Discurso de posse de Deonísio da Silva na Academia Joinvilense de Letras

Discurso de posse de Deonísio da Silva na Academia Joinvilense de Letras

 

Vamos cumprir o rito inicialmente, para depois eu contar uns segredos e fazer umas inconfidências para vocês, porque é hoje a hora e é a minha terra. É muito raro eu vir à minha terra natal. Saí de Santa Catarina aos dezesseis anos e só voltei muito mais tarde.

 

O rito é o seguinte: quero começar saudando, na pessoa de Onévio Antonio Zabot, presidente da Academia Joinvilense de Letras, as autoridades aqui presentes, mas não quero deixar de citar alguns já na própria mesa. Meu recente amigo de infância, Antônio Müller, com quem já começamos a encontrar coisas em comum em Petrópolis. Naturalmente, não quero deixar passar meu agradecimento, muito emocionado, ao David Gonçalves, companheiro de velhas e memoráveis jornadas. Aqui ao lado, o Deckman, acabamos de nos encontrar. E saúdo também a  Simone Gehler para dizer: a mulher é a melhor parte da natureza humana. Esta frase tem autoria, e tenho muito orgulho de ser o autor dela. Foi tirada do meu romance Avante, soldados: para trás. Emociono-me sempre ao falar desse romance.

 

Quando fomos gravar trechos de nossos romances em São Paulo, para o Instituto Moreira Salles, Lygia Fagundes Telles e eu (ela lendo um trecho de As Meninas e eu, do Avante, soldados), ela me disse: “Deonísio, você está chorando, que bonito, eu não vejo homens chorarem”. E eu brincava muito com a Lygia, dizia que ela era mentirosa, e não sabia que estava falando a verdade, porque a Lygia mentia a idade em cinco anos e enganou todo mundo: morreu aos 98, mas tinha 103. Guardei esse segredo, porque a gente não vai dizer o que as mulheres não querem que seja dito delas, não é? E conheci um dos pretendentes dela (porque namorá-lo, ela não quis), que é o poeta jurista Paulo Bomfim.

 

Hoje, esta noite vai ser um fiasco, porque vou falar uma porção de coisas que ainda não escrevi, mas acho que é hora de dizê-las, e são coisas pertinentes. Conheci o Paulo Bomfim no Tribunal de Justiça de São Paulo por obra do José Renato Nalini, presidente do tribunal. Eu escrevia na revista Caras, e dava um jeito de citar algum escritor na minha coluna. Escrevi a coluna de etimologia na Caras durante vinte e cinco anos. É uma revista profundíssima, como vocês sabem. A grande matéria da Caras era fofoca, inclusive a fofoca das letras. E eu citei a Lygia Fagundes Telles; daí ela me ligou e disse: “Deonísio, você me citou lá, muito obrigada, mas você quer acabar com os meus pretendentes? Você colocou Lygia Fagundes Telles, 79”. Eu falei: “Ah, Lygia, mas eu não dou a idade de ninguém, muito menos de mulher, quem dá é o DEDOC, o departamento de documentação da Editora Abril”. Contei essa história ao Nalini, e o Nalini disse: “Vem cá, quero te contar uma coisa, quero te apresentar um sujeito que tentou namorar a Lygia e não conseguiu”. E me apresentou o poeta Paulo Bomfim.

 

O Paulo Bomfim disse: “Deonísio, você informou a idade errada da Lygia”. Eu falei: “Pois é, ela se queixou, mas não sou eu que ponho, é o DEDOC, o departamento de documentação”. Ele falou: “Não, você não pôs a mais, você pôs a menos, a Lygia tem 84 anos”. Daí o Nalini falou: “Isso aí é coisa de pretendente abandonado, então fica com essa mágoa para o resto da vida”. E Paulo Bomfim puxou um documento provando que a Lygia Fagundes Telles tinha cinco anos a mais.

Eu nunca disse a ninguém que sabia disso, embora tivesse visto o documento. Quando a Lygia Fagundes Telles morreu, um genealogista americano, despretensiosamente, deu a notícia e disse: “Morreu ontem, em São Paulo, a escritora Lygia Fagundes Telles, aos 103 anos”. A Academia foi verificar os documentos, e eu, um dia, encontrei o Merval Pereira no PEN Clube e falei: “Merval, vocês não vão arrumar o site da Academia? Está errada lá a idade da Lygia”. Ele falou: “Você mesmo sabia e não contou, agora quer que eu carregue isso?”. Então a Lygia continua com os cinco anos a menos. Bonito isso, não é? Acho que só na literatura acontecem essas coisas.

 

Quero contar também outra coisa. Ao longo dos anos, convivi com escritores que não são ilustres, não são famosos, e são muito bons, e com escritores ilustres e famosos que são muito ruins. Não quero dizer que os famosos, os ilustres, são ruins; é que tem gente de qualidade que não é conhecida de jeito nenhum, e tem gente muito conhecida e sem qualidade. O ninho deles, atualmente, é a Academia Brasileira de Letras. Está verdadeiramente um horror; a decadência da Academia Brasileira de Letras é espantosa. Já vínhamos com problemas muito sérios, porque um dos generais que assinou o Ato Institucional número cinco foi eleito por seus pares para a Academia Brasileira de Letras: Aurélio de Lyra Tavares. Já tinha sido eleito Getúlio Vargas, depois de ter sido ditador. Eu fui colega do Ivo Pitanguy na Universidade Estácio de Sá, éramos do conselho superior; o Ivo Pitanguy, cirurgião plástico, nunca escreveu um texto em português, escrevia em inglês, e foi eleito para a Academia. Recentemente, um índio que nunca escreveu nenhum livro, também foi eleito.

 

Gosto de respeitar as divergências, mas, em nome da literatura e daquilo que é sagrado, que é o nosso ofício, a gente tem que dizer: se você exerce a medicina e não é médico, você é preso como charlatão, você responde a processo. Agora, escritor, todo mundo diz que é, e não acontece nada com a pessoa. Acho que a gente tem que respeitar os ofícios. Você não será aceito num tribunal para trabalhar como se advogado fosse, se não é advogado. Por que a Academia é assim? Não falo isso para escândalo, falo aquilo que é real, não estou inventando nada. Falo para dizer que, sobretudo no último decênio, as academias regionais têm cumprido um papel importantíssimo, que é o de valorizar os verdadeiros escritores, eleger quem tem a obra.

 

Nós somos imortais não porque não vamos morrer; ao contrário, a taxa de mortalidade entre os imortais é muito alta. É que raramente somos eleitos novinhos, é preciso ter um percurso, e isso leva tempo. Seremos ou não imortais por nossos livros. Notem, e aqui não falo para criticar ninguém, que é muito raro, no espírito generoso do Sul… Gosto muito da Sueli Brandão, que me trouxe aqui para lançar um livro, Goether Barrabás: as más escolhas que fazemos na vida. E vocês sabem que a eleição de Barrabás para ser solto foi uma eleição democrática, um plebiscito: escolhemos o pior, condenamos o justo e soltamos o ladrão. A gente continua fazendo isso. Queria fazer esse parêntese só para saudar a minha querida Sueli Brandão, aqui presente. Há várias outras pessoas que eu gostaria de citar, meus confrades da Academia Catarinense, mas queria voltar a isto: a gente se torna imortal por aquilo que escreve, e por isso temos que nos dar ao respeito, respeitar o nosso ofício e não deixar de usar a nossa voz para denunciar quando necessário. E hoje achei necessário denunciar aqueles impostores que se apresentam como se fossem escritores e não são.

 

Quero falar, aos pulos, que no ano passado completei cinquenta anos de vida literária. Estreei em 1975, no segundo semestre, em agosto (nós dois estudamos juntos em janeiro, em Porto Alegre, não é, David Gonçalves?). Estreei em agosto de 1975, em Curitiba. No ano seguinte publiquei meu segundo livro, que já foi nacional: Rubem Fonseca levou meu livro Exposição de Motivos e o apresentou à editora Artenova. Num jantar na casa do Rubem, conheci Clarice Lispector, que estava muito aflita porque o Rubem estava vendendo demais com Feliz Ano Novo, e ela disse, naquele jantar (nunca vou esquecer): “Rubem, você está vendendo demais, tome cuidado, pense muito no que estou te dizendo”. O Rubem respondeu: “Eu penso muito no que você diz, Clarice, vou tomar cuidado”. No ano seguinte, o livro Feliz Ano Novo foi proibido em todo o território nacional. A Clarice era bruxa, vocês sabem disso, não é? Bruxa de bom presságio. Lygia me contou direitinho esta história, ela me contava detalhes, éramos muito amigos. A Lygia Fagundes Telles disse: “Na noite em que ela morreu, eu estava em São José do Rio Preto, e à noite apareceu uma mariposa preta na cabeceira da cama, e não queria sair do quarto de jeito nenhum”.

 

Depois, fiz minha tese sobre a censura e me inteirei do caso Rubem Fonseca, porque tive acesso ao processo nos tribunais, e o Rubem ficou proibido até quando eu já tinha defendido minha tese de doutorado sobre a censura e os livros proibidos. Quando defendi, em 16 de outubro de 1989, o Rubem continuava proibido. Estamos falando de coisas historicamente recentes.

 

Entre esses escritores muito bons e pouco lembrados, acho que temos que começar a olhar para o nosso próprio estado. Assim que fui eleito para a Academia Catarinense de Letras, fiquei pensando por que nunca falamos do Salim Miguel, que já tinha morrido, e do Manoel Carlos Karam, grande escritor, uma espécie de nosso Ionesco, amigo do Ernani Buchmann, em Curitiba, colegas de geração, evidentemente também o Paulo Leminski, que nenhum de nós pôde acompanhar, não é, Ernani, senão a gente morria como ele morreu, de cirrose. Fomos criando homenagens, e um dos premiados foi o Ernani Buchmann. Tenho orgulho de dizer que, nesta mesa, há dois escritores dos quais tenho orgulho de ter sido editor, no Brasil e em Portugal: Davi Gonçalves e Ernani  Buchmann. O Ernani, com um livro primoroso, já falamos do David, chamado Tiranos, em que ele faz um inventário dos ditadores latino-americanos, dos déspotas, de todos os autoritários. Para minha sorte, o Ernani não se esqueceu de um déspota que é meu personagem no romance A Cidade dos Padres: o Marquês de Pombal.

 

Quero lembrar que não deixemos de prestar atenção aos escritores catarinenses, que os citemos, que tragamos à memória e à lembrança bons escritores. Posso citar uma porção, mas quero citar só alguns. Cruz e Sousa é olhado, em geral, só como poeta (aqui tenho amigos da República das Letras; uma saudação especial à professora Cláudia, que trouxe para esta noite os alunos de Letras desta cidade). Cruz e Sousa foi também um grande cronista, de crônicas incríveis, e nós reconhecemos nele um grande escritor, mas olhamos mais a poesia, que realmente é aquela coisa vulcânica e tão boa, e não as crônicas. Guido Wilmar Sassi fez aquele romance belíssimo, Geração do Deserto, filmado por Sylvio Back como A Guerra dos Pelados. Miro Morais, que já passou dos oitenta anos, é autor de A coroa no reino das possibilidades; editei também, para a Almedina, o romance dele, Caminho Sem Volta.

 

E, nessas lembranças, no calor da hora, não quero deixar de dizer que algumas coisas que são contadas não foram bem assim. Já cheguei aos setenta e sete anos, corpo de setenta e seis e meio, tenho registradas nas minhas memórias, já bem volumosas, mas não contei nem dez por cento do que quero contar, algumas coisas que não são bem assim.

 

Convivi semanalmente com um autor na casa de Josué Guimarães, outro grande escritor, citado aqui pelo meu antecessor na tribuna, Mário Quintana. Lembro-me de termos construído uma teoria sobre a fofoca, que cada semana voltávamos a reelaborar. A premissa era a seguinte: a fofoca é uma prova de solidariedade, porque a pessoa está preocupada com a vida alheia, logo é uma prova de amor ao próximo.

Na semana seguinte, acrescentávamos outra (eu fazia o mestrado na UFRGS e morava em Ijuí; vinha para Porto Alegre, ficava dois dias por semana e o resto em Ijuí, onde era professor): a fofoca é também uma prova de modéstia, porque a pessoa não fala de si, fala do outro, porque não se acha importante.

Depois, numa jornada em Passo Fundo, Fernando Sabino acrescentou uma terceira qualidade: a fofoca é também uma prova de delicadeza, porque falamos pelas costas para não magoar a pessoa, pois imagine falar na frente o que se fala nas costas.

Essas conversas quase ninguém contou; tenho lido as memórias que existem e não encontrei esses registros. Na nossa vida literária acontecem coisas muito bonitas que não registramos, porque não dá para registrar tudo.

 

Caminhando para o fim da minha intervenção, queria lembrar que a felicidade não é indispensável. Discordo de quem fica nessa ânsia e às vezes sofre muito correndo atrás da felicidade. A felicidade não é indispensável, deixem-na de lado; aliás, em geral é ela que corre atrás da gente, e às vezes fugimos o tempo todo, como diz Vicente de Carvalho naquele memorável soneto.

Mas há uma coisa indispensável, muito mais importante que a felicidade, que às vezes não se alcança porque se está procurando demais e no lugar errado: o amor. Aquele amor que vem por herança, os laços de sangue, os laços eternos. Pode-se dizer que a gente tem ex-mulher, alguns têm ex-marido, mas não se tem ex-filho, não é? Há aqueles amores indispensáveis, a pessoa que se ama do amor conjugal, e há um tipo de amor que é a amizade, que, no meu entender, está, não direi acima, mas no mesmo plano do amor: o amor do amigo. Esse lema de vocês, Domus Amica, Domus Optima, é realmente uma maravilha, porque a amizade é uma espécie de nossa pátria. A gente quer encontrar o amigo, não por interesse algum, mas pelo convívio.

 

Vou contar uma historinha que está num conto que acho que é do Borges. Dois amigos ingleses se encontram durante vinte e cinco, trinta anos, e vão tomar chá no salão de um hotel, e não se falam: um se senta num sofá, o outro noutro. Existe um mundo masculino, viu, mulheres aqui presentes, que é meio indevassável para vocês, assim como existe um mundo das mulheres indevassável para nós. O homem nunca sofreu cólica menstrual, não pode imaginar o que seja isso; não carregou ninguém na barriga; acho que ninguém nasceria se nos dessem esse ofício. Para falar desse mundo indevassável, quero contar duas historinhas, com as quais vou encerrar.

 

Um dia, depois de trinta anos daquele hábito, um dos ingleses não apareceu, e o outro perguntou ao garçom o que havia acontecido. O garçom disse: “Pois é, não sei, ele vem todo dia, hoje não veio”. No dia seguinte, também não veio. No terceiro dia, o garçom disse: “Olha, eu soube do seu amigo, ele não veio porque morreu”. O outro respondeu: “Só por isso, só porque morreu, já não veio mais? Eu gostava tanto de conversar com ele”. E eles nunca conversavam, sentavam-se lado a lado; e o humor está em que, só porque morreu, não veio mais.

 

A outra história está documentada em Heidelberg, na Alemanha. Caminhei pelo Caminho dos Filósofos, por onde andavam Kant e, depois, Heidegger. Havia uma espécie de galpão onde, depois das aulas, os filósofos se retiravam, iam para aquela casa depois do almoço, só homens, três ou quatro. Aquilo despertou uma suspeita extraordinária, e os alunos eram proibidos de se aproximar. Até que um dia um grupo de alunos rompeu o cerco, foi até lá e flagrou os quatro professores, eminentes filósofos, tirando uma soneca depois do almoço. Que coisa maravilhosa: esperavam sei lá o quê, alguma coisa inimaginável, e eles só precisavam de uma hora de descanso, ficar a sós e dormir, não mais conversar.

 

Sobre esse olhar que temos sobre os outros, quero terminar dizendo o seguinte. Como o David citou que estive em Cuba: ganhei realmente o Prêmio Casa de las Américas, com um júri presidido por José Saramago. Digo isso com orgulho e honra, porque foi um prêmio que mudou muito minha vida editorial. Mas não foi nessa viagem que entrevistei Fidel Castro. Quando o entrevistei, notei uma singularidade, porque havia uma mulher junto, senão eu não teria notado: Fidel Castro era muito tímido. Ele vinha, e a Urieta, mulher de Fernando Novais, me disse: “Deonísio, quando ele passar por mim, eu vou abraçá-lo”. Eu falei: “Mas não pode, é o rito, a cerimônia; o cerimonial já disse que ele passa, a gente dá a mão, ele cumprimenta, se perguntar alguma coisa, a gente responde, senão não diz nada”. Ela disse: “Cerimonial nada, quando ele chegar aqui, eu dou um abraço nele”. E, quando Fidel Castro se aproximou, dona Urieta se atirou nos braços dele, e ele, tímido, não recusou o abraço, mas parecia desconfortável. Depois ela disse: “Eu não te disse? Homem de voz fininha é tímido”.

 

Essas observações, que podem parecer sem importância nenhuma, representam, para um ficcionista, coisas que depois, naquele monjolo que se torna a nossa atafona, servem para fazer as nossas histórias, os nossos romances (poemas eu não faço nenhum, nunca fiz o mais escasso verso). São muito importantes.

 

Queria concluir agradecendo a atenção que vocês deram às minhas palavras, renovando o apreço que tenho por vocês, e fazendo uma profissão de fé: contem comigo, no Rio de Janeiro ou onde quer que eu esteja, para defender a literatura catarinense e a Academia Joinvilense de Letras, para valorizá-los, para ajudar a construir, inclusive atuando junto às esferas oficiais, um lugar melhor para a literatura de Santa Catarina. O estado de Santa Catarina é o terceiro do Brasil em qualquer índice de qualidade de vida, está entre os três melhores, mas não tem a sua literatura com a marca que tem, por exemplo, a literatura gaúcha, e como ainda não tem a paranaense em relação à do Rio Grande do Sul. E veja que ironia: os escritores que mais trabalham pela literatura paranaense são catarinenses, ou de outros estados, liderando essa valorização; o Dante Mendonça, que não está aqui, e o Ernani Buchmann, como pode testemunhar, são duas dessas figuras.

 

E quero lembrar, por fim, aquilo que desde sempre sabemos: que no princípio era o Verbo, e no meio, e no fim, também será.

 

Muito obrigado a todos vocês.

COMPARTILHE: