Um caso peculiar (David Gonçalves)

Um caso peculiar 

David Gonçalves

 

Baltazar não tinha este nome não. Era Genésio.

Deu-se o fato: quando fez setenta anos endoidou. Tinha mulher braba, que infernizava a vida dele.

Então fez a doideira. Pra se livrar dos martírios? Segundo se fala, queria se ver livre da cascavel.

– Deixa estar, mulher! Cometo uma desgraça e desapareço.

Isto foi no sábado. Na segunda-feira, pelo meio-dia, ele entrou no banco, empunhando o revólver já meio enferrujado, começou a gritar e pipocar tiros.

– Isto é um assalto!

Encheu a bolsa de dinheiro e foi saindo. Na porta a polícia o pegou.

Era o que desejava. Passaria o resto da vida no presídio, longe da víbora de sua mulher. Preso, sorria. Nunca a polícia vira coisa igual.

Foi a julgamento, como, segundo as testemunhas, era bom homem, pacato e prestativo, o juiz o condenou à prisão domiciliar, e assim ele voltou para casa.

– O traste imprestável volta ao próprio lar! – a víbora da mulher vangloriava-se.

Viveu mais dez anos e todos o chamavam de Baltazar, e riam e galhofavam.

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