O estranho voo de Marília (David Gonçalves)

 

O ESTRANHO VOO DE MARÍLIA

David Gonçalves

 

Na noite anterior, sábado, a cabrita Neguinha, desapareceu do cercado logo no entardecer. Turíbio, quando percebeu, saiu à procura, riacho e serras, e desanimado, pela meia-noite, estava de volta, sem a cabrita. O leite para os filhos era da Neguinha.
Domingo ansioso. A toda hora espiava o caminho que serpenteava o morro, à espera da cabrita.
Marília, sua mulher, zanzava pela casa, inquieta, carrancuda, olhar de faca afiada. Jesus, que bicho a mordera. Tinha ele culpa pela fuga da cabrita?
Na tarde de domingo, mormaço, o mundo desabou sobre Turíbio. A mulher jogou a mala na varanda, nervosa.
– Vou-me embora. Pra nunca mais.
Coração aflito, atropelado, ele a olhava sem entender. Palavras em cocho de sal.
– Este mundinho não me serve. Tenho mais coisas. Aqui tudo morreu…
Ah, coração.
Viu ela sumir na estradinha num carro de aluguel. No oco do nada ficou Turíbio. Pés sem chão. Pântano. Mastigava palavras amargas.
Seus filhos pequenos grudaram em suas calças de brim e choravam.
No meio do terreiro, Turíbio contemplava o nada. Ferida viva sangrando. Afagou os filhos e sentou-se na frente da casa, dilacerado.
No começo da noite, ouviu o trotear da cabrita Neguinha no terreiro.
– Ah você voltou! Ela também vai voltar…

Então se passaram dez anos. Filhos cresceram. Como os pássaros, eles criaram asas e estudavam na cidade. Turíbio, toda tarde, sentava-se na frente de casa, esperançoso.
Por onde andaria Marília? Só o vento e a lua respondiam.

Feridas se curam com o tempo? Cicatrizam-se. Ou são brasas vivas sob cinza? Turíbio mastigava sal grosso no cocho. Os domingos eram tristes, tristíssimos.
Havia solução. No celeiro, estendeu corda no oitão. Nó cego indissolúvel. O diabo tramava. Vida sem sentido. Ansiava o abismo.
Era domingo à tarde. Infinitos e tristes domingos. Abriu o celeiro e, resoluto, subiu na banqueta e enfiou a cabeça no laço áspero da corda.
Mundo negro. Turíbio via o quê?
Quando estava para o último ato, num breve pontapé na banqueta, o barulho de um carro de aluguel espantou os pássaros na tarde morna.
– Oh de casa! Oh de casa!
Em seguida, aquela voz:
– Turíbio! Turíbio!
De repente, na porta do celeiro, estava ela. Vestia um estranho e belo vestido azul. Estava gasta, engordara, rugas ao redor dos olhos negros e cansados. Aos olhos de Turíbio, era ainda uma princesa.
O destino consertava seus despropósitos?

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