Maria Sucuri

{Do romance Sangue verde}

 

HÁ QUINZE ANOS, longe do garimpo, num povoado às margens do rio e encravado na selva, entre o Cerrado e a Amazônia, onde madeireiros avançavam destruindo a floresta, um fato assombroso se dera…

O rio corre tranquilo no meio da densa floresta, com águas turvas e arenosas, quietamente. Os jacarés repousam nas margens, aproveitando o resto da quentura da areia. Bandos de maitacas despedem-se do sol alaranjado. Escurece aos poucos; a mata fica mais compacta e cheia de vida.

— A água está cada vez mais baixa. Dá pra ver o leito do rio — comenta Zé das Trilhas, coçando os cabelos enrolados, quase pixains, ao mesmo tempo encostando os cotovelos no balcão velho e ensebado do armazém.

Outro, sentado num banco de madeira, antigo morador da barranca do rio, dá uma pequena cusparada entre os dentes falhos. Chama-se Gabiroba. Tem o rosto magro e chupado, cheio de rugas, a barbicha rala e ruiva embranquecida.

— Nunca vi seca igual. Olha que tenho mais de sessenta anos. Parece que a água está sumindo…

O dono do armazém não se aguenta, também quer dar o seu palpite, mexe-se incomodado, como se tivesse alguma coceira. Olha em direção da porta. O breu da noite já cobriu o pátio:

— Os peixes estão morrendo com falta de ar, aos montões. Lá pra cabeceira, um filete de água só, o rio sumiu. Os peixes morrem no meio do barro e apodrecem. O fedor vai longe, ninguém suporta. As barrancas fedem, pura carniça. Arre, que seca!, a garganta arde e os olhos lacrimejam.

— É de assustar, seu Durval. Coisa braba mesmo. Se alguém riscar um fósforo, os campos e a floresta ardem, viram carvão. O vento se encarrega de fazer estragos nos folhames secos. Sol a pino, as folhas murcham como mortas. Parece que ela vem com mais sufoco a cada ano…

— Hoje — volta a comentar o dono do armazém —, que calorão! Nenhuma nuvem no céu. O areião pegava fogo. Nos vãos dos dedos, a areia queimava. Até índio calçou chinelo. Também, pelo que se diz, o desmatamento deixa os rios pelados, nem nenhuma arvorezinha…

Depois desse comentário, houve uma longa pausa, como se a cabeça daquela gente tivesse ficado vazia. Pernilongos e maruins deixavam os três homens inquietos. Ao redor do lampião, o enxame de mosquitos rodopiava. As sombras dos homens se alongavam pelas paredes de tábuas disformes, dançavam, cresciam, encurtavam feito fantasmas. No relógio velho e amarelado, o ponteiro assinalou oito da noite. Não havia nenhuma aragem. O suor vertia por todos os poros. Incomodados, os homens se mexiam e as sombras nas paredes os acompanhavam, alongando-se e encurtando-se.

Um cachorro magro esgueirou-se entre as mesas e cadeiras toscas, e sentou-se ao lado de Zé das Trilhas, acostumado àquelas conversas, porém atento ao que ocorria no pátio.

— Mas que danado! Não falei pra não me seguir, Pintado! Já pra casa!

O cão malhado balançou freneticamente o rabo, mirando o seu dono com carinho, enquanto lambia suas mãos calosas e sujas.

— Seu Durval, tem um pedaço de linguiça frita por aí? É pro meu cachorro. Olhe só, como é faceiro e educado, parece que foi na escola… Quer me acompanhar por todo canto.

Veio o pedaço de linguiça. O cão engoliu sem mastigar, numa só bocada. Estava faminto e sabia que conseguiria alguns restolhos de alimento. Lambeu o beiço, deitou-se novamente, cruzando as patas. Em seguida, ficou olhando fixamente o seu dono, pedindo mais.

— Sai pra lá, Pintado! Por hoje, chega.

— Manda esse pulguento embora, Zé, aqui não pode entrar cachorro não. Espanta os fregueses.

— Ah, essa é boa… Lugar de respeito… O Pintado não tem pulga não. Ele se banha no rio várias vezes por dia. É mais limpo que a gente. Quando chega mendigo lá em casa, ele avança como doido .Abocanhou a perna de um pestilento. Não gosta de gente emporcalhada.

O velho Gabiroba está quieto, ouve atentamente pelo ouvido esquerdo, pois o outro está entupido e faz uma zoeira danada. Parece que está ausente, mas não é verdade. Fala pouco, gosta mais de ouvir. Quando fala, faz um tremendo esforço, espreme os olhos, aperta as rugas da testa. Se a conversa cai no vazio, ele consegue soltar as palavras, mas depois que começa não para mais — uma velha matraca enferrujada que se movimenta aos trancos.

— Ela está de volta…

Ninguém o contraria. Zé das Trilhas enxuga o suor da testa e pede outro mercedinho de cana.

— Não me engane, seu Durval. Aprecio cachaça de alambique. Essas de garrafinha de plástico não me servem. Não quero que meus pés inchem como um balão!

O velho Gabiroba volta a falar, espremendo as rugas da testa:

— Há sinais dela nas redondezas…

O silêncio continua.

— Ela, quem, velho idiota? — zanga-se Zé das Trilhas tomando a cachaça de uma só talagada. — Ela, quem?

Gabiroba se cala. Não gosta de receber maus tratos. Ele não está brincando. Pressente a presença da maligna. Aprendeu com os anos a sentir os rios e a floresta. Conhece rios e florestas como se fossem a palma de suas mãos magras. Não está na idade de fazer brincadeiras. Responde, lacônico:

— A grande cobra. A sucuri…

— Por que diz isto, velho maluco! Conte outra.

Seu Durval apoia-se no balcão. A madeira range. Ali, em seu armazém, está cansado de ouvir histórias. Todo dia, novos casos. Se levasse a sério, já estaria maluco. Mas ele não dá ouvidos.

— As águas estão baixas, o ar está seco, dói a garganta. O fedor dos peixes mortos espanta os animais da barranca. Então, ela sai à procura de animais vivos e frescos. Vi, na estrada, perto da aldeia, o rasto dela no areião. É das grandes! Por onde  rasteja, a macega fica imprestável.

— Viu nada! Deve estar sonhando! — rebate Zé das Trilhas. — Este tipo de cobra não ronda a corrutela. Fica nos varjões distantes, onde vivalma não aparece. Com as derrubadas, as pastagens chegando, as margens dos rios sendo devoradas, elas recuam pros lugares distantes. Nas pastagens, ficam as caninanas e as cascavéis. Por aqui, nos banhados, só cobras d’água, pode crer.

O velho se aquieta. As sombras dos homens dançam nas paredes do armazém. Seu Durval olha o velho com interesse, perguntando:

— Sucuri pega boi, também?

— Se pega! A bicha tem força e muita manha.

— Olha que boi tem tutano, seu velho mentiroso! Não estou falando de bezerro novo, cabrito, porco pequeno…

— Pega boi grande e devora. Ela sabe lidar com a força dele. Ninguém, entre nós, sabe medir a força dela…

— Essa eu nunca vi! É difícil de acreditar… Boi arrasta toras do meio do mato, arranca caminhão de atoleiro… Cobra não é corrente de ferro. Ela, se fizer isso, se estoura toda!

O velho Gabiroba sente-se motivado. Seu Durval oferece uma talagada de cachaça.

— Pode tomar, é por conta da casa.

Com as mãos trêmulas, ele emborca o líquido amargo. Faz caretas, repuxa a face direita, espreme os olhinhos. Olha os dois homens, novamente repuxa a face. Depois começa a contar:

— Sucuri não dá golpe em falso. Não perde a oportunidade, seu Durval. Ela se prepara com antecedência. Não é boba, não. Acredite: ela não se mete em serviço falso. Se errar o golpe, bambear a laçada, ela pode mudar de moita por quilômetros. Gado nenhum passa por ali. Toda a boiada fica assustada. Boi também não é bobo, não. Depois de assustado, avisa toda a boiada. Você pensa que só o homem tem sabedoria? Como ela dá golpe? Ela golpeia no focinho, bem nas ventas, não é no lombo ou nas pernas. É no focinho!

— Você está mentindo! – altera-se Zé das Trilhas. — Conheço bom pedaço da floresta e nunca vi coisa igual. Você acha que um boi esperto vai deixar cobra grudar no focinho? Arre, ouço cada uma!

O velho não se ofende. Espera os ânimos se acalmarem. Estica uma boa olhadela para o pátio escuro do armazém. Depois, volta a se apoiar no balcão, sem pressa, como se examinasse o assunto com muita seriedade.

— Não é mentira. Eu já vi. Sei que é assim. Ela fica dias quietinha, sondando a boiada, escolhendo a presa. Ela não se arrisca com as mais espertas. Escolhe as mais pacatas, as que não têm pressa. Sempre tem uma rês lerda no meio. Não são só as mais lerdas… Boi cego, os velhos, porque são ruins de ouvidos, ou porque já se acham muito cansados. Depois, esses bois já viram tantas coisas na vida que pensam que já não serão surpreendidos por nada. Então, ela fica à espreita, escolhendo o alvo, que não é besta, muito menos apressada. Se é boi cego, ela gosta mais, porque ela sai sorrateira justamente do lado do olho cego. Ela não quer a boiada toda. Só quer uma rês. Não é esganada.

— Ela ataca a qualquer hora? — pergunta seu Durval, os cotovelos atolados no balcão ensebado.

— Que nada! Ela, primeiro, se amarra numa raiz forte no fundo do banhado, um nó bem dado, com a ponta do rabo. Depois, ela fica com a cabeçorra de fora d’água, à espera, sem afobamento, apreciando, escolhendo, quase morta. A boiada pasta, anda daqui pra lá, nada percebe. Mas a bitela continua lá, a cabeçorra fora d’água, a ponta do rabo na raiz numa trança de nó. A cabeçorra parece um toco de pau boiando, chata e escura. Com certeza, já escolheu a rês. Justamente a que tem algum defeito: a que está mancando da perna esquerda, mas não tem ferida podre. O inchaço é grande, mas não está podre. Ela não aprecia podridão. Ela mede bem o tamanho da rês, só pra calcular a força que despenderá. Mas não tem pressa. Também sabe de outras coisas. Não é xucra, não. Por exemplo, o sal que o vaqueiro colocou nos cochos…

— Até isso?! Ora, o que tem a ver o sal nos cochos com a sucuri? Você está inventando!

— Pois aí está a sabedoria dela. Quando o vaqueiro coloca sal nos cochos, o gado se empapuça e vem de hora em hora no banhado pra beber. Até isso ela sabe. Então, ela deixa o escolhido vir uma, duas, três vezes beber água. Ela não se move. A lua sobe no céu, os sapos param de cantar. Ela não quer saber de sapos. Isso é pra cobra pequena, dessas que não fazem mal pra ninguém. Ela quer sustança. Na quarta vez, quando a lua está no meio do céu, quando o boi embrenha no barro até o meio das canelas, ela mergulha de mansinho, rente ao fundo da lagoa, sem sujar a água, quietinha, cada vez mais perto do boi, até o ponto certo do bote. E zás! Gruda nas ventas.

— Nas ventas! Mas por quê?

O velho Gabiroba se enche de orgulho. Sua fala mansa e prudente causa espanto. Sente-se importante, cheio de estima.

— Ela começa a chupar o ar que o boi respira, até bambeá-lo, deixando a presa cada vez mais fraca. O boi sacode a cabeça, quer chifrá-la, abaixa a cabeça, tenta pisá-la com os cascos dianteiros. Mas ela está firme, continua grudada, visgo de jaca. Ele consegue fugir uns passos, mas ela puxa de volta. O rabo está preso na raiz no meio do banhado. Ela puxa, depois afrouxa, puxa e afrouxa, sempre sugando as ventas dele. Os outros bois correm assustados, pia agonizante a coruja no meio da noite. A presa continua ali berrando desesperada. Quando ela afrouxa, ele corre dez a quinze metros. Bicho esperto a sucuri! Bambeia, estica e se afina, parece que vai rebentar, mas, de repente, ela tranca e começa a puxar de volta, engrossando, inchando — o nó cego arrochado na raiz garante o tranco. O boi é puxado de volta, os cascos arrastando no brejo e no capinzal, enquanto solta mugidos doloridos e agonizantes. Quando está próximo, o corpo dela está grosso. Então, ela solta de novo, deixa o boi correr mais dez a quinze metros, e o corpo dela fica fino igual corda de viola, mas não arrebenta. O pobre boi está sem ar, cansado, já não tem mais força…

— Ela se afina mesmo como corda de viola? — pergunta, meio assustado e admirado, Zé das Trilhas, enquanto aperta o dorso do cão.

— Artimanha dela. Espicha, encolhe, afina, engrossa, sempre com o nó do rabo numa raiz forte. Até que o boi fraqueja… Enfraquecido, mal respira. Ela, então, enlaça-o pelo pescoço, depois pela barriga e dorso. É o fim. Ela arrocha mesmo e quebra os ossos um por um. Por uns dias, ela se amoita e tem comida farta… Não se incomoda com ninguém. Ela está com a barrigona cheia. Todo mundo pode passar perto dela, até tropeçar nela que nem bola dá.

As sombras dançam inquietas nas paredes do armazém. O velho Gabiroba sentencia:

— Ela está espreitando pelas redondezas.

Os dois homens estão ressabiados. Olham assustados o pátio escuro como se tivessem ouvido um rastejar. Pouco conversam. Está na hora de fechar as portas; pernilongos e maruins, na noite morna, estão sedentos de sangue.

 

* **

Todos os dias a menina, alegre e saltitante, vai à escola. De manhãzinha, quando o orvalho se transforma em cristais nos arvoredos baixos e nas relvas, ela caminha na estrada poeirenta. O pai, quase sempre, a acompanha. Distante do povoado, no meio da selva, primeiro eles caminham por uma trilha estreita e tortuosa, depois vão pela estradinha mal cuidada e poeirenta. Pai e filha vão conversando. Os chinelos levantam uma poeira fina — plác-plóc-plác-plóc! Macacos e pássaros, às margens da estrada, agitam o começo da manhã. Pai e filha, de mãos dadas, vão cantarolando:

 

Jacaré tá no caminho,

                Tá quereno ti pegá!

                Oi que bicho tão danado,

                É mió nóis dois vortá!

 

Estão animados. Para ele, está levando a filha para um futuro glorioso. Para ela, a segurança da mão amiga no meio da floresta. Por isso, brincando, cantarolam. Os pássaros respondem nos arvoredos molhados.

— O que vai ser quando crescer?

A menina sente as pupilas dilatarem enquanto caminha.

— Quero ser dançarina!

— Ah, Maria, dançarina você já é. Tem que escolher outra coisa.

Enquanto saltita pela estrada, pensa. Dos lados, a selva.

— Quero ser cantora!

— Ah, Mariazinha, cantora você já é!

A menina para e fica pensando, pensando. Enfim, responde:

— Quero ser artista de circo!

— Deus me livre, menina! É a pior coisa do mundo.

Ela caminha mais um trecho.

— Quero ser médica, papai!

— Isso mesmo, filhinha, isso mesmo!

— Igualzinha a que vem de vez em quando na escola…

— A doutora Margarida! Isso mesmo, minha filha! Ela salva vidas!

— Quero um vestido branco igualzinho ao dela, papai!

— Isso mesmo, filhinha!

Ambos sorriem e dão-se as mãos.

A estradinha faz uma curva abrupta, em seguida contorna um banhado largo e longo. Há uma ponte de toras de madeira, com pranchas cheias de felpas. Atravessam a ponte de mãos dadas, cantarolando:

 

Jacaré tá no caminho,

                Tá querendo ti pegá!

                Oi que bicho tão danado,

                É mió nóis dois vortá!

               

A menina tem medo de cair no banhado e se agarra ao pai.

— Meu Deus! Já são quase oito horas!

Apressam o passo. Para trás fica o banhado.

Perto da ponte, sorrateira, a cabeçorra chata e escura fora d’água, feito um pedaço de pau fincado no brejo, está a sucuri. Espreita silenciosamente o grande banhado, despretensiosa. Escolhe com sabedoria a próxima presa.

 

* * *

 

Outra manhã, outra manhã… Mais outra. O brejo seca um pouco todos os dias; a estiagem enxuga as águas como esponja. Campos e florestas crepitam sob o sol do meio dia. Os rios fedem; os peixes apodrecem nos leitos ressequidos. Durante a noite, a selva respira, o orvalho se cristaliza nas folhas. Os bichos saem de suas tocas aliviados; as árvores dançam na brisa morna.

Mais outra manhã.

— Mulher! A Mimosa deu cria! Está com a metade do bezerro pra fora. Tenho que terminar o parto, senão ela morre!

— Meu Deus, Antoninho! Logo pela manhã! Quem vai levar a menina pra escola?

— Ora, mulher, ela já tem sete anos, não se perde fácil. Está na hora de tirar ela da barra da saia.

— Deixe a vaca se virar sozinha, homem! Se toda vaca precisar de parteira, só vamos cuidar delas…

— De jeito algum. Se ela morre, adeus leite. E você não quer ficar sem queijo, não é mesmo? A Mimosa é parte do nosso sustento. Depois, a menina está muito mais esperta do que você. Pode muito bem ir se acostumando a ir sozinha. Por que este medo absurdo?

A mulher se cala. Antoninho sai em direção do curral de varas improvisado. Lá está a vaca estatelada, se contorcendo, com a cria entalada. Ele passa as mãos sobre o seu dorso, acalmando-a, como se fosse parte da família. Depois, afaga-a por trás das orelhas.

— Chegou o doutor, Mimosa! Essas santas mãos farão o parto. Fique bem quietinha…

Maria, com a bolsa de pano a tiracolo, procura a pequena trilha tortuosa, olhando de revés para ver se a mãe a chama de volta. Mas a mãe já está cuidando das galinhas, distribuindo milho em espiral. As galinhas esvoaçam desordenadas à procura dos grãos amarelos que caem na terra ressequida do terreiro. Ela, então, tomando coragem, coloca-se a andar como se fizesse a caminhada todos os dias sem companhia. Sim, ela já é mocinha. Finge que não tem medo. Mas o coração bate aos pulos. Para disfarçar, cantarola a modinha que o pai ensinara:

 

Jacaré tá no caminho,

                Tá quereno ti pegá,

                Oi que bicho tão danado,

                É mió nóis dois vortá!

 

Na mata que circunda a trilha, as maitacas acordam os outros bichos com trinados estridentes. Anunciam um pequeno arbusto com bons frutos. A manhã, para elas, é uma festa. Mas o coração da menina bate desabalado, como se estivesse sendo atacada por uma tribo selvagem. Como autômata, começa uma oração aprendida com a mãe e repetida pela professora:

— Mãe de Deus, que protege os des…validos!, não me deixe abandonada… Mãe de Deus… ai, que susto!

Um bando de pequenos macacos salta de galho em galho emitindo guinchos. A cada ruído, o coração dispara. Pum, pum, pum! Até parece que vai sair do peito. A mata tem olhos. Com o pai, nunca sentira medo. Sempre protegida, como se habitasse uma fortaleza. Agora, qualquer barulho a deixa assustada. Apressa o passo pequeno, a trilha a sufoca.

Um lagarto corre estabanado no meio das folhas secas. Ela corre na estreita trilha e perde um dos chinelos de borracha. Quer voltar, mas o medo não deixa. Entretanto, não pode continuar com o pé no chão: as pedrinhas aferroam  e machucam a sola. O lagarto torna a correr no meio da folharada seca. Mas ela não se assusta tanto como da primeira vez. Corajosamente, ela retorna na trilha e calça o chinelo, enquanto os macacos pulam de galho em galho espantando as maitacas que esvoaçam espevitadas.

Respira aliviada quando pisa na estrada poeirenta. Pelo menos, não se sente tão apertada, sem fôlego. Por onde passa, pássaros voam em bando e à sua frente uma família de quatis cruza a estrada.

 

*  *  *

 

Lá vem a menina, sozinha, com o medo estampado no rosto. Quando surge na estrada, é apenas um pontilhado insignificante. Aos poucos, a figurinha vai aumentando de tamanho.

Feito um pau preto fincado no brejo, escondida no taboal, a sucuri espera com paciência e sabedoria a hora de dar o bote. Ela já sabe que aquela criaturinha distante é o seu alvo escolhido há dias. Por isso não tem pressa. Para que se afobar? Ela não faz como os outros que saem à caça contando com a sorte. Sua sabedoria está na escolha. Um bote em falso, ela joga a oportunidade fora.

Lá vem a menina com as passadas incertas, olhando ao derredor, em direção da ponte de toras semiaprodrecidas. O brejal resiste à seca, as taboas escuras espetam o ar da manhã. Pequenos peixes nadam em cardume.

Não há nenhum borbulho na água, nenhum inseto se mexe, os sapos dormem bem alimentados. Não há vento, nenhuma folha se alvoroça, mais um dia estorricante. A sucuri, desde a madrugada, já colocou o nó firme na raiz forte do jaracateá, já testou sua força. Ela sabe que a hora está chegando. Ao redor dela, a calmaria, nem borboletas esvoaçam. Todos os animais experientes já se debandaram. Ela reina só na quietude da manhã, nem os pássaros chilreiam.

O medo empalidece o rosto da menina. Mais um pouco de esforço, ela transporá a ponte de toras toscas. Imagina o pai segurando suas mãos, enquanto cantarola “jacaré tá no caminho, tá quereno ti pegá…”  Vê-se rodeada de meninas, de mãos dadas, cantando cantigas de roda no pequeno pátio da escola. Os passos incertos, os chinelos velhos e descoloridos roçando o chão coberto de pó. Mais um pouco, mais um pouco… Logo ela transporá a ponte do brejal de taboas. Ela não precisa ter medo. O pai segura sua mão; ela está segurando as mãos das meninas enquanto cantam as cantigas de roda; a professora, com os cabelos presos por uma fita, sai à porta e tilinta freneticamente a sineta.

Mais um passo, mais outro passo, o brejal está calmo, não possui vivalma, tudo está parado. O ar da manhã sufoca, gotículas de suor salpicam o seu rosto. Mais um passo, outro passo…

No brejal, junto com as taboas espetadas para o céu límpido, está a sucuri, a cabeçorra escura e inerte feito um pau fincado. Sim, ela sabe: lá vem a menina, mais um passo, mais outro passo. Não se afoba, olhos fixos na presa. Sabe que o momento fatal está próximo. Continua feito um pau seco fincado no brejal. Espia a menina: mais um passo, outro passo. E zás!

 

*  *  *

 

Mateiro bom não esfrega por muito tempo a bunda no banco. Quando amanhece, ele já está de pé, já ouviu o cantar do galo anunciando a manhã. Não espera que a claridade entre pelos vãos da parede de paus.

Levanta-se com rapidez, de um pulo só. Lava o rosto coberto por uma barba rala e dura na bacia de alumínio encardido, enxugando-se numa toalha de saco de algodão. Com um pente, que já perdeu dois a três dentes, ele ajeita os cabelos, mirando-se num espelho enferrujado.

Sai à porta do rancho, espia o tempo.

— Mais um dia de calorão! — balbucia um pouco desgostoso, indo urinar atrás da pequena horta.

Depois, retorna e acende o fogo com palha de milho no fogão de tijolos arruinados e faz o café, bem preto e forte. O cachorro, depois de dar boas vindas ao mateiro, senta-se debaixo da mesa tosca, espiando os movimentos da casa, de olho na galinha que entra sorrateira porta adentro no rancho de paus.

Café pronto, o cheiro gostoso sobre os poucos objetos, prepara o cigarro de fumo forte, com o canivete. Uma breve golada e uma pitada demorada, jogando a fumaça em torvelinhos. O cão malhado espia, espera por seu quinhão, mas não tem pressa. O dia é longo. Zé das Trilhas, então, joga um pedaço de pão adormecido. Ele abocanha e segura-o entre as patas enquanto devora as migalhas.

O dia já clareou. Zé das Trilhas começa o seu ofício. Pega o embornal dependurado na parede de paus enegrecidos, depois o facão enferrujado, mas de corte afiado, que ganhara numa quermesse no arraial há anos, enche o embornal de provisões: um pedaço de carne seca e salgada, arroz, feijão e farinha temperada, e sai no pequeno terreiro, seguido pelo cão malhado.

Todos os dias, incansavelmente, vasculha a floresta, atrás de algum tesouro. Sonhara com a descoberta de uma mina de ouro e, a partir disso, deixara o trabalho rotineiro de lado e se jogara de peito e alma na floresta. Por dias, desaparece. Por diversas vezes, correram boatos de sua morte, devorado por onça e cobras. Mas não! De repente, retorna fatigado da jornada, sem ouro algum e com a esperança abalada.

Hoje, mais uma vez, segue a estrada no amanhecer. Logo adiante, quando a estrada termina, ele se embrenha na densa mata na busca inabalável de seus sonhos, seguido pelo cão malhado. Vai pensando na demência do velho Gabiroba. Quem não o conhece, acredita em tudo que diz.

“Coitado! Está com os parafusos soltos… Não tem outra conversa senão a grande cobra que ronda as casas…”

Caminha quieto, com os pensamentos na jazida de ouro que ainda há de encontrar. O cão o segue. Por dias, acompanhará o dono em nova aventura. Zé das Trilhas não lhe dá nenhuma atenção. Há um brilho amarelo e doentio em seus olhos. A febre do ouro o tomara de vez.

Não dá passadas largas. São curtas, mas medidas e firmes. O solado das botinas está  gasto e no pé direito se vê o dedão sobressaindo ao couro rompido. Reconhece que está na hora de comprar outro par de botinas.

“Quem sabe”, pensa, “desta vez me deparo com a jazida e encho a burra de ouro. Por que não? Também sou filho de Deus!”

Ali está o brejal. Mesmo com a estiagem, o enorme brejo resiste, as taboas apontando para o céu como espadas.

Ele caminha sem pressa. O cachorro também. Ambos sabem que, por dias, caminharão solitários na imensa floresta. Os dias se alongam. As noites se espicham. A vida lhes parece interminável e, por vezes, inútil. Para que ter pressa? Uma grande jazida de ouro, se houver, está à espera deles.

O calor, mesmo de manhã, sufoca. O cão malhado já caminha com a língua de fora. Logo mais adiante, com certeza, tomará água no brejal. Depois, logo que se enfiarem na floresta, o sol deixará de castigá-los e as sombras os acompanharão por dias a fio.

De repente, Zé das Trilhas é surpreendido por uma gritaria de macacos e chilreios estridentes de maitacas. Assusta-se. Há algo acontecendo. Macacos e maitacas avisam, são sentinelas da floresta. O cão malhado late desesperado e sai correndo em direção da ponte de toras. Estarrecido, Zé das Trilhas se depara com a sucuri enrolando-se e dominando a menina, que já não faz mais força, desmaiada.

— Ah, satanás! —berra, sacando o facão da cintura e, num golpe certeiro, corta transversalmente o corpo da sucuri, que se afrouxa, estremece, bambeia e, devagar, solta a menina no piso da ponte de toras.

Com mais três golpes, decepa a cabeçorra escura. O cão malhado ladra feroz e satisfeito.

Ainda segurando o facão, ele toma o pulso da menina. Está viva! Levanta–a nos braços e retorna ao casario pobre. Parece que carrega a grande jazida de ouro, tanto é seu cuidado.

Anos depois, já envelhecido, mostrava o couro da sucuri e não se cansava de dizer: “Salvei uma vida. Nunca achei ouro na floresta, mas, enfim, a vida de uma pessoa vale mais do que a maior pepita de ouro. Acho que Deus me abrirá a porta do céu.”                                                (Pág. 47 )

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