Passeando pela história

Em homenagem a Adolfo Bernardo Schneider

 

Tempos assinalados, pontos de referência, convenção histórica, as datas comemorativas promovem na vida das comunidades uma série de rituais e festejos, preservam a memória histórica. Como um elemento não tangível do patrimônio cultural, o conhecimento dos fatos e a lembrança de experiências vividas colaboram para a sobrevivência do homem no seu meio ambiente.

Foi um ambientalista e historiador quem me forneceu uma fonte riquíssima acerca de fatos, feitos e causos que deram vida ao cotidiano joinvilense na primeira metade do século 20. Trata-se de Adolpho Bernardo Schneider. É da sua autoria o livro modesto em sua apresentação, mas de conteúdo empolgante:  Memórias de um menino de dez anos. No dia em que o li, um dia de inverno, chuvoso, perfeito para saborosas leituras, senti seu Schneider na minha frente, contando-me aquelas coisas todas. Foi com prazer enorme que saboreei aquelas páginas escritas numa linguagem toda própria.

Aproveito, então, o aniversário da nossa cidade, a de sua fundação, para dividir com o leitor o conhecimento de algumas passagens da história de Joinville contadas por seu Schneider, mesmo sabendo que não possuo o dom de um texto saboroso como o do autor quando conta, por exemplo, da enchente (sempre as enchentes…) de 24 de março de 1906. Alagou o centro da cidade e, para completar a hecatombe, as águas do rio Cubatão irromperam pela baixada do Rio do Braço, provocando uma enxurrada no centro, a ponto de a casa pertencente à família Fissmer, na rua 15 de Novembro, ter sido invadida pelas portas e janelas. Aliás, essa casa ainda existe (1995) e abriga a Floricultura da Gisela, talvez a primeira em Joinville.

Conta Schneider que no começo do século as estradas de ferro estavam em plena expansão, quando Joinville comemorou com grande pompa a visita do Presidente da República, Afonso Pena. Viera a fim de inaugurar o trecho São Francisco– Joinville, que ostentava um produto da alta tecnologia europeia, uma ponte giratória (a vapor) sobre o leito do Linguado. A visita do Presidente é citada por seu Schneider como o maior acontecimento do ano de 1906: o que havia de mais distinto do mundo político, social e econômico da Cidade dos Príncipes(…) praticamente todos de fraque e cartola, foi recepcionar o presidente.

Na carona da descrição do banquete oferecido ao Presidente, preparado pelas senhoras joinvilenses, seu Schneider, como é do seu estilo, envereda por outros caminhos – eis um dos pontos que me encantam – e, num deles, lembra que não havia champanhe nacional e que a indústria nacional do vinho ainda vestia sapatinhos de nenê.

Em Joinville havia diversas casas que vendiam bebidas importadas. Uma delas pertencia ao Sr. Luiz Niemeyer, na rua 15 de Novembro, esquina da Schulgasse (o beco da escola, porque era caminho para Escola Alemã, atual Colégio Bom Jesus).  Também o Sr. Augusto Urban, em sua venda de secos emolhados, vendia bebidas de qualidade, na esquina da atual rua Dr. João Colin com a Dr. Mário Lobo.

Ao ler o trecho em que Schneider narra a passagem dos liliputianos, uma raça de gente miúda, tipicamente anões, viajo por uma Joinville pequenina, cheia de graça, ao imaginar essa gente que à noite faria uma apresentação artística no Salão Berner. Haviam desfilado pela cidade num Landauer – pequeno coche de luxo trazido da Islândia, atraindo um público encantado e curioso.

O cocheiro, também anão, ostentando um chapéu-cilindro preto, enfeitado com penacho, conduzia pequenas senhoras liliputianas ricamente vestidas, uma delas segurando uma sombrinha de seda rendada com um laço de cetim no cabo, um esplendor, verdadeirasprincesas do mundo das liliputianas… A carruagem era puxada por dois pôneis. Um autêntico conto de fadas (…) tinham tudo para mexer com a nossa fantasia, disse o menino Schneider.

Redescobrir Joinville com suas dificuldades, lutas, mas também com seus encantos, é algo precioso, eu diria imperdível. Pena que não possa falar da infinidade de detalhes pitorescos contidos nesta obra, leitura obrigatória para quem curte a cidade.

Enfim, acabei quase fazendo uma resenha, mas confesso que, sem as fontes do seu Schneider, qualquer coisa que eu escrevesse para comemorar a data da fundação da Colônia Dona Francisca seria de menor valor. Aproveito, então, para manifestar meu reconhecimento por tudo o que ele nos tem proporcionado como verdadeiro cidadão joinvilense.

Hoje, no festejado dia 9 de março de 1995, do alto dos seus oitenta e tantos anos, continua numa atividade intensa, preparando o segundo volume das suas memórias que, confesso, estou louca para ler.  (Publicado em A Notícia, março de 1995)

 

Sobre o dito e o não dito no artigo acima

 

Escrevi Passeando pela História em comemoração ao aniversário de Joinville, porém o fiz evocando a figura extraordinária de Adolfo Bernardo Schneider. Legítimo representante do joinvilense, descendente da primeira geração de imigrantes alemães, um perfeito teuto-brasileiro que amou Joinville tanto quanto amou a história, o meio ambiente, o deutschtum, a Alemanha e o Brasil.

Esteve presente, como membro ativo, na fundação do Museu de Sambaqui de Joinville, do Arquivo Histórico, do Museu Nacional de Imigração e Colonização, da Biblioteca Pública Rolf Colin, da Casa da Memória. Foi um dos fundadores da Academia Joinvilense de Letras; enfim, em tudo o que dizia respeito ao desenvolvimento cultural, meio ambiente e memória histórica da cidade lá estava ele.

Enquanto ninguém falava em memória histórica, Schneider colecionava documentos. Quando o meio ambiente era ainda explorado sem limites, já se pronunciava com veemência sobre os perigos desta prática para a sobrevivência do planeta. Não raro o fazia publicando artigos no A Notícia, quando, após expor sua indignação, falava da relação do ser humano com seu meio, sempre usando como suporte as então exóticas teorias dos ambientalistas, quando não expunha as suas. Foi Adolfo Bernardo Schneider uma das primeiras vozes a clamar pelo rio Cachoeira, isso num tempo em que as fábricas têxteis de Joinville livremente pintavam suas águas de verde, azul ou roxo com a maior naturalidade.

Foi imenso o prazer que senti ao ler o primeiro volume das suas memórias, Um menino de dez anos, numa tarde chuvosa e fria de sábado. É preciso realmente ter um espírito jovial e novidadeiro para escrevê-las tal como escreveu seu Schneider. O traço mais marcante deste menino de dez anos, e que me encantava, era a maneira com que resolvia a coexistência de sua forte germanidade com sua não menos sólida brasilidade. Ricas memórias: de fatos, de humor, de teuto-brasileirismo, de cidadania.

Quando, em 1986, sem nenhum item germânico em minha certidão de nascimento, fui nomeada diretora do Arquivo Histórico de Joinville e, para complicar, a primeira diretora na bela edificação do prédio novo, foi-lhe difícil disfarçar sua decepção. Soube depois que ele comentara: como pode uma cabocla que nem fala o alemão dirigir o Arquivo Histórico de Joinville? Então ia ao Arquivo e quase diariamente me entregava uma carta contendo lições de como lidar com os valiosos documentos que não raras vezes ele tinha adquirido com dinheiro do seu próprio bolso. Eu recebia aquelas instruções não sem um tanto de humor condescendente, início de uma relação de grande respeito mútuo.

Em 1978, quando frequentávamos um curso de história oral, meu grupo entrevistou-o durante nada menos que seis horas seguidas, lembro bem, numa das salas da então FURJ. O que mais me chamou a atenção em seu relato não foram os fatos em si, mas a maneira como ele os encarava. Ao contrário do que aparentava, Schneider era um romântico.

A narrativa sobre seus passeios num lago de Hamburgo com sua então namorada, depois esposa, era plena de beleza e poesia. Nessa ocasião manifestou essa faceta até então oculta para mim. A singularidade que então demonstrava completava-se com o enorme interesse pelas pessoas, pela vida, pelo planeta.  Adolfo Bernardo Schneider se foi no dia 21 de julho de 2001, silenciosamente, o que não condiz com sua personalidade ora entusiasmada, ora indignada, ora romântica.

Sua casa, cercada de árvores e pássaros, recheada de livros e documentos históricos, nos fornece a dimensão da perda deste cidadão plural, interessante, excêntrico, querido. Merece não somente nossa reverência, mas o respeito à sua memória. Deve ser lembrado pelos joinvilenses como exemplo de um teuto-brasileiro que, considerando-se de nacionalidade alemã pelo sangue, não esqueceu sua brasilidade pela vertente da cidadania, sem anular sua condição humana nos rompantes do entusiasmo, agressividade, angústia e afetividade. Este foi Adolfo Bernardo Schneider.

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