Carta a um jovem médico (Walter Guerreiro)

CARTA A UM JOVEM MÉDICO

Walter Guerreiro

caro doutor o sol está brilhando de novo como o luar estou deitado dormindo ouvindo o
relógio cuco gritando como o sino da igreja que o padre puxa pelo rabo cantando as horas
nada de novo nada de novo nada de novo isso porque ele não vê o que estou vendo na minha
janela no beiral três galinhas pipilando discutindo com pardais empoleirados nas grades não
consigo dizer uma palavra e só ouço a conversa delas sentindo um comichão no braço que não
consigo levantar para dar bom dia para o pardal e lavar com as mãos que não respondem não
é de hoje que não consigo cumprimentar ninguém encostando o dedo no nariz do enfermeiro
ele me escapa e olha como na terra dele não se cumprimenta numa reunião social como aqui
no baile que dançamos juntos esfregando as costas um do outro tenho que parar de piscar
tique taque quando acordo do meu sonho sono sonhando doutor o senhor sempre me pede
para contar os sonhos por isso vou contar esse sonho que tive enquanto estava sonhando foi
assim não conseguia andar sozinho correndo parado nos corredores afunilados e a multidão
de portas cerradas em ordem unida pois esperava o sinal não se pode levantar antes do sinal
tocar se não a cuca vai levar e toca num zumbido tão forte que os dentes começam a bater
em código e os pardais bicam as grades pensando que é com eles respondendo para as
galinhas que não gostam de ser interrompidas no jantar assim só ouvia os pontos a música se
perdendo nos chiados do disco acordei e o ar estava pesado olhei pela janela e havia estrelas
enquanto as galinhas cantavam lá no pátio chamando a rainha de copas para perseguir os
passarinhos no alto da ladeira pipas esvoaçavam entre as árvores pela revoada das folhas nos
coqueiros dispersando as cores infernais de um arco-íris sanguinolento e a fumaça subindo nas
nuvens de chuva branco sobre branco nas folhas gordas dos pinheiros enquanto as galinhas
olhavam para um par de meias pendurado no varal onde estava escrito fui para não provar
nada o vento erguendo as saias do diretor que sorria pelo canto da boca latindo au au é hora
de dormir hora de dormir seu garoto mau feche os olhos e eu não conseguia voar e sonhei
este sonho naquele sonho que estava sonhando.
P.S. desculpe se houver algum engano quem escreveu foi o enfermeiro não consigo fazer
dentro da camisa-de-força.

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