📕 Bernadéte (Marinaldo)

TEXTO-PRESENTE para BERNADETE COSTA

Se encontrassem, em 2927, sob as pedras cortadas pela Britagem Volgelsanger, os Manuscritos da Senhora Schatz, descobririam que “Sonhar, Escrever e Viver” foram ações presentes em seus significados. Bernadete Schatz Costa, a nossa Berna, apareceria, estoica, heráldica e relembrada pelo ocupante da Cadeira 27, resgatada no discurso de posse de então, onde apareceria registros da Canção Aquática que escreveu para Fernando Karl, já que o novo ocupante gostaria de mostrar do que aquela mulher imortal era feita. Viria à tona que Bernadete era também professora, que falava sapiosamente, e de forma natural, com a armação dos óculos bailando a pontuação da língua. Viria à tona uma aparente fragilidade erguida sobre a fortaleza de dois saltos quase altos, que equilibraram o corpo esguio daquela pessoa-alicerce, apregoada por dezenas de escritores que cresceram, junto a ela, à sombra de palavras e raios de epifanias. Do alto do púlpito, abririam os Manuscritos de Bernadete e entenderiam que suas palavras foram feitas de palavras emprestadas, costuradas, compartilhadas, floridas, trazidas por outros autores que se fizeram autores provando da autoria dela. Do alto do púlpito, na página três do discurso de posse, ressuscitariam a escritora mostrando girassóis nos sapatos de quatro crianças que, respondendo que queriam ser “imortais quando crescer”, provavam que a imortalidade existe, e ela é feita da Palavra.

Depois de uma pausa, a plateia, entusiasmada na descrição de como eram as pessoas de 2022, ascenderam numa lousa as palavras Vácuo Quântico. Mas que tipo de inserção quĂ­mico-fĂ­sica Ă© essa? – levantou uma garota de 111 anos, que ocupava uma outra cadeira, e há dois anos tinha sido eleita a mais nova integrante da Academia. Foi quando surgiram imagens recuperadas do sĂ©culo XXI, promovendo uma comoção entre os presentes. E foi aparecendo o Alcides, o Apolinário, o Rodrigo, a Sueli, a Dona Else, eu, o Milton, inclusive, tocando piano e convocando a plateia ao canto, e todos eles, juntos, alguns sĂ©rios. Eram imagens distorcidas, mas vĂ­vidas como no livro A Invenção de Morel, que inclusive, tambĂ©m tinha sido resgatado. O novo ocupante da cadeira 27, entĂŁo, apresentou a Senhora Schartz. Ela levantou-se. As experiĂŞncias com memĂłrias afetivas vinham dando resultado,. Como na maioria das vezes, ela usava um coque. A cor da roupa era sĂłbria. Estava emocionada, emocionando a todos. A escrita da Fase Orgânica”, como passaram a descrever a nossa fase literária no SĂ©culo XXX, fazia seguidores. Naquela noite, eles iriam ouvir seu discurso de posse. “Ser recebida com tanta afabilidade e apreço por esta casa de amigos Ă© uma grande alegria e, ao mesmo tempo, responsabilidade…” A menina de 111 que atĂ© entĂŁo era a mais nova do grupo, chorava. Se sentia fora do seu tempo. Comentou isso com o holograma de Bernadete, dizendo que gostaria de ser como ela um dia. Que ela parecia bem mais humana.

– Seus girassĂłis nos sapatos sĂŁo muitos mais bonitos que os de Van  Gogh.

Discretamente, Bernadete ria. Imortal. Manuscrita. E quântica.

 

Bernadéte Costa
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