Relicário (Elizabeth Fontes)

 

RELICÁRIO

Elizabeth Fontes

 

Tanta pena me dá Minas.

Minas é sempre triste.

É sempre silêncio.

É sempre melancolia.

A voz cantada em meio aos sinos,

aura de passado e missas.

Janelas e vasos bordando gerânios,

pedras e ruas,

velas e igrejas.

Santos e romarias.

 

Tanta pena de olhar Minas

que dorme e acorda em aves andorinheiras.

Onde o tempo dá voltas e não vai a lugar nenhum.

A melancolia herdada das novenas

e das centenas de flores da Procissão do Santíssimo,

ladainhas, preces e orações intermináveis.

 

Minas é esse espaço – lugar e tempo,

onde o meu olhar pousa a cada ano,

e meu coração peregrina.

 

Minas é berço, é colo, é reencontro e solidão.

Minas é só recolhimento

em dias ensolarados e frios do mês de julho.

Minas é esse canto da minha alma

que chora e silencia, na casa e nas varandas.

 

Minas velha, como meus pais,

nas paredes, nos retratos, nos tecidos de crochê.

Na luz da minha memória.

 

Minas que eu reencontro nos restos de sol sobre a mesa de café.

A toalha posta centrando a broa de milho.

A porta da cozinha entreaberta

deixando passar a solidão de quintais sem riso e flores.

As montanhas ao fundo guardando a infância ora crescida.

 

Por onde andam os olhos da mãe?

Por onde tropeçam os passos do pai?

 

Olhos e passos moram na quietude dos dias,

na morosidade das horas,

nos fios e cabelos brancos da memória que falha,

na lembrança que falta,

no abraço que já não aperta.

Nos olhos e passos do tempo

que giram o quarto sem flores.

 

Tanta pena da lonjura que é Minas…

Tanta pena de ir e vir neste eco guardado das lembranças.

O trem que não passa, o trem que não tenho.

O mistério da solidão que sempre me põe o coração em angústias

a cada despedida.

O adeus em pequenas doses…

 

Tal como as badaladas dos sinos

e o relicário de todo sentimento,

Minas é cada palavra em mim

em muda prece.

 

Minas.

Tanto amor e sempre.

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