Ac. Walter Guerreiro leu “A Linha de Sombra”, de Joseph Conrad
A “LINHA DE SOMBRA”, HISTÓRIA DA VIDA
Walter Guerreiro
Recentemente resgatando da memória fatos ocorridos me veio à lembrança dentre milhares de livros consultados e lidos uma pequena grande obra de Joseph Conrad datada de 1916, ao relê-la me deparei com sua observação de que o essencial sobressai na insignificância de fatos diários. A frase do autor aparece em sua introdução à obra “A linha de sombra” que em sua essência traduz acontecimentos narrados de maneira memorialista e numa primeira abordagem seria a mudança de uma juventude inconsequente para o amadurecimento na vida adulta. Porém, “A linha de sombra” é muito mais do que isso, não se trata de uma linha como o título indica, uma fronteira como metáfora, mas da permanência em um estado de mudança de personalidade pelas experiências acumuladas no dia-a-dia, algo irreversível e que no esquecimento vai muito além de uma passagem, se prolonga por toda a vida; o mar tenebroso também é metáfora dessas experiências acumuladas na existência. A ausência de brisa, constante em todo o romance é a ansiedade que corrói o personagem e nos consome diante da névoa marinha que é o próprio destino, ocorre pelas incertezas, e o desafio humano é o de laçar-se à sombra que não é apenas uma linha, não é a terra de ninguém entre trincheiras, zona de penumbra na qual as imagens se confundem indistintas, é a situação-limite de vencer ou ser derrotado pela vida.
Vinte e um dias concentram a vida de uma existência nessa obra, o bem e o mal na eterna dualidade permeando a vida como um jogo de forças. Assim como no Tao, o princípio absoluto e imanente que tudo cria e permeia o universo, é o caminho depois da escuridão pela renovação da luz na interpenetração de forças opostas. O tema arquetípico dessa obra se estabelece e nos faz lembrar “Moby Dick” de Hermann Melville, entretanto se para esse capitão não há salvação, em “A linha de sombra” ocorre um crescimento do personagem e a passagem pela barreira da imobilidade, da escuridão em todos os lados e do fragor da tempestade, do mesmo modo que em “Coração das trevas” do mesmo autor com suas múltiplas camadas. Vejamos nos diálogos finais:
– E há mais uma coisa: um homem deveria enfrentar a má sorte, seus erros, sua consciência, e todas as coisas.
Vem a resposta: – Ora, o que mais há para se combater?
Enfim, A Linha de sombra é uma obra prima, e o que há mais?
