đź“– Receita para conto policial (Hilton)

RECEITA PARA CONTO POLICIAL

Hilton Görresen

É fácil escrever um conto policial. Em primeiro lugar, deve acontecer um crime. Conto ou romance policial sem crime é como praia sem mar, cerveja sem álcool, Claudinho sem Buchecha, etc., etc.

Evidentemente, se há um crime, tem de haver uma vítima. Vítima é aquela que geralmente aparece morta no início da obra. Se a vítima for rica ou pobre, isso alterará o cenário do crime. Longe de mim a discriminação, mas pobre ser assassinado em cenário de rico, ou o contrário, já complica mais a coisa. Tendo a vítima e o crime, o que falta? Acertou, o criminoso. Já vou adiantando: não vá cair no lugar-comum de atribuir a culpa ao mordomo, mesmo porque já quase não existem mais mordomos.

A trama deve ser complexa. Nada desses crimezinhos cotidianos, sem imaginação, nos quais basta investigar o ex-marido, o padrasto, o caseiro, o namorado ciumento, o traficante, o amante da esposa. Sempre haverá aquele suspeito para o qual apontam todas as circunstâncias, mas no final se verá que é inocente. Em alguns casos, o suspeito-inocente poderá ser um dos acima citados.

Falta agora a estrela do show, o defensor da ordem e da justiça. Tchan! Aí vem o detetive. O detetive esperto, aquele que “detecta” o criminoso, que tira brilhantes conclusões até de um fiozinho fora de lugar, é uma criação do escritor Edgar Allan Poe, no século 19, através de seu detetive amador C. Auguste Dupin. Poe foi seguido brilhantemente por Conan Doyle (Sherlock Holmes) e Agatha Christie (Mister Poirot). O detetive não precisa ser bonito. Sherlock era um magricela, de nariz adunco; Poirot, um gordinho com um bigode ridículo. Deixe a boniteza para o suspeito que transa com a esposa da vítima.

Agora a cena está armada. A vítima está fazendo o seu papel (se o conto for filmado, seu cachê deve ser o mais baixo de todos, pois é quem menos tempo aparece). O detetive é chamado e chega com seu velho chapéu amassado e sua capa de chuva, mesmo que o tempo esteja bom (mas se o conto se passa em Joinville é bom prevenir). A inconsolável viúva está derreada numa poltrona, e o detetive já acha que ela está exagerando. Se fosse na Inglaterra, seria choro só pra inglês ver.

Há que se considerar também a “morte intermediária”: é a “queima” do personagem que parece saber demais. Quando abre a boca para informar alguma coisa ao detetive, bam! A morte intermediária é também quase um lugar-comum.

Bom, os ingredientes estão aí. Você só tem agora que mexer o bolo, movimentar as peças. Ah! Ia esquecendo: e usar a criatividade.

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL A A GAZETA DE SBS EM 02.10,2021

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