Sobre demônios e borboletas

Do encontro com Isolda, o perfume era a lembrança mais nítida, mas José não sabia descrevê-lo. Aquele perfume, para ele, era como se fosse sentimento, só sabia senti-lo. Sentia que era bom e o levou a tocar com a ponta dos dedos a borboleta tatuada nas costas de Isolda. Um abraço, um beijo leve nuns lábios breves e José encontrou, aos 39 anos, finalmente, o amor.

Isolda já tinha o amor em intimidade e nos últimos tempos só sabia repudiá-lo. Toda intensidade do amor de José tinha que caber no único beijo dado. E mesmo quando nas palavras de um poeta José veio com jeito de quero ficar de novo, ela disse não, e contou ao pobre sobre outro poeta, real, português, que conhecera pela Internet, e contou também sobre os demônios que a assombravam. José sofreu. Isolda, nem aí.

–  Prefere teus demônios?

– Sim, nos amamos… Atormentaram-me até eu dar ouvido.

– E o que te fará abandoná-los? Ou sempre os levarás contigo?

– Não os abandonarei, estão lá me incomodando. Mas ultimamente acho que deixei de ouvi-los.

José manteve o olhar numa estrela qualquer. O tema da conversa era mais do que ele podia compreender. Só sabia que ela estava noutra; e com demônios à sua volta que ele não entendia.

– Tu tens devaneios demais, José. Precisas fincar teus pés no chão.

José olhou para os pés confortáveis no velho sapato e imaginou se o diabo do poeta distante que Isolda amava tinha os pés no chão, “poeta com pés no chão!”, exclamou. Mexeu os dedos e sorriu com um pedacinho da boca “Eu tenho os pés no chão”.

– Tu tens a cabeça nas estrelas, José.

O pensador, num quase espanto, sorriu com mais boca desta vez. Parecia que ela lhe conhecia os pensamentos. Isolda acabou de ajeitar o cabelo e disse “vamos”. José foi. Caminhou pela praça da igreja ao lado de Isolda com um cordeiro na expressão e um lobo no pensamento. A fila do sorvete era enorme e o assunto de José era pouco, não porque não houvesse algo em comum entre o desenhista e a costureira. Eram até dois tagarelas quando se encontravam, mas no momento o homem estava mais querendo usar a língua para outra coisa.

A fila mal andava e a distração eram as luzes novas da velha praça. José dividia sua atenção entre elas e o perfume de Isolda, entre a fila do sorvete e as costas da moça. Os dedos dele estavam prestes a tocar a pele suave à sua frente quando a danada se virou.

– José, tu já viste um OVNI?

– OVNI? Devolveu a pergunta, escondendo as mãos no bolso.

– É. Disco voador.

– Não.

– Eu também não. Mas sou louquinha pra ver um.

– Por quê?

– Pra entrar e viajar para um planeta distante, tocar as estrelas, e depois ver o mundo com um olhar menos bíblico. Acho que o universo tem muitos segredos que quando a gente descobrir, tudo o que é moral e crença vai mudar.

– Tu és surpreendente, Isolda.

– Tenho aprendido a divagar com meu poeta.

– O tal português?

– Que outro?

– E quando se encontrarão de verdade?

– Ontem ele me disse que chega em breve. Não vê a hora.

– Já pensaste que posso ser um demônio também?

Isolda refletiu, olhou para a imagem de Nossa Senhora num caminhão e quase indecentemente respondeu:

– Eu nunca almejei o paraíso.

– Que bom. Eu não sei se tenho paraísos para oferecer.

Depois de um breve sorriso, a morena olhou com olhar de simplesmente amiga e destruiu a ousadia do pobre.

– Tu és tão bobo, José.

O bobo do José sorriu um sorriso com cara de nojo e a fila andou. O filme começaria em alguns minutos e ele olhou para seu relógio.

Não. Não foi bem assim. O bobo com sorriso de nojo não sabia onde enfiar a cara, a fila andou e José olhou para o relógio mais para não ficar sem ação do que para ver as horas. Isolda, ao ver o gesto do bobo, perguntou se estavam atrasados. Ele que havia olhado, mas não visto as horas, olhou novamente.

– Oito e dezessete.

– Treze minutos.

–  É.

A fila deu mais um passo, o ponteiro do relógio, duas voltas.

– Tu queres mesmo sorvete, Isolda?

– Deixa pra lá, senão vamos perder o começo do filme.

– O próximo! – Chamou o atendente, e o próximo era o casal. Isolda riu-se, José também e eles foram ao cinema com o sorvete na mão e a obrigação de devorá-lo antes de começar a sessão.

O filme era bom, mas José mal pode vê-lo. Ele só pensava em encontrar uma forma de tocar com as mãos as mãos de Isolda, ou de inclinar o corpo para aproximar o rosto do dela e, quem sabe, num virar de pescoço roubar-lhe um beijo. Ou então fazer um comentário qualquer no ouvido da moça; um sussurro, que sussurro é bom para deixar a boca bem pertinho do ouvido da pessoa amada. Mas o fato é que o filme acabou e José não o viu, nem conseguiu aproximar os centímetros necessários para fazer do encontro de amigos um namorico que fosse. Acabou por deixá-la na porta de casa.

– Tchau, Isolda.

– Não vou te convidar para entrar porque já é tarde.

– Entendo. Tchau. “Vidinha besta” pensou o desenhista

“Estás porque queres. Estou porque quero. E havemos de… Se houvermos de ser”, escreveu o poeta numa janela do Messenger. A resposta de Isolda apareceu em letras verdes.

– Estou a ponto de me “amarrar”, estás pronto para isso também?

– Só se for às estrelas. Somos capazes de chegar às estrelas?

– Num muro de Curitiba eu li “pintou o céu no muro e teve as estrelas ao alcance das mãos”.

– Lindo isso. Nós teríamos como nos acorrentarmos lá? – ousou o poeta.

– Talvez não… Mas faremos o seguinte: há umas estrelinhas que brilham no escuro, podemos colar no teto.

– Perfeito.

Na manhã seguinte, o poeta partiu de Braga rumo ao Brasil e Isolda foi trabalhar pensando mais em costurar seu destino ao do português do que costurar as peças que deslizavam à deriva em sua máquina. José não passava nem perto da lembrança da moça, mas ela pisava, e nem sabia, de tamanquinho no coração do pobre. Quase desistindo de conquistá-la, mas não de possuí-la, o desenhista rabiscava nas folhas de papel o momento em que conseguiria mais do que o beijo breve que lhe fora esmolado. José era tinhoso e maquinava dia e noite uma forma de satisfazer-se do amor carnal, porque Platão que vá sonhar pra lá, ele queria era viver o sentimento em carne e osso. O que o injuriado não sabia era que seu rival estava no avião a caminho de Joinville.

As costas de Isolda no papel e a borboleta que José fez levantar voo eram toda a produção daquele dia. As ilustrações de um livro, trabalho atrasado, continuavam por serem feitas. José não tinha cabeça para trabalho, mas entendia cada dia mais de filosofia: “O homem no mundo gira em torno da fêmea, mesmo o dinheiro, que é base para tudo, só tem valor se puder ser gasto com a mulher amada”. E mais uma borboleta voava das costas de Isolda para outro canto do papel.

José saiu do trabalho e, na praça, encontrou o Dicana. Convidou-o para uns goles.

– Você está pagando? – Perguntou o Dicana

– Pago uma – Respondeu José.

– Só uma, José? Que convite pela metade.

– Duas cervejas. A terceira é por sua conta.

O Dicana aceitou, mas resmungou muito antes de sentar-se na cadeira de vime do barzinho. A cerveja foi pedida e chegou depressa. Um brinde e um gole e o Dicana já não reclamava mais. A vida molhada de bebida se acalma. Os dois homens pensavam em suas próprias questões, que mais tarde virariam tema público, reveladas na mesa do bar. Isolda estava na pauta, mas não foi trazida à mesa por José, quem tocou no nome da moça primeiro foi o Dicana.

– A Isolda foi hoje comprar umas roupas no shopping. Está que é uma beleza, com olhar brilhante, cabelos bonitos.

– Ela sempre se cuidou. Usa uns produtos de marca e tal.

– Pra mim o produto que ela anda usando é paixão.

– O quê?

– É, José, paixão deixa a mulher bonita, mais do que cosmético. Ela está é com cara de mulher apaixonada, esbanjando sorrisos.

A bebida desceu esquisita na garganta do tolo do desenhista. Por ele que não era essa tal paixão. E como as palavras de Dicana foram tomadas como verdade, José que só queria beber por beber, bebeu por dor, despudoradamente. Dicana foi de embalo e secaram uma caixa. Madrugada, álcool e fossa era a tríade de José, anti-herói na vida de Isolda. O trágico trocou passos trôpegos e só chegou a sua casa quando os primeiros raios de sol atingiram o Beco dos Mijados, donde um cheiro muito específico era exalado mais forte nas manhãs de domingo. A cama foi consolo para o corpo torto de José.

– Senhores passageiros… – A voz impertinente da comissária de bordo entrou pelos ouvidos do poeta, como entrou o cheiro do outono brasileiro em suas narinas. Da janela via a enorme pista e um pedaço do céu enquanto ajeitava o cabelo dormido. A brasileirinha devia estar esperando no saguão e ele não queria mais perder tempo. Nem tudo é perfeito, nem poesia. A brasileirinha não o esperava. Coisa de quem bate cartão, ela cosia uma nova veste sob o olhar de sua supervisora. “Táxi, táxi”. O carro parou e o poeta entrou.

O encontro com Isolda ficou para o jantar. Shopping é pouco romântico, mas neste caso, a moldura não afetaria o quadro. As pernas do poeta tremiam. Isolda não sentia as dela. A costureira flutuou do trabalho até o local do encontro e se alguém perguntar algo, ela não se lembrará. Só lembra que foi feliz.

No dia seguinte, alfinetou o dedo várias vezes. Foi chamada à atenção pela supervisora e viu o tempo arrastar-se no relógio redondo da parede, que se pelo menos tivesse o ponteiro dos segundos não daria tanto a impressão de que o tempo não anda.

O relógio da sala do José, ao contrário, corria hora adentro. O desenhista já recebera três telefonemas cobrando as ilustrações do livro. Autoajuda. E nem toda autoajuda do mundo o faria terminar aquele trabalho. Nada autoajudaria o apaixonado a não pensar em Isolda e no poeta português, que por ele não conhecer, pintava-o como um deus grego, superior, mais elegante, mais poderoso, mais merecedor do amor da costureirinha. Demônios povoavam a cabeça de José, que não abandonou o trabalho, nem encheu a cara, porque achava isso muito clichê para essa história que se pretende original.

Deu um gole no suco de goiaba de caixinha e ouviu o telefone tocar mais uma vez. E mais uma vez. E outra. E outra. Resolveu atender. “Não. Preciso de mais tempo”… “Não posso fazer nada”… “Não vou conseguir, eu já disse!”… “Então chame outro e não me encha mais o saco!”. O estrondo do telefone batendo no gancho ensurdeceu o contratante do outro lado da linha. José se livrou do problema. Foi para a praça, agora sim, beber até cair.

Caiu.

José caiu na velha armadilha de afogar as mágoas. Beber à derrota é tão eficiente quanto matar a sede com água do mar. Bebeu derrota até encher-se dela.  Derrota é bebida que se serve com boa dose de sofrimento. A ressaca é o ódio, de si e de todos. José caiu mais uma vez em armadilha. Alimentou-se de ódio e ficou cego. Quando o poeta português entrou no bar, José ouviu o sotaque que nunca pareceu tanto com o sotaque de um inimigo e só não partiu pra cima dele, porque de tão bêbado tropeçou na intenção e caiu do banco. Para aumentar a humilhação, a mão que lhe correu em socorro foi a do poeta. “Tudo bem?”. Mas a extrema humilhação se deu quando o pobre se pôs a chorar naqueles ombros lusitanos que serviriam, como ele mesmo pensou, de pousada para Isolda.

– Venha, meu amigo. Acho que tu bebeste além da conta.

José quase sentiu carinho pelo português e, de tanto conflito, sua cabeça pesou e ele desmaiou. Acordou momentos depois, no bar quase vazio. A cabeça explodia e ele queria sua cama. Alcançou-a só mais tarde e jogou-se sem nem tirar os sapatos.

O português comentou de forma muito peculiar o que acontecera no bar momentos antes. Embevecida, a costureirinha olhava o poeta a narrar uma história tão chula com as palavras mais nobres que havia para narrar histórias tão chulas. O resto do encontro foi feito de olhares carinhosos, mãos comportadas e, claro, palavras. Antes que o leitor questione ou imagine qualquer ousadia, vou logo dizendo que o encontro terminou nem era meia-noite, quando o viajante deixou a moça em frente de casa, logo após despedir-se com um resignado beijo no rosto. A atitude cavalheiresca do poeta só fez aumentar o desejo de Isolda.

Como era de se esperar, Isolda acordou muito bem-humorada, José com uma dor de cabeça insuportável e o português levou alguns segundos para identificar o quarto de hotel e entender que estava ao sul do equador, num país tropical. O telefone tocou e uma voz empolgada dizia “bom dia”. Era Isolda querendo marcar um novo encontro, talvez um almoço. Mas foi surpreendida pela urgência do poeta que a convidou para um café da manhã̃ no hotel. O convite foi aceito de pronto e em menos de trinta minutos o casal se servia de pão sete grãos, ovos mexidos, queijo, geleia, suco de laranja e duas boas xícaras de café com leite. Em casa, José tomava uma aspirina e café amargo.

Mais do que dor, José estava com demônios na cabeça e se soubesse o resultado de suas atitudes aquele dia, não teria resgatado o revólver do guarda-roupa, nem chegado à praça justamente na hora em que o poeta usava a língua de declamar poesias para descobrir o gosto dos lábios de Isolda.

– Chega! – Foi logo gritando com a arma em punho.

– José! – Espantou-se Isolda.

– Este é o bêbado do bar de ontem. – Informou o português.

– Bêbado é teu pai! – A arma, que apontava para o gajo, disparou. Queda e grito.

Com um tiro no ombro, o poeta despencou mal acreditando que ainda via, ouvia e sentia, coisas comuns a quem está vivo. Após o grito, Isolda ajoelhou-se ao lado do amado e um aglomero se fez ao redor. Curiosos, altruístas, prestativos, curiosos e mais curiosos esticavam calcanhares e pescoços para ver a desgraça melhor. Cena de filme, sangue de verdade. Teve quem achou até bonito o poeta caído cujo sangue tingia a camisa de fio branca.

A arma virou objeto estranho nas mãos de José que a largou e escafedeu-se. Ambulância, polícia, disse-que-disse, choro, ponto, atadura e sirene. Tudo se viu naquele resto de dia, menos o autor do tiro. O pobre diabo sumiu e só apareceu dias depois para se entregar à polícia. Como não foi preso em flagrante, nem seu objetivo teve sucesso, José vai responder o processo em liberdade.

Aventura vivida a dois fortalece o amor. Fortaleceu tanto o amor do poeta e da costureira, que nada do gajo voltar à terra de Camões. O português desfila por aí com a cicatriz no ombro e já dedicou pelo menos dez poesias à Isolda para falar do sangue derramado, da cicatriz estampada em seu corpo e de como tudo isso fez aumentar seu amor por ela.

Isolda, por sua vez perdoou José, mas José não a perdoou. Vive acabrunhado, mais bêbado que sóbrio; mais dolorido de vergonha que de desilusão. Ao lado do amigo Dicana, bebe, entorna, afoga-se. Vez por outra volta aos papéis e aos desenhos. Tem desenhando demônios e lagartas à espera do julgamento. Espera também um auxílio da literatura, uma guinada na história, um milagre literário que este autor não está disposto a fazer. A história acaba assim.

 

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