⭐ “Joinville, 1970” de Alcides Buss

JOINVILLE, 1970

Em tempos recentes, você se envolvera na criação de uma academia de letras na cidade. O sodalício (ai, que palavra!) foi instalado oficialmente com a presença de dois representantes da Academia Brasileira de Letras, Dinah Silveira de Queirós e Aurélio Buarque de Hollanda. Era bem notório que as pessoas “de cima” apreciavam esse tipo de iniciativa, e até aplaudiam. Mas agora você estava às voltas com indícios e ameaças concretas de punição por coisas que dizia e fazia. As informações sobre isto lhe chegavam por vias indiretas, como se a trama se urdisse em mãos que não quisessem se mostrar. Sem esmorecer, você avaliava e creditava tudo ao jornal universitário O Acadêmico. O que começara como um jornalzinho, crescera de tamanho e já atingia a tiragem de três mil exemplares. Além dos textos literários, passou a publicar artigos dos principais intelectuais e até de alguns professores. Numa série de artigos aprofundados, escritos por seu amigo e colega Afonso Imhof, (o jornal) trouxe à tona a situação e o papel da mulher na sociedade. Iniciou uma campanha pela abertura da biblioteca pública municipal aos domingos. Passou a criticar a deficiência dos cursos, em especial o comportamento de alguns docentes que faltavam ao trabalho. Abordou a realidade vivida pelos índios. Com o trocadilho “O Epidêmico”, criou um espaço para o humor crítico, e assim por diante. A gota d’água, no entanto, parecia-lhe ter sido a colocação, numa determinada manchete, da palavra cueca. Por este detalhe o mundo vinha abaixo. Segure-se quem puder! O diretor da Faculdade era o matemático Mário Morais. Discreto, chamou você e expôs a situação difícil. Sua prisão era iminente, questão de dias. Morais tinha carinho por você e o mesmo tinha você pelo mestre. Os filhos dele haviam sido seus alunos no Colégio Marista. Existia, pois, consideração de parte a parte. Para salvá-lo do drama anunciado, ele lhe sugeriu que escrevesse e tratasse de publicar um poema sobre algum herói nacional. Claro, devia ser um poema de elogio. Você foi pra casa, pensou, pensou e disse a si mesmo: sim, por que não? Compôs sem demora o poema e publicou no Jornal de Joinville. Morais pegou o jornal e levou a Brasília, onde, segundo lhe disse depois inúmeras vezes, mostrou aos generais e advertiu-os de que você não era o que pensavam. Em semanas, a situação se acalmou. Você estava salvo!

 

Alcides Buss, do livro Em nome da poesia

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