📘 Walter de Queiroz Guerreiro – Discurso de posse

DISCURSO DE POSSE

 

 

Walter Guerreiro

Saúdo a Sra. Presidente da Academia Joinvilense de Letras, e assim o fazendo aos demais membros dessa Associação, senhoras e senhores:

Há anos passados, em 2013 se não estou enganado, Paulo Roberto da Silva sempre voltado à história dessa cidade reviveu essa Academia que permanecia adormecida e Carlos Adauto Vieira foi eleito Presidente. Meu conhecido e amigo de longa data convidou-me a fazer parte, e naquela ocasião declinei por não ser afeito a esse gênero de atividades, quer eu queira ou não sinal claro de um caráter diríamos antissocial, um porco-espinho, animalzinho simpático, porém retraído, tímido e solitário. Ao pensar nisso não me lembrei da metáfora de Schopenhauer sobre o porco-espinho, um lapso da memória ou a primeira das coincidências? O porco-espinho se assemelha ao crítico, atividade que exerço de longa data nas artes visuais. A verdade, sempre ela, é que numa fase inevitável da existência, como sintoma entre calmarias e ventos avassaladores percebemos que esperanças postergadas não serão mais alcançadas, cidades e portos não visitados jamais serão vistos a não ser pelos olhos da fantasia, que perdemos a confiança na desrazão dos caminhos traçados. Inventário deprimente da vida, na única constante a solidão. Não desejo me alongar nessa expansão íntima, entretanto reside ali a justificativa para me congratular pela generosidade desse convite, e de tê-lo aceito.

Inúmeras vezes passo pela rua Tijucas demandando alguma unidade da FCJ, e a residência do fundador e primeiro Presidente dessa Academia, Adolfo Bernardo Schneider me atrai como solar ancestral em sua quietude, paredes caiadas em rosa-antigo desbotadas pelo tempo, árvores com pássaros esvoaçantes, por vezes um magnífico cão pastor acorre ao portão vigilante mas dócil, olhos nos olhos, e me quedo em paz. Digo isso, pois, seguindo as orientações do Secretário dessa Academia soube da necessidade de escolher uma das vagas existentes e justificá-la. Analisei os nomes dos acadêmicos anteriores pensando qual poderia honrar, e dentre eles estava Adolfo Bernardo Schneider. Longe de mim a pretensão de estar à sua altura, contudo havia pontos em comum, a profissão de historiador, uma vez que minha formação inicial foi em biologia e a segunda em história, e para completar ter sido ele o criador do Museu de Sambaqui. A pesquisa está entranhada em meu DNA, a arqueologia como fascínio me conduziu à extinta Comissão de Pré-História de Paulo Duarte onde atuei nas primeiras escavações de sambaquis paulistas, depois como funcionário concursado no Instituto de Pré-História da USP, hoje Museu de Arte e Arqueologia.

Inevitável voltar ao tópico das coincidências, meu interesse sobre cultura material me levou a aprofundar sobre mobiliário, enquanto Diretor do Museu Fritz Alt sobreveio convite se não poderia ser curador de exposição sobre Karl Völkl, o mestre-artífice na Casa d’Agronômica. Aceitei e ao discursar na abertura falei sobre as “coincidências” que talvez se devessem ao Grande Arquiteto do Universo, sob olhar curioso do governador Luiz Henrique da Silveira. A arte como desafio intelectual faz parte de meu dia-a-dia de há muito como crítico de arte, área essencialmente polêmica.

Abro um parêntese, aqui mais uma “coincidência”: o patrono da cadeira 36 é o jornalista e editor alemão Robert Gernhard, viajante alemão no século XIX que em 1885 criou o jornal Neue Kolonie-Zeitung em Joinville, explicitamente para defender a candidatura a deputado federal do liberal Francisco Antunes Maciel. Em 1887 funda o jornal Reform para informações aos leitores de língua alemã, porém seu objetivo é bem outro, como defensor empedernido do Deutschtum no pangermanismo apregoado pelo Reich é um polemista e crítico social, embora não seja na arte, felizmente!

Dentre tantas “ferramentas” que utilizo na crítica de arte a Psicanálise tem lugar destacado, e inevitavelmente Jung com seu approach universal ocupa o panteão dos símbolos. Há uma obra dele cujo título deriva do conceito que desenvolveu para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal, mas pelo significado: é a sincronicidade ou “coincidência significativa”. A sincronicidade é um assunto complexo, uma vez que os elementos que compõem os eventos são impossíveis de ser reproduzidos, o que em ciência é um pecado mortal.

Seria então a sincronicidade uma fantasia? Existiria um padrão subjacente à esses eventos que conduzissem a uma coincidência significativa?

Jung e o físico Wolfgang Pauli importante pesquisador na mecânica quântica (desenvolveu trabalhos sobre o princípio da Incerteza de Heisenberg e hoje confirmados pela descoberta do bóson de Higgs) buscaram compreender o que vai além do raciocínio lógico sem chegar a uma conclusão.

Minha formação filosófica nos anos sessenta teve Bertrand Russell como mestre automaticamente alinhou-me com o pensamento agnóstico, o que pode ser comprovado cientificamente existe, o resto não. Mas o tempo, esse destruidor de convicções trouxe-me dúvidas, e alguns fatos vividos reavivaram essa questão em aberto. Nas tradições hindus alega-se haver três níveis de existência: a física, a quântica e a universal que vai além do espaço-tempo, e que seria a origem das sincronicidades,algo que conecta tudo como emanação.

Daí a pensar que Miguel de Cervantes tinha razão ao dizer que no creo en brujas, pero que las hay las hay! Sincronicidades justificaria tudo isso, ou seria então mais prudente se alinhar com Tomás de Torquemada e queimá-las?

Finalizando dou a palavra a Carl Sagan: A ausência de provas não é prova da ausência.

 

 

 

Walter de Queiroz Guerreiro

Cadeira 36 da Academia Joinvillense de Letras

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