⭐ “A infância de Darwin”, de Marinaldo de Silva e Silva

A INFÂNCIA DE DARWIN

Não sei se todos sabem que, na infância, Charles Darwin gostava de colecionar ovos de pássaros, e insetos. Eu também não sabia. Sonhei com ele dia desses me dizendo tais coisas. Apareceu lá em casa, quer dizer, na casa da minha infância, um sobrado de um só piso onde eu me dependurava nos caibros da casa sem forro para ver o movimento dos adultos, e das aranhas. Lá em casa, ele apareceu bem barbudo, parecia até a imagem de Deus que eu conhecia na escola, meio curvado, com as têmporas comprimidas, preocupado sorria. Acho que para não me assustar, devendo saber, como fantasma em sonho, que eu morreria de medo se ele aparecesse pra mim acordado. Depois do susto eu fiquei meio curioso, porque antes de se apresentar eu pensei que fosse o Tiradentes, depois o Vovô Kosta, depois o Marechal Deodoro da Fonseca, até chegar na probabilidade de ser Deus, mas, bem, Deus não apareceria na minha casa da infância. Se ele fizesse isso, na hora daquele sonho, eu cairia do caibro. Mas daí ele se apresentou e eu entendi tudo direitinho no inglês arcaico que ele falava. Foi muito incrível.

Ele me disse que havia descoberto que eu conhecia muita gente adulta que parecia criança, de tão inocente, e por isso veio me procurar, porque disse que essa era a verdadeira evolução, e sentiu pena de quando vivo, não ter olhado as coisas por esta perspectiva. Na mesma hora eu falei do olhar curioso de inocente do Thiago, da risada estridente da Batatinha, do coração cheio de perdão do Osias, da mente fervilhante do Jura Arruda, da doçura melindrosa da Maria José. Ele ficou admirado, não sabia que tanta gente tinha evoluído a esse ponto, e começou então a contar um pouco da sua infância.

“Eu quando guri andava por Shrewsbury olhando cada coisa que até Deus duvidaria! Eram coisas que todo mundo via mas não com o meu jeito de olhar. Eu também, como você, tinha uma casa de andar nas nuvens. Meu melhor amigo era uma salamandra que alguém tinha trazido da Espanha. Era engraçado porque mesmo de outro lugar ela entendia tudo o que eu falava. Gostava muito duma mulher que cozinhava esperança. Um dia ela chegou perto de mim e disse: Sorria, Charly. Quando eu sorria pra ela, precisava ver o quanto ela deixava de ser triste! Era uma evolução. Ficava dias olhando a borboleta se abrindo dentro da larva que era ela mesma. E já sabia que do mesmo veneno da cobra vinha a salvação. Isso era incrível! Nessa época eu ainda era um menino da mesma fé que a sua. Só que não era uma fé nua. Sabe, era na lua que a minha rua se estendia. Era a casa que eu habitava. Penso que isso seja corriqueiro pra você. Entrar no nevoeiro e não se perder. Bem, agora tenho que ir pra que você possa acordar.”

Marinaldo de Silva e Silva

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