Tudo cinza (Donald Malschitzky)

TUDO CINZA

Donald Malschitzky

 

As cores imperavam na malharia onde trabalhava. Ele talvez nem notasse, mas havia poesia em suas palavras ao descrever como acontecia que um tecido neutro se transformava em explosão de cores, de como trabalhar cercado pelo colorido fazia bem ao espírito e ao desenvolvimento do labor diário.

Talvez por causa do soprar de um vento diferente, talvez pela possibilidade de um ganho financeiro maior, talvez por simples acaso, transferiu-se para uma grande empresa; tão grande que não conseguiu conhecê-la toda, embora nela tenha trabalhado até se aposentar.

A leveza dos tecidos foi substituída pelo peso dos blocos fundidos trabalhados em sua seção. Não havia cores nos produtos e nem nas paredes; o cinza se impôs por praticidade e economia de custos. Tudo era vasto. A remuneração e as condições de trabalho faziam valer a pena. Fazendo um balanço, a opção foi perseverar, e assim o fez, mas sentia falta das metamorfoses que testemunhara anteriormente.

Há pouco, lembrando da conversa enquanto ajustava algumas partes do jardim, uma analogia pousou em meus pensares; o que era para ser um arbusto, mostrou a vocação de trepadeira do lacrima christi: tomou conta de boa parte do espaço do jardim. Era bonito e atraía insetos (principalmente, abelhas silvestres, vespas, mamangavas e borboletas) beija-flores, cambacicas e outros pássaros, mas, por seu tamanho, tornou-se um obstáculo para o desenvolvimento de mais espécies e diferentes cores.

Num dia de muito vento, o visitante assíduo dos últimos tempos, ao chegar em casa, deparei-me com um descampado no jardim. Demorei para dar-me conta de que faltava algo: cadê o lacrima christi? Jazia estatelado, com a armação que o suportara quebrada ao meio, ainda mantendo os ramos unidos, mas todo o conjunto longe da imponência que há anos ostentava. Não cabia pena, a solução foi podá-lo.

Isso feito, montar nova armação com menos da metade do tamanho da anterior, e reorganizar os espaços com novidades. De plantas mais altas, uma ideia copiada da Internet:  pequena torre de onze horas de várias cores que está se desenvolvendo e parece que vai ficar bonita. Junto com ela, flores de mais de dez cores diferentes.

De tudo, uma lição de resiliência da lacrima christi: podada até quase o nível do chão, em três semanas, os ramos, de verde muito forte, já estão com mais de meio metro de altura. Agora, compartilhando sua exuberância com as outras flores.

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