Discurso de posse na AJL do Acadêmico Marco Schettert

Discurso de posse na AJL do Acadêmico Marco Schettert

 

Em nome do presidente Onévio Antônio Zabot e da vice-presidente Simone Schuler Medeiros Gehrke, cumprimento todos os acadêmicos presentes. Em nome do presidente desta prestigiada Casa Harmonia Lira, Dr. Álvaro Cauduro, cumprimento as demais autoridades e todos que nos honram com sua presença.

Cora Coralina sempre esteve certa:

“Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia.”

Parafraseando Clarice Lispector, sempre fui um tímido muito ousado.

Amo estar entre amigos, e é exatamente assim que me sinto hoje: entre pessoas que admiro. É verdade que um ou outro talvez tenha vindo apenas para lembrar ao escritor que a vida não é feita só de alegrias e que também da tristeza nasce a poesia.

Desta tribuna falaram Jorge Lacerda, Antônio Carlos Konder Reis e tantas outras personalidades que engrandeceram a cultura catarinense. Receber a honra de ocupá-la é motivo de profunda gratidão.

Nobres acadêmicos,

Vivemos num mundo que transformou a velocidade em virtude. Queremos fazer tudo mais depressa, produzir mais, consumir mais, responder mais rápido. A pressa deixou de ser uma necessidade para tornar-se um modo de viver.

Hoje, a Inteligência Artificial é capaz de escrever um livro em menos de uma hora. É uma ferramenta extraordinária, mas também um convite à reflexão.

Desacelerar tornou-se um ato de resistência.

É justamente nesse tempo que os livros, os poemas e a literatura revelam ainda mais o seu valor. Eles nos devolvem o silêncio, a contemplação e a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos. São um dos melhores remédios para a ansiedade, esse mal que marca o nosso tempo.

José Saramago advertia:

“Não sabemos mais o que somos nem o que é a realidade.”

Talvez por isso nunca tenha sido tão gratificante escrever com as próprias mãos e poder dizer, de boca cheia: — Fui eu que escrevi.

Cada conto, cada crônica, cada romance carrega as marcas das nossas vivências, das nossas dúvidas e também das nossas invenções.

Escrever nunca foi apenas inspiração.

É, sobretudo, persistência.

Gabriel García Márquez escreveu diversas vezes a primeira frase de Cem Anos de Solidão. Ernest Hemingway reescreveu trinta e sete vezes o final de O Velho e o Mar.

É assim que nascem os livros destinados a permanecer.

Levo comigo a convicção de que um bom livro ultrapassa o seu autor. Torna-se herança para quem ainda nem nasceu.

Há uma frase de Guimarães Rosa que sempre me vem à mente quando penso em obras como a sua:

“Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.”

Quando cursava Jornalismo, o professor de Redação III dizia:

— Aqui você não é advogado. Aqui você é jornalista. Escreva como jornalista.

Anos depois, submeti uma das minhas crônicas à Inteligência Artificial. Ela respondeu:

— Lembre-se: você não é jornalista. Você é um contador de histórias.

Confesso que gostei da resposta.

Hoje compreendo ainda melhor as palavras de Clarice Lispector:

“Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria.”

Tenho sessenta e cinco anos, aproximando-me dos sessenta e seis.

A idade oferece um privilégio que o tempo concede a poucos: a experiência.

Durante boa parte da minha vida trabalhei na cozinha. Tenho orgulho de dizer que sou cozinheiro.

Agora, por vontade dos acadêmicos, passo a ser também um imortal cozinheiro apaixonado pelas palavras.

E levo comigo a certeza de que panelas e livros têm muito em comum.

Ambos alimentam.

 

Meus pais, os gaúchos Salmar e Albina Schettert, nasceram em Cruz Alta, terra cujas coxilhas inspiraram Érico Veríssimo em uma de suas mais belas obras, Olhai os Lírios do Campo.

Pai, peço que fique de pé.

Noventa e dois anos de vida não são para qualquer gaudério.

Érico Veríssimo escreveu sobre um homem dividido entre o amor e a ambição. Quanto a mim, fiz uma escolha. Decidi dedicar o último terço da minha vida menos à ambição e mais às panelas, à fotografia, aos amigos e aos livros.

A ambição, quando desumanizada, envelhece antes do homem.

Gratidão.

Essa é uma palavra que pretendo carregar comigo enquanto ocupar esta cadeira.

Meu primeiro agradecimento é ao acadêmico Nielson Modro, meu padrinho nesta Academia. Nossa amizade atravessa muitos anos. Durante longo tempo o entrevistei em programas de televisão; eu, jornalista, e ele, um apaixonado pela sétima arte.

Obrigado, Modro, pela confiança e pela generosidade de indicar meu nome.

Estendo minha gratidão à Patrícia, sua esposa, a primeira leitora de um dos meus livros e uma das primeiras pessoas a acreditar que eu poderia integrar esta Academia.

Aos meus filhos — Patrícia, Lucas, Marquinhos e Paola — obrigado pelo amor, pela compreensão e por dividirem comigo esta caminhada.

À minha esposa, a escritora Fernanda Stella de Paula, meu agradecimento especial.

Nenhum escritor escreve sozinho.

Antes que os leitores conheçam um texto, existe alguém que convive com seus rascunhos, suas dúvidas, suas frases interrompidas e suas madrugadas.

Fernanda leu páginas ainda cheias de vírgulas fora do lugar, períodos mal resolvidos e ideias em construção.

Quem é casado com um escritor sabe exatamente do que estou falando.

Transformamos quem amamos em nossos primeiros — e mais sinceros — leitores.

Obrigado aos acadêmicos por me receberem entre os imortais.

Chego para aprender.

A literatura ensina que ninguém domina completamente as palavras. Nós apenas convivemos com elas, tentando organizá-las da melhor maneira possível.

Sou historiador de formação.

Talvez por isso meus livros tragam sempre um pouco da História. Ela está presente nas entrelinhas, nos personagens e na maneira como observo o mundo.

Meu reconhecimento ao escritor Apolinário Ternes e à escritora Maria Cristina Dias.

Na universidade, seus livros fizeram parte da minha formação. Hoje tenho o privilégio de compartilhar com vocês esta Academia.

À escritora Bernardete Schatz Costa — e também à Albertina e Adalberto Barreto — minha gratidão por um dom raro: a sinceridade.

Poucas pessoas sabem dizer:

— Ainda não ficou bom.

E poucas virtudes são tão importantes para um escritor quanto ouvir um “não” dito com honestidade.

Ao escritor David Gonçalves, que tão bem representa Santa Catarina na Academia Catarinense de Letras, meu respeito e minha admiração.

Ao amigo Marcelo Lufiego, companheiro de tantas jornadas, obrigado pela amizade.

Houve um tempo em que dividíamos não apenas a advocacia, mas também os sonhos. Contávamos moedas para manter o escritório funcionando e acreditávamos que poderíamos mudar o mundo.

Hoje compreendo que talvez não mudemos o mundo inteiro.

Mas podemos transformar as pessoas que alcançarmos com as nossas palavras.

E isso já é muito.

Obrigado, nobres acadêmicos, por me acolherem nesta Casa.

Recebo esta honra com humildade e com a firme disposição de fazer por merecê-la.

Lembro, então, Carlos Drummond de Andrade:

“Que pode uma criatura, senão, entre criaturas, amar?”

E também Mário Quintana, quando nos recorda que os poetas são feitos de carne e osso.

É exatamente assim que chego até vocês.

Sem qualquer pretensão de grandeza.

Apenas como alguém que acredita no poder das histórias e na força das palavras.

Sei da responsabilidade que assumo ao ingressar nesta Academia.

O escritor vive sob o olhar atento dos leitores. Uma palavra mal colocada, uma vírgula fora do lugar, umas ideias mal desenvolvidas podem dizer mais do que gostaríamos. Pior, para muitos não seriamos merecedores do perdão do filho de Deus.

Gabriel García Márquez observou que “o ofício de escritor é talvez o único que, quanto mais se pratica, mais difícil fica.”

Quanto mais escrevemos, maior é a responsabilidade.

Escritores não sabem guardar segredos. Transformam-nos em poemas, contos, romances e crônicas. Entregam ao mundo aquilo que muitos prefeririam esconder.

Machado de Assis fez isso de forma magistral ao criar Capitu. Até hoje discutimos aquilo que ele nunca respondeu. É esse o poder da literatura: não oferecer apenas respostas, mas criar perguntas que sobrevivem ao tempo.

Não nos cabe o direito de fugir da crítica.

Ela nos lapida.

Assim como o escultor precisa de um cinzel afiado para revelar a obra escondida na pedra, o escritor precisa aceitar o rigor da crítica para aperfeiçoar sua escrita.

Nossa responsabilidade vai além da estética.

Escrever é um compromisso com a verdade, com a liberdade e com a dignidade humana.

“Estamos lutando contra três grandes gigantes, meu caro Sancho: a injustiça, o medo e a ignorância”.

Dom Quixote sempre atual e verdadeiro..

É por isso que escrever nunca foi um simples passatempo.

É uma forma de servir.

Vivemos um tempo de pessoas cansadas.

Gente que desperta cansada e termina o dia ainda mais cansada.

Que os nossos livros sejam um abrigo.

Que nossas histórias ofereçam esperança.

Que nossas palavras façam companhia àqueles que atravessam momentos difíceis.

Porque, no fundo, todos nós andamos precisados de um pouco mais de amor.

Clarice Lispector escreveu:

“Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o quê, não sei onde…”

Talvez seja exatamente essa busca que nos faça continuar escrevendo.

Gabriel García Márquez dizia que:

“A vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda e como a recorda para contá-la.”

É isso que fazemos.

Recordamos.

E contamos.

Hoje passo a ocupar a cadeira cujo antecessor foi Ilmar Gastão de Carvalho, jornalista, cronista, crítico musical e um dos nomes que ajudaram a construir a história cultural de Santa Catarina.

Também jornalista, sinto-me especialmente honrado por sucedê-lo.

Sua trajetória começou no jornal A Notícia e alcançou jornais e revistas de circulação nacional.

Recebeu importantes condecorações e deixou uma obra que continua inspirando leitores.

Seu primeiro livro, O Bêbado Azul do Desterro, revelou um escritor profundamente ligado à memória, à cultura e à alma de Florianópolis.

Quis o destino que outro jornalista ocupasse agora esta cadeira.

A cadeira de número 16.

Gosto de imaginar que, somados os algarismos, encontramos o número sete, símbolo da busca pelo conhecimento e pela verdade.

Que Ilmar Gastão de Carvalho continue inspirando aqueles que vierem depois de nós, assim como hoje inspira este seu sucessor.

Antes de concluir, quero agradecer aos artistas joinvilenses Silvana Pohl, Adhemar Cesar e Albina Schettert, responsáveis pelas capas dos meus livros.

As capas são o primeiro convite ao leitor.

Obrigado por traduzirem em arte aquilo que procurei dizer com palavras.

Nobres acadêmicos,

Recebo esta cadeira com humildade.

Não como um ponto de chegada.

Mas como um novo começo.

Prometo honrar esta Academia com trabalho, dedicação e respeito à literatura.

Que os nossos livros continuem sendo sementes. Algumas cairão em terreno árido. Outras encontrarão solo fértil. Mas basta que uma floresça para justificar toda uma vida dedicada às palavras.

Por que Imortais?

“Por muita idade que tenha o poeta não fica velho, fica verso”. Mário Quintana

E permitam-me encerrar com Carlos Drummond de Andrade:

“Que pode uma criatura, senão, entre criaturas, amar?”

Muito obrigado.

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