Ac. Walter Guerreiro leu “Dentro da baleia e outros ensaios”, de George Orwelll

Dentro da baleia e outros ensaios (George Orwell)

Walter Guerreiro

 

Desde sua publicação em 1949 a obra “1984” de George Orwell sobre o futuro se tornou um clássico como romance distópico, da mesma forma que o “Admirável mundo novo” em 1931, de Aldous Huxley. Orwell já antes se consagrara  com “A fazenda dos animais” concebido como sátira à União Soviética retratando as fraquezas humanas numa sociedade utópica; por essas obras sagazes é um dos meus autores favoritos. O melhor cronista na língua inglesa, polêmico, culto, sintético, claro na linguagem com aquele sense of humour bem inglês, ironizando sem chegar ao sarcasmo com uma ponta de sorriso nos lábios, criador de neologismos quando pertinentes como “fake war”, tendo como ídolo H.G.Wells, não por acaso, precursor da ficção científica.

A obra “Dentro da baleia e outros ensaios”, de 1940, numa linguagem dita hoje orweliana como memória expandida, tem conotações políticas quanto à desinformação e manipulação do passado nas ideias que terminam por serem considerados registros fidedignos, apontando assim as engrenagens da sociedade colonialista e sua desumanização. Dentro da baleia é uma metáfora sobre a ilusão do mundo dos escritores, onde realidade e ficção se misturam, e neste ensaio começa pela análise do “Trópico de Câncer”, de Henri Miller, elogiado pelos intelectuais dos anos trinta como autobiográfico; Orwell aponta que nenhum romancista é obrigado a escrever sobre sua época, porém a desconsiderar é outra coisa, partindo daí tece considerações sobre “O morro dos ventos uivantes”, “Ulisses” e os poetas georgianos para assinalar a importância do zeigeist, o espírito da época vivida. Diz que por vezes os escritores se deixam fascinar pelas ideologias, no caso dos ingleses pela ilusão de uma liberdade de pensamento. “Mina abaixo”, outro de seus ensaios, compara a importância do mineiro com a do agricultor na semeadura, um trabalho pouco valorizado e sobre-humano dos quais nos esquecemos; “Inglaterra, sua Inglaterra” procura definir o caráter inglês comparado aos franceses e italianos, fala com humor que os ingleses não são intelectuais, pois tem horror ao pensamento abstrato nem sentem necessidade da filosofia a ponto de criar um sistema de pesos e medidas incongruente, mas com uma peculiaridade no caráter – a privacidade, uma adoração pelo poder e uma hipocrisia: como Império Britânico incorporaram ¼ da Terra sob uma bandeira, que são quatro nações com imensas desigualdades entre pobres e ricos.

“O abate de um elefante” tem caráter de memória quando Orwell era oficial de polícia no sul da Birmânia e é notável pelo sentimento anti-europeu fruto do colonialismo, relata um incidente fruto de um elefante domesticado que rompe as correntes e destrói um bazar, a população exige o abate e ele fica num impasse entre o valor de indenização do elefante e o fato do animal ter pisoteado até a morte um culi indiano; entre os europeus as opiniões se dividem entre aqueles que dizem ter sido acertado matar o animal e os que dizem não, afinal o que é vida de um culi indiano…perante o preço de um elefante.

Análise única é a que faz sobre os panfletos de Tolstói atacando Shakespeare na obra “Rei Lear” e a compara a “Guerra e Paz” como hipnose coletiva apontando as relações entre política e literatura, aliás, sobre a linguagem clama contra o declínio da língua inglesa no uso de metáforas ultrapassadas (p.ex. determinação de ferro), muletas verbais, duas palavras quando pode se usar uma, voz passiva em lugar de ativa, latim ou grego como cultas, jargões marxistas e uso de palavras sem sentido na crítica de arte tais como vivacidade, apatia, frescor, etc.

Finalizo com o que Orwell vislumbrou sobre a situação em que vivemos hoje em 2025: o processo de mecanização já existia em 1946 no cinema e no rádio como um processo fabril, executado por um grupo de artistas com um texto ditado de antemão, e se questiona já existirem escolas na Inglaterra oferecendo enredos prontos, frases de abertura e encerramento, que diria ele hoje sobre IA ?

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