Com revelação inusitada, logo surgiram muitas ideias de como fazê-lo. A maioria, que consistia nos dois outros ocupantes, queria que a operação fosse realizada com o barco em movimento, à moda antiga como nos galeões portugueses que aportaram no Brasil há mais de 500 anos. Consistia simplesmente em arriar a calça, sentar na parte lateral do barco deixando apenas as pernas do lado de dentro e aliviar a pressão. Só não se sabe se teria um cabo de sisal desfiado para a higiene depois.

Essa ideia foi refutada pela parte que sofria. O religioso, pessoa muito conhecida na cidade pelo seu carisma e extrema bondade, naquele momento mostrou-se contrariado e ofendido com a proposta. Queria a todo custo que atracassem naquela pedra, a mesma onde foram resgatados, e ali aliviaria sua insólita dor.

Tentaram uma primeira aproximação e não conseguiram. Tentaram uma segunda e assim que o padre subiu na pedra a embarcação levou um violento golpe das águas e chocou-se na face ondulada da rocha. Quebrou o casco e começou a entrar água. O desespero tomou conta de todos, e enquanto um acocorava na pedra, os demais freneticamente enchiam tudo o que podia servir de balde para impedir que afundassem.

Telefonaram para o Corpo de Bombeiros, que imediatamente nos acionou. Em questão de menos de 10 minutos já havia socorro vindo com céu para ajudar.

Caso resolvido, porém ainda tínhamos que resgatar nosso companheiro que ficara na pedra. Retornamos ao local e logo avistamos aquele guerreiro em pé na pedra com cara de poucos amigos. A índole jocosa inerente aos que trabalham nesse ramo veio imediatamente à tona.

Assim que embarcou, já nos fitou com ironia, sem saber o porquê da nossa zombaria; e, com pés molhados que acabaram de ser lavados, disse que pisou em um grande objeto mole e eivado de graveolência, que só poderia ter vindo de um elefante voador.

Mais um caso de que nem tudo é verdade, onde, até na aviação militar, o povo aumenta, mas não inventa.

 

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