Fatias de tempo

Drummond de Andrade, talvez o maior poeta do Brasil no século passado, saiu-se com esta: ‘Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui em diante vai ser diferente’. Casa com início de ano. Melhor ainda se no Brasil ou Joinville.

A citação foi usada por colega jornalista, a propósito de súbita conclusão de que não daria tempo para a leitura de todos os livros diante da prateleira, nem tampouco para conhecer todos os lugares planejados e menos ainda para escrever todos os textos necessários. Simplesmente, a vida se abrevia a cada dia e nos tornamos reféns de tantos compromissos, reuniões, debates e conhecimento. O tempo é a escassez mais urgente para todos. Fatiá-lo é apenas a estratégia da esperança, mas os minutos, horas, dias e meses são invencíveis e escoam para a eternidade.

Pensando no tempo, foi que me lembrei de antigo mestre de que me afastei da leitura por anos. Lin Yutang, autor chinês do começo do século passado, apreciado no Brasil nas décadas de 1940/50. Tenho um exemplar da edição datada de 1941, da Livraria do Globo, de Porto Alegre. Veio, em 1993, como presente de pessoa a quem recomendei o autor e que se encantou com o pensador e filósofo da China, bem antes dela afundar no capitalismo. O exemplar continua aqui, ao alcance da alma e da memória.

Pois Lin Yutang fala sobre a generosidade do tempo, não de sua escassez. Escreve sobre a verdadeira arte de viver, da arte de trabalhar e da arte de não fazer nada. Sim, isto mesmo, a vida, em sua melhor essência, é também feita de vagabundagem. Ficar por aí, espiando o mundo e a vida. Revendo velhos problemas e como foram resolvidos. Muitas vezes, diluindo-se no tempo e por isso mesmo resolvendo-se todos em passe de mágica. Disso é que os modernos precisam, tempo para não fazer nada. Falar coisas simples, fatiar as horas, silenciar o tumulto da comunicação em tempo integral em que vivemos.

Chang Ch’Ao, contemporâneo de Lin Yutang, escreveu com invejável simplicidade: ‘Só aquele que encara despreocupadamente as coisas com que se preocupam os homens, pode preocupar-se com as coisas que os homens encaram despreocupadamente’. Não ler livros pode ser tão importante quanto lê-los, se, naquele tempo, deixarmos a mente descansando, absorvendo o mundo. O silêncio continua o maior aliado da mente. Difícil é aprender a silenciar o espírito, objeto e objetivo de todas as filosofias. Busca que causa exaustão e desconforto e nos impede o gozo da quietude, da plenitude e da sublimidade que se esconde na ataraxia, ideal de vida dos gregos, 500 anos antes de Cristo.

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