O ARTISTA DES-CONHECIDO (Walter Guerreiro)

O ARTISTA DES-CONHECIDO

Walter Guerreiro

 

Como herói moderno, fez aquilo que Nietzsche apregoa – vive como se o dia fosse chegado, tal como Dédalo constrói um labirinto com passagens ocultas, procurando vencer suas limitações humanas e, atuando na mesma forma que Dédalo, como aquele artista desinteressado, além de todo julgamento social, cuja única moral é a da sua arte, não de seu tempo. Algo desafiador para a crítica implacável quanto a anacronismos, todavia de olhos fechados quanto estar “à la mode.”

Artista ou artífice esculpe sonhos, no quadrado perfeito que se inscreve no círculo das rodas de sua bicicleta única, pedala ao léu nos jardins do Éden pintando cenários românticos, nega o céu azul pelo vermelho que não vem de sua paleta, porém de suas veias em que corre a tinta, cor tão apreciada por Amélie Poulain nos encontros eróticos de Montparnasse, e que não podem existir na atmosfera fria  do encontro erótico de um casal degustando vinho, e em êxtase flutuando sobre o serpenteante rio Garonne entre os castelos de Bordeaux..

Quem será esse exótico personagem?

O cavanhaque e o olhar ora distante ora alucinado no frenesi dos pinceis faz pensar em Salvador Dali, o surreal catalão. Espere, aquele homem esperando o trem no topo de um prédio bem pode ser obra dele, mas não, o conjunto recorda mais uma HQ, coisa a que nunca foi afeito, existe o conflito com o mundo exterior mas não é a neurose descrita por Freud no ilustre artista, é uma blague de humor que ele não tinha, não se trata do “delírio íntimo” lacaniano na interpretação da realidade que lhe era habitual.

E essas distorções das figuras, contorções malabaristicas circenses como se o mundo fosse um circo, aqui um poeta andrógino lança folhas de sua escrita sobre as águas do rio Itajaí-Açu, o conhecimento da anatomia patente na forma não pode ser de Dali, ele não resistiria a esticar desmesuradamente o bardo.

Pintor e escultor compulsivo, pelo visto, vive de paixões fulminantes, revive o passado que viveu e não viveu numa Montparnasse fin de siècle. Afinal, o poeta que não era pintor, também desassossegado com múltiplas personalidades, uma delas talvez a real (e o que é o real?), Fernando Pessoa, disse: a memória é a consciência inserida no tempo.

Em tempo, para que não fiquem dúvidas: ele é Juarez Machado.

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