Analfabetismo funcional e moral (Donald Malschitzky)
Analfabetismo funcional e moral
Donald Malschitzky
Falta de livros, não é, pois existem em abundância, e jogar o ônus à existência das redes sociais, por si, é, no mínimo, uma falácia, mas, em tempos de comunicação acessível a milhões, a aldeia global prevista por McLuhan está mais para uma balbúrdia do que para a civilização de encurtar distâncias que o filósofo acreditou que viveríamos hoje. De alguma forma, a tecnologia, que previra democratizar a comunicação, banalizou o que de pior pode haver nela, se mal usada. As redes sociais que o digam.
Aparentemente, o número de analfabetos (pessoas incapazes de ler e escrever um bilhete simples), embora assustador, pode não ser uma hecatombe, até porque ensinar o básico de ler e escrever já provou ser exequível facilmente com sucesso, mas existe outro mal, esse sim, avesso à erradicação: o analfabetismo funcional. Conta com uma legião de adeptos ferrenhos que se apoiam uns aos outros e acreditam que, quanto pior, melhor.
Embora conheça palavras e frases curtas, o analfabeto funcional não consegue juntá-las a ponto de entender seu sentido coletivo. Entre isso e a formulação de um pensamento abstrato, depara com um abismo intransponível.
O mundo em que vive, dificulta a percepção da realidade, e, muitas vezes, o faz reagir até com violência ao que lê e escuta e interpreta de forma errada. Não sabe o que a mensagem quer dizer, mas tem certeza que coisa boa não é, e parte para a ignorância.
Existe, também, o analfabetismo moral, fundamentado na impossibilidade de convivência social justa, respeitosa e ética. Diferente do analfabetismo funcional normalmente, decorrente da falta de recursos, o moral afeta grandemente as classes de poder aquisitivo de médio para cima e atinge, principalmente, os jovens.
Quase diariamente somos atingidos por notícias desses jovens protagonizando cenas de ofensas raciais das mais ignóbeis, normalmente acompanhadas de falas de menosprezo à classe social das vítimas. O que assusta é a reação de muitos pais e, até, de dirigentes escolares que fazem de tudo para inocentar seus protegidos.
Da família e da escola, espera-se que preparem as crianças e os jovens para um mundo melhor. Para todos. Na Dinamarca, há classes especiais para os alunos debaterem empatia. Para nossos analfabetos morais, pode-se começar explicando o que significa a palavra.
