O Bebê Reborn (David Gonçalves)

O BEBÊ REBORN

David Gonçalves

 

Austera, poucas emoções, disciplinada, lá vai Leonora, a professora. Incansável batalhadora pela cultura, com ideias severas sobre os deveres e obrigações. Quantos pupilos já passaram por suas mãos! Espalhados por aí incontáveis comerciantes, médicos e advogados. Orgulha-se do sucesso de seus alunos. Por onde passa há respeito e reverência.

Lá vai Leonora, a professora…

O que dizer de uma respeitável mulher? Nada, nadíssima.

Morava com os pais, não se casara, alguém ouviu uma declaração: “Não me julgarei a esses homens de Quadrinculo. Esses não tem classe. Cheiram como bode velho.” O que ela esperava? Um príncipe dirigindo uma carruagem de ouro? Descontentes, os pretendentes se afastaram.

Os habitantes ficaram espantados, quando ela levou para sua casa uma jovem, dez anos mais nova. “Minha colaboradora. Não tenho tempo para os afazeres domésticos.” Ofício de professora enxuga as forças. Deveres e obrigações, cadernos e provas para serem corrigidos. Sem dúvidas, ela precisava de alguém que organizasse a casa. Mas, aos poucos, o povo foi tecendo o enredo. Eram inseparáveis. Viajavam. Aproveitavam a vida. Sempre alegres e atenciosas. Havia algo ali…

Língua espicha porque não tem osso, diz o povo. Afinal, por que se preocupar com o gramado do vizinho?

Então veio o xeque-mate: as inseparáveis senhoras viajaram à China e outros países. Pequenas férias merecidas. Quando voltaram, um bebê. Nas lojas da cidade compraram o enxoval, carrinho, mamadeiras etc. Para quem? O bebê, é claro. Leonora, na menopausa, adotara uma criança? Sim, adotara. O nome? Franciesco, respondeu.

Quem passava na frente da casa, via Leonora embalando a criança, ou a fiel escudeira trocando as fraldas. Começaram a passear pelas ruas. O povo ficou encantado: um bebê tão bonito, olhos verdes, faces rosadas. Um encanto. Mas logo correu a notícia: não era humano. O que era? Alguém sentenciou: “é bebê reborn “. Todos, então, queriam ver. Uma sensação.

A curiosidade cegou os habitantes. Ele fala? Sim, fala. O que ele fala? Quero papá, mamãe. Me dá chupeta, mamãe. Tô com fome, mamãe. Eu te amo, mamãe. Outras frases inocentes.

Nas ruas, a sensação. Mas, aquilo, era normal? Do que era feito o bebê? De silicone, responderam.

– Eu estou sentindo os seios túmidos – disse Leonora a Joanita, sua fiel ajudante, toda preocupada. – Nesta noite, senti o leite escorrer dos bicos. Olha só como os mamilos estão grandes, um pouco inchados.

Ela pegava o bebê no colo e dava-lhe os seios túmidos e o leite materno aflorava como água nascente.

– Tá gostoso, Franciesco? Me diz o que está sentindo.

O bebê respondia:

– Tô com fome, mamãe Quero mais.

O assunto foi objeto do sermão no domingo, a igreja lotada.

– Caríssimos irmãos! A sociedade está doente. Como pode alguém, senhora respeitada, adotar um reborn? Isto revela um estado psicótico incurável. Nenhum bebê de silicone pode suprir o dever sagrado das mães. Isto não é coisa de Deus. Revela a podridão das almas.

Parece que o sermão atiçou a comunidade. Discussões favoráveis, debates acirrados. Pães e opiniões.

Na semana seguinte, dois estudantes da Universidade que moravam numa república, amigos íntimos, também começaram a empurrar um carrinho de bebê pela cidade. Outra sensação! O casal queria ansiosamente ter um filho. Homem com homem – ah, simplesmente impossível. Então realizavam o desejo da vida. O nome dele? Não é ele. Uma menina. Ah, disse o povo, parece humana.  Benvinda, disseram. Os liberais riam, chacotavam; os observadores das Leis de bons costumes sagrados, criticavam severamente, apavorados.

Parece que o sermão atiçou a comunidade.

Na semana seguinte, dois estudantes que moravam numa república, amigos íntimos, também começaram a empurrar um carrinho de bebê pela cidade. Outra sensação! O casal queria ansiosamente ter um filho. Então realizavam o desejo da vida. O nome dele? Não é ele. Uma menina. Ah, disse o povo, parece humana.

O padre voltou a condenar esta infâmia:

– Isto não é Sodoma e Gomorra. Por que não adotam crianças abandonadas, já que clamam por filhos? Só homem e mulher podem gerar filhos. Assim determinou o Senhor. Amor de mãe só pode ser dado ao fruto de seu ventre. Absolutamente ninguém pode contrariar as vontades de Deus.

Outros casais, sem filhos, também encomendaram seus bebês. No lar de meninos abandonados, esperavam por adoções, mas não sucediam, e isto acirrava mais a febre doentia.

Uma jovem influenciadora jubilava-se. Atingira cinco milhões de seguidores nas redes sociais, Instagram, Tik-Tok e Facebook. Mostrava seu filho reborn sendo embalado e amamentado.

Havia reuniões nas casas com os pais de bebês, e os pais gabavam seus pupilos, como as corujas.

Numa madrugada de sexta-feira, aconteceu o que não se almejava: professora Leonora e sua companheira foram encontradas amarradas e escoriadas no meio da sala, e o bebê reborn estrangulado, com um punhal no peito. Na parede, palavras com tinta fresca: “Satanás passou por aqui.” As duas mulheres tremiam incontinenti e choravam, histéricas:

– Olha o que fizeram com Franciesco! Pobrezinho inocente. Que maldade ele fez?

No berço, o bebê estrangulado, o punhal no peito. Havia sangue? Uns afirmam que viram um filetezinho de sangue escorrendo…

COMPARTILHE: