Feijão Carioquinha (Onévio Zabot)
FEIJÃO CARIOQUINHA
Carioquinha ou carioca. Feijão. Nada a ver com o Rio Janeiro. É paulista de Ibirarema, proximidades de Ourinhos. Carioca era uma raça de porco caipira. Rajadões, semelhantes ao novo cultivar de feijão. Mera coincidência. Plágio. O porco nunca soube disso, nem o feijão. Coisa de humanos.
Dias desses, perdemos antes do combinado, como diria Boldrin, o pai do feijão carioquinha, o engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida. Tudo começou no ano de 1966 no Instituto Agronômico de Campinas(IAC). D’Artagnam recebeu algumas sementes de outro colega, Valdimir Coronado Antunes que, por sua vez, recebera de um agricultor de Ibirarema, região feijonícola. Vale do Paranapanema.
Provinha de um cruzamento natural. O cientista coordenou “os testes de produtividade, adaptação ao solo e clima e, detalhe pouco lembrado, a qualidade culinária”. Aprovado, em 1969 é oficialmente lançado. Um sucesso. Cai nas graças do consumidor. Hoje representa 60% do consumo nacional.
O feijão – uma leguminosa – é originário da América Central. Mesoamérica. Os Astecas cultivam-no há cerca de 7 mil anos. Dali, com os colonizadores foi disseminado mundo afora. No Brasil é prato nacional, especialmente a feijoada. De todas as espécies, cerca de 175, três se destacam: 1) o feijão comum (Phaseolus vulgaris), cultivado em todo o mundo; 2) o feijão de corda (Vigna unguiculata), caupi e outros, predominante no Nordeste e na Amazônia; e 3) feijão guandú (Cajanus cajan), de porte arbóreo, bastante comum no Nordeste. Dentre todas as variedades são dignas de registro: o feijão-branco, o feijão-manteiga e o frade.
Embora os melhoramentos genéticos, introduzindo cultivares mais produtivos, o rendimento médio é baixo, na faixa de 900Kg por hectare. O potencial, no entanto, pode atingir até 4000 Kg. O Estado do Paraná, maior produtor nacional, seguido por Minas Gerais. Em nível global aparece a Índia, como maior produtor, e em segundo lugar o Brasil. E países africanos: Tanzânia, Uganda e Quênia. E há produção de vagens verdes, bastante apreciadas, sendo a China, o maior produtor.
No Brasil, em termos de pesquisa, a EMBRAPA coordena uma rede 40 instituições. E, em Santa Catarina a Epagri lançou recentemente dois cultivares com excelente performance: o guará e o predileto.
Importante ressaltar o valor nutritivo e terapêutico do feijão. É rico em proteínas, e minerais como: ferro, cálcio, potássio. Fósforo e manganês.
O consumo tem relação com a diminuição de diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, e até neoplasias. Credita-se essas propriedades devido a presença de metabólitos e fitoquímicos, compostos fenólicos e flavonoides.
Formas de aproveitamento, aí é com cozinheiros e cozinheiras. E chefs. No Brasil, quem não aprecia uma feijoada tradicional? E aquele caldinho. E o tutu mineiro. Ou uma boa salada de vagens ou feijão cozido. Bolinho de feijão. Feijão tostado. Feijão com linguiça. Feijão tropeiro. Feijão branco a italiana. E por aí afora.
Fica, no entanto, para nosso gaudio, a memória da infância, memória na roça. Ao debulhar vagens maduras, ressequidas, eureca! surgiam grãos multicoloridos. Rajados. Vermelhos. Brancos. Marrons. Azulados. Acinzentados. Cruzamentos naturais. Uns graúdos, outros miudinhos. Na palma da mão, preciosidades.
Dias desses matei a saudade desse tempo no Mercado Público de Curitiba. Certamente, uma das maiores coleções estão por lá. Joias raras da natureza.
Por fim, evocando um pouco de cultura popular, vamos de Barnabé, famoso humorista caipira. “Depois de comer um bom virado/, fui dormir e tive sonho lindo/, sonhei que estava acordado/, acordei pra ver e tava dormindo”.
Cá entre nós, D’Artagnam – pai do feijão carioquinha -, que senhora conquista! Que venham, venham muitos D’Artagnans.
Onévio Zabot -AJL
Engenheiro Agrônomo
