Feliz Ano Novo (Simone Gehrke)

Feliz Ano Novo

Simone Gehrke

 

Ivone virou o pulso para olhar as horas no relógio novo, presente de Natal do filho, que morava longe. 8h34. Pegou a bolsa, bateu a porta e saiu.

Era 30 de dezembro, um dia para celebrar a vida.

Começou pelo mercado, embora a casa estivesse abastecida – tinha orgulho de ser uma pessoa previdente.

Deu bom dia ao seu Antônio, que a recebeu com o costumeiro sorriso no rosto, abrindo caminho para sua passagem. Seguiu pelo corredor dos enlatados, em direção ao balcão de frios.

– Que bom rever a senhora, dona Ivone. O que vai levar hoje?

– Você sempre simpática, Suzi… 50 gramas de presunto tá bom.

Não pode estender a conversa porque a fila aumentava na fiambreria. Despediu-se de Suzi, com votos de uma ótima passagem de ano junto ao pequeno Lucas e à mãe, dona Clotilde, e seguiu para o caixa do Amarildo.

– Só isso, dona Ivone?

– Sim, meu filho.  Fiz o rancho do mês depois do Natal, lembra? Agora, todo dia, só umas coisinhas mesmo. Como está a Maria?

– Vai bem, obrigado.

– Que bom! Olha, uma abençoada entrada de ano pra vocês, viu? Com saúde, amor, paz, tudo isso que você sabe melhor do que eu.

O caixa entregou a sacola e Ivone saiu satisfeita. Desejou um próspero ano novo para o Antônio e parou na porta do mercado para conferir o horário. 8h56. Logo, logo abre o banco.

Assim que completou meia volta na porta automática, avistou André. Acomodou-se na cadeira destinada ao atendimento e perguntou pelo extrato do Imposto de Renda. Não estaria disponível no último dia do ano que abre o banco?

– Só em fevereiro, Dona Ivone.

– Tá bom. Não faz mal. Pelo menos eu vim aqui te desejar um ano muito bom… que você encontre uma pessoa muito especial.

– Ótimo ano pra senhora também – disse André, com um sorriso.

9h21. Resolveu dar uma passadinha na farmácia. Precisava comprar acetona e também algodão. Pensou que deveria ser o plantão daquela mocinha atenciosa, mas não conseguiu lembrar o nome dela.

– Bom dia, querida, senti sua falta ontem…

– Estava de folga, dona Ivone, aproveitei pra passear com as crianças.

– Seus filhos, né? Como é mesmo o nome deles?

– Matheus, com ’h’, e Lucas.

– Olha, quero te desejar um ano de muitas alegrias, com o Matheus, o Lucas… e o marido, você é casada, não é mesmo?

– Sim, dona Ivone. Com o Marcos.

– Tudo de bom pra vocês quatro, então.

9h43. Podia andar mais uma quadra e levar umas flores para alegrar a casa. Subiu o degrau que separava a calçada da loja e correu os olhos pelo interior da floricultura, sem encontrar a Cleusa. Que pena. Pegou um buquê de flores do campo e passou no caixa.

– Eu já tinha visto você por aqui, como é mesmo o seu nome?

– Marcelo, senhora.

– Não vou esquecer. É o nome do meu único neto. Este ano eles não vem, sabe, mas mesmo assim vou levar estas flores bonitas para enfeitar o meu cantinho. Boa entrada de ano, Marcelo.

– Para a senhora também.

Enquanto fazia o caminho de volta, lembrou o nome da atendente da farmácia:  Vitória. Tão significativo… como havia esquecido? Mãe do Matheus e do Lucas, e casada com o Marcos. Precisava anotar.

Abriu a porta de casa, olhou o relógio da cozinha. 10h17. Ainda dava tempo de dar uma olhadinha no jornal antes de começar o almoço.

Minutos depois, cansada de ver tantas notícias ruins, levantou-se do sofá e foi para a cozinha. Precisava gelar o espumante. Os pratos até poderiam ser preparados na manhã seguinte, mas a bebida não. Papai havia lhe ensinado que para manter o sabor, o espumante precisava descansar no gelo com um dia de antecedência.

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