Ora, ora, mas por quê? (Cristina)

Ora, ora, mas por quê?

Maria Cristina Dias

Tempos de crise costumam nos trazer todo tipo de desafios e sentimentos. Medo, insegurança, coragem, indignação, solidariedade… Sobretudo, tempos de crise nos levam a refletir sobre aquilo que está debaixo de nosso nariz, mas no corre-corre cotidiano não paramos para prestar atenção.

O Enem foi adiado e ainda não tem data definida. Ora, ora, mas por quê? – Podemos nos perguntar. Há quem argumente que estudantes são estudantes sempre, podem estudar em casa – o tempo para isso até aumentou, já que o recomendado é ficar casa mesmo. As escolas estão fazendo esquemas de aulas online, os professores estão se desdobrando (muitos se matando) para produzir esse material.

Então para que adiar? A resposta é tão simples que chega a ser ridícula. Porque a vida não é igual para todo mundo. Manter o Enem agora prejudicaria (mais uma vez) a quem já tem poucas oportunidades, os mais carentes, aqueles que, convenhamos, são a maioria. Adiar é mais do que necessário, é justo.

Fale a verdade, você nem lembrava que tem gente que nem tem casa, ou água na torneira para lavar as mãos. Ou que a Internet e o smartphone tão comuns para muitos, não são assim tão onipresentes como pensamos. Que há pessoas que contam os tostões para comprar créditos para o celular ou usa o wifi disponível por aí para tentar se conectar. E muita, mas muita gente mesmo, sequer sabe o que é isso, está à margem disso tudo. Aliás, esse é um sentido da palavra “marginal” – estar à margem da sociedade, excluído, fora.

Saber a gente sabe, mas parece algo distante da nossa realidade classe média-biscoito-com-leite-morno. Dos mais abastados, então, é quase um abismo. Às vezes paramos o carro no sinal de trânsito, olhamos através do vidro com película escura e vemos que tem alguém ali em situação precária, tentando vender algo no almoço para comer no jantar, e compramos um pano de prato ou um doce para ter a ilusão de que fizemos a nossa parte e aliviar um pouco a consciência – eu sei, faço isso. Mas logo depois o sinal fica verde e voltamos para a nossa rotina, para nossas preocupações, que são tantas, e esquecemos o que está ao redor.

Faz parte. Não estou com o dedinho acusador apontando paraninguém, nem para mim mesmo. Ao contrário. Há muito tempo aprendi que não posso sofrer pelo que não posso mudar – mas sempre posso me indignar e fazer algo, por menor que seja, para tentar melhorar um pouquinho.

A pandemia do Covid-19 evidenciou de forma avassaladora o que todos sabíamos, mas deixávamos de lado na nossa luta particular para sobreviver: Vivemos em um mundo marcado pela desigualdade. Nunca fomos tão iguais nas nossas vulnerabilidades e tão diferentes nas nossas possibilidades.

Talvez a educação de qualidade seja a única forma de tentar reverter um pouco isso. Uma esperança, uma utopia… mas o que podemos nos agarrar. E o Enem, embora muito longe de ser um modelo ideal, faz parte disso para milhares de jovens. É uma oportunidade, ainda que pequena e difícil, de entrar em uma universidade, de continuar os estudos, de romper com um ciclo de pobreza, de sonhar com uma vida melhor. Mas afinal, quem se importa com isso?

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