Ac. Rodrigo leu “Palmeiras Selvagens”, de Faulkner

FAULKNER E AS PALMEIRAS SELVAGENS 

Até hoje li, infelizmente, apenas duas obras de Faulkner. Em ambas fiquei boquiaberto. A primeira foi Sartoris, já há alguns anos, que contava a saga de uma decadente família do sul dos Estados Unidos.

A segunda foi Palmeiras Selvagens, de 1939, que conta fundamentalmente a história de um casal maldito, levado pelo amor e pelo prazer, formado por Wilbourne e Charlotte. Destruindo uma falsa estabilidade, o par vaga de modo quase errático pelos Estados Unidos, aproveitando as oportunidades que surgem para sobreviver. O salto inicial que possibilitou a viagem se dá de modo quase mágico: Wilbourne encontra, numa lata de lixo, cerca de 1200 dólares (que corresponderiam, hoje, a algo em torno de uns 23 mil dólares). Isso permite-lhes viver por alguns meses, até que, num isolamento digno de um Walt Whitman, refugiam-se apenas com enlatados (Whitman provavelmente não aceitaria os enlatados) numa choupana à beira de um lago. Ali o idílio foi completo, reforçado por um veranico de outono, em que o casal apenas queria se deixar estar. Mas o peso da realidade é maior, e é necessário voltar ao dia a dia. Charlotte arruma um emprego decente em Chicago, mas isso não é suficiente para Wilbourne. Ele quer definitivamente cortar os laços com a civilização dependente do dinheiro, em que já não há mais lugar para o amor. Seu desencanto e anarquia o levam para um reino brutal: servir  como suposto assistente médico numa mina em Utah.

Há duas histórias paralelas em Palmeiras Selvagens. A outra, intitulada O Velho (em alusão ao rio Mississipi) remete a prisioneiros subitamente tragados por uma enchente, com um dos condenados auxiliando uma grávida a dar à luz em plena enchente. Retrata-se aqui a brutalidade do sul dos Estados Unidos, seja quanto aos azares da natureza, seja quanto às relações pessoais e institucionais e ao destino de seu povo. A descrição dos efeitos da enchente (possivelmente motivada por um tornado, lembrando-nos da tragédia ocorrida em New Orleans em 2005) é aterrorizante e consegue dar precisão ao caos.

O tema da gravidez permeia também a história de Wilbourne e de Charlotte. Wilbourne recusa-se a fazer o aborto da esposa do administrador da mina; e depois atreve-se a fazer o de Charlotte, após muita insistência dela e dúvidas dele.

Faulkner tem um estilo denso, impregnando a concretude de um lirismo notável. Mas é um lirismo bruto. Cria diálogos simples, discorre sobre questões da vida prática, e subitamente transforma palavras em poesia. Vai criando, assim, outra tessitura do real.

Há escritores que nos prendem, outros que admiramos, alguns que constroem uma boa história, mas raros são aqueles que conseguem criar uma dramaticidade tão intensa e pesada. Ler Faulkner é mergulhar numa parte crítica e contestadora da alma norte-americana, em especial nas peculiaridades do sul dos Estados Unidos.

Em Janeiro de 2022

Rodrigo Bornholdt

 

 

 

 

 

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