Doutor Violantino (Zabot)

DOUTOR VIOLANTINO

Doutor Violantino, médico lá das Minas Gerais. Violantino Afonso Rodrigues. Dos Afonso, orgulhava-se disso. Apequenado apenas de tamanho, nunca de alma. Simpático. Afável. Esbanjava alegria e, sobretudo simplicidade. Gente, como a gente, dizia Amandus Finder, vereador do Iririú em priscas eras. Finder, clarinetista emérito da Sociedade Alvorada, mais tarde, deu largada para a criação do Parque Morro do Finder. Mais do que justa homenagem à sua ousadia.

Violantino, por sua simplicidade, e porque não perspicácia, acendeu rapidamente no cenário político joinvilense. Vereador, presidente da Câmara, Vice-prefeito, Prefeito e Secretário Estadual da Saúde no governo de Esperidião Amin. Coisas da política.

Na largada da década de 1980 integramos o colegiado de governo do então prefeito Luiz Henrique. O lema: “O povo Governa”. Intenso trabalho comunitário. E, Violantino, como vice-prefeito, vez por outra aparecia nas reuniões. Ele e Luiz Henrique tocavam de ouvido, percebia-se. Fazia questão de dizer: – Sou médico, minha profissão; vice-prefeito, uma missão. Sempre aparecia vestido de branco. Inconfundível, portanto. Extremamente objetivo, ia direto ao ponto.

Tudo corria tranquilo, mas eis o imprevisto: o mandato dos prefeitos foi subitamente prorrogado em 1980. E, Luiz Henrique desincompatibiliza-se para concorrer a deputado federal, transferindo o cargo para Violantino, em 5 de março de 1982.

Violantino, ato contínuo, reúne o colegiado de governo, e informa.

– Não sou prefeito, estou prefeito. Mandato tampão. Missão: encerrar este governo e preparar a municipalidade para a próxima gestão. E foi taxativo: – Não deixarei, portanto, de ser médico:  minha profissão, meu ganha pão, meu ofício.  E assim procedeu. Das dez às doze horas, despachava na prefeitura. Agenda da tarde: visita a obras. Portanto, das dez às doze horas, todos a postos. Naquela época, época do telefone fixo, encontrar alguém, um secretário, só se estivesse no local de trabalho. Se a campo… bau! bau!

Assim rodava o governo. Todos na ativa, e como diria o engenheiro Winter moviam-se por inércia.  Ou por outra: tocavam de ouvido.   Passado um mês, Violantino reúne o colegiado, e sem cerimônia, larga:

– Estou renunciando ao mandato de prefeito. Boquiabertos, entreolham-se os secretários. Nem, dá tempo para a resposta, e emenda: – Pra que prefeito… Estou administrando a um mês a prefeitura e até agora ninguém deu as caras. Nenhum secretário. Ou estamos a mil por hora. Ou então nada está acontecendo. A puxada no freio de arrumação dá jeito no colegiado. Contornado o súbito mal estar, ali mesmo de bate-pronto, monta-se uma agenda de visitas. Uma delas ao Distrito de Pirabeiraba. Hermes Krelling, então Intendente Distrital, clamava:

– Prefeito: – A ponte sobre o rio Cubatão rodou. Forte enchente rompeu a velha ponte coberta. Escombros pra todo lado.

Agenda marcada, visita feita. Arno Krelling, Durival Lopes Pereira e outras lideranças se fazem presentes. Testemunhamos o fato. Sobre as águas turbulentas do rio Cubatão, apenas uma pinguela improvisada dava passagem aos transeuntes. Nada de viaturas. Umas de cá, outras de lá. Trânsito interrompido. Situação de emergência. Violantino se aproxima, cumprimenta os presentes. Como sempre trajado a rigor: de jaleco branco. Dirige-se à pinguela a passos largos. Passos metrados.  E vai contando alto, um, dois, três, quatro, cinco… e por fim cerca de vinte e tantas passadas. Se volta para os presentes, ergue, os braços e proclama: – Esse é o comprimento da nova ponte. – Está decidido: vamos construí-la em concreto armado. Modelo prático, mas eficiente. E assim foi feito. E, la está a ponte, pista única, até os dias de hoje. Poucos sabiam, mas Violantino, além de médico, dedicava-se à construção civil.

No embalo compra uma usina de asfalto a frio, e amplia o Hospital Municipal São José, atual ala Ulysses Guimarães. Não há recursos financeiros, exclamava Marcos Wehmuth, então secretário de finanças. Violantino, nem aí, dizia:

– É problema teu. Está decido e pronto, e mandou comprar mais doze caminhões basculantes. Obra marcante: o calçadão da rua Príncipe.

Assim era o doutor Violantino, ousado, mas sobretudo realizador. Ah, uma curiosidade: falava fluentemente alemão.

 

Joinville, 19 de junho de 2020

 

Onévio Zabot

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