À espera do trem (Hilton Görresen)

À ESPERA DO TREM

Hilton Görresen

 

A estação estava vazia. Nenhum funcionário, nenhum passageiro. Só ele. Andou de um lado para outro na plataforma, seus passos ecoavam no ambiente vazio. O céu havia escurecido, ameaçando descarregar o aguaceiro de verão.

Um grande relógio circular marcava: 14h35m. Tirou do bolso um bilhete amarrotado. Não precisava nem ler, o conteúdo já gravado, encravado em sua mente: Chego no trem das 14h40m.

Algo lhe estremecia o corpo, como um pressentimento antigo. Talvez tivesse vindo ali no dia anterior. Ou todos os dias. Talvez estivesse esperando por um trem que nunca viria. Os ponteiros do relógio pareciam parados, travados no tempo.

Colocou a mão no bolso do paletó e dali tirou uma velha foto. Era ela, jovem ainda, vestida de noiva, o sorriso que sempre o encantara. Aos poucos foi lembrando. Ela tinha embarcado naquele trem, fazia anos. E prometera voltar. Chego no trem das 14h40m.  Voltaria no mesmo trem, desembarcaria na mesma plataforma. Desde então, vinha todos os dias. Mesmo horário.  Sentava no mesmo banco, já um pouco gasto.

O barulho, ao longe, atraiu sua atenção. Em um momento achou que o trem vinha vindo. Os trilhos pareciam estremecer. Levantou-se eufórico, como menino que espera presente. Não veio trem nenhum. Talvez já tivesse passado e ele não percebeu.

O relógio continuava marcando o mesmo horário. Ali nada mudava, o tempo não passava. Um caracol se arrastando pelo chão andaria mais rápido. Por isso o trem não chegava, pensou. O tempo preso no velho relógio.

A plataforma vazia era como um mistério na tarde, silenciosa, somente o barulho de pedaços de papel arrastados pelo vento brando. As portas de vidro fechadas, a sineta pendurada no madeirame, silenciosa. O céu escuro, pesado, retinha em seu bojo as águas, prestes a desabar.

Ela havia prometido, mas nunca veio. Nem naquele dia, nem nos dias seguintes. Nem sabia mais se esperava um trem ou um sentido para a vida, que caminhava pela última estrada, na verdade um atalho para a morte. Esperar era o seu destino. O trem talvez nem existisse. E a mulher vestida de noiva? Talvez não tivesse existido também.

Mas havia a lembrança. O primeiro encontro na casa das primas. Há quantos anos? Era uma morena, baixinha, de olhar tímido e matreiro. Lembrou que estava uma noite fria, ela com uma saia comprida, de agasalho preto com gola de pele. Ficou afastado, com a xícara de café quente nas mãos, somente olhando, admirando seus gestos graciosos, as mãos, de unhas curtas, que se moviam com discrição. Sobretudo, o sorriso. Um sorriso largo, festivo, que se abria mostrando os dentinhos brancos. A voz era clara, com sotaque açoriano.

Somente na despedida a moça se dirigiu a ele, apertou suas mãos, um beijinho no rosto. Ficou com a sensação de que não mais a veria, deixou que se dissolvesse no ar um fragmento de interesse, um pensamento de novo encontro. Se insistisse, o pensamento poderia caminhar para mais íntimas elucubrações, era um tímido que vivia com mais intensidade na imaginação do que na vida.

Encontrou-a novamente num baile de formatura. Ele de terno escuro, gravata de bolinhas. Ela, sentada numa mesa com duas amigas e uma senhora de certa idade. No balcão, emborcou dois cálices de conhaque. O sangue se agitou, atravessou seu corpo uma súbita coragem: por que não tirá-la para uma dança? A orquestra abrira o baile ribombando Ray Conniff, como uma explosão imprevista abafando o burburinho de vozes.  Abotoou o paletó, ajeitou a gravata, e se dirigiu à mesa. Tinha receio de que ela, percebendo sua intenção, se levantasse, com a desculpa de ir ao banheiro. Era o que faziam as moças quando não se agradavam dos que vinham tirá-las. Se isso acontecesse, onde ia enfiar a cara?

Por isso, não foi direto a ela, ladeou algumas mesas e foi se aproximando, até chegar à sua frente. Fez um discreto sinal com a cabeça. Ela a encarou curiosa, acabou reconhecendo. Levantou-se. Estava com um vestido verde. Quando a acolheu nos braços sentiu o perfume agradável, suave. Não era muito bom bailarino, mas com ela conseguiu acertar os passos. Os corpos se encaixavam, se moviam facilmente, como um mecanismo bem azeitado. Não se notava quem conduzia quem, num embalo que parecia ter sido ensaiado anteriormente.

Lembrou-se da música, um bolero:

 

Aquellos ojos verdes

De mirada serena

Dejaron en mi alma

Eterna sed de amar

 

Puxou-a mais para perto e encostou o rosto ao dela. Ela não reagiu. Ele parecia flutuar no salão, não via mais ninguém, o rosto quente encostado no seu, as coxas se relando.

A noite foi deles. Depois de cada dança ia ao balcão, excitado, e pingava mais um conhaque na goela. Havia ganho a garota.

O namoro prosseguiu, com a benção da tia e das primas. Era moça prendada, como se dizia na época. Depois que se formou técnico em Contabilidade e começou a trabalhar pediu-a em casamento. A festa foi na casa da tia. Os parentes da moça vieram do sul do estado. Casamento em casa era mais gostoso, mais íntimo. Armaram uma grande mesa fora, com tábuas sobre cavaletes, um tanque com barras de gelo para as bebidas. Numa mesa dentro de casa, o bolo dos noivos, como uma pequena torre com dois bonequinhos em cima, simulando o feliz casal.

Na noite anterior houve o “quebra-caco”, com o tradicional Schwarzsauer (sopa preta). Estouraram três ou quatro barris de chope. Ele, o noivo, foi dormir de pileque.

As lembranças se dissolveram. Então, sim, ela existia. Não estava dentro de um sonho.

Sentou de novo no banco, desolado, as costas curvadas. O relógio ainda marcava o mesmo horário. Sua cabeça girava, às vezes se pegava estranho, não atinava mesmo o que ali estava fazendo.

Em casa, ninguém o esperava, só a solidão. A solidão que se concretizava no velho colchão amarelado, nas poucas roupas no armário, um filtro de barro, uma TV antiga. Sua vida era como a plataforma deserta da estação. Os vizinhos diziam, esqueça seu Juremo, ela fugiu, morreu ou perdeu na memória os caminhos de casa.

Mas em sua mente o tempo não passara. Ela viria no trem. Havia escrito no bilhete. A culpa era do relógio que travava os ponteiros antes do horário prometido no bilhete.

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