Tempos de cinema (Hilton Gorresen)

TEMPOS DE CINEMA

Hilton Görresen

 

Não sei quando nem como entraram em minha vida dois dos mais importantes tesouros de minha infância: o cinema e as histórias em quadrinhos.

Como a totalidade dos jovens de minha idade, fui criado nas peripécias do cinema americano, com seus protagonistas belos e heroicos, suas belas mocinhas. Fora desse padrão eram os vilões, feios e malvados.

Aos fins de semana a ida ao cinema era obrigatória. Minha mãe colocava o dinheiro da entrada em meu bolso, eu saia sozinho, com meus 6 ou 7 anos, subia a ladeira que levava à praça da igreja matriz e ao Cine Marajá. De longe avistava a amiga da mãe, que costumava acompanhar o filho, e corria gritando seu nome, com medo de que entrasse no prédio sem me ver, pois era quem comprava minha entrada (eu não alcançava a bilheteria).

Os antigos seriados da matinê dos domingos eram divididos em 12 ou 15 capítulos, de uns 20 minutos cada, com cenas de ação constante, culminando com o famoso “perigo do mocinho”. O mocinho caiu no despenhadeiro; o mocinho se encontra amarrado diante de uma gigante serra elétrica que irá dividi-lo em duas partes; o mocinho caiu numa cova cheia de animais selvagens… A gente estava careca de saber que o mocinho sempre encontrava um jeito de se safar, só ficava curioso para saber como. As aventuras desses heróis de celuloide enchiam simbolicamente de emoções nossa vidinha pacata.

Os seriados exploravam toda espécie de gênero: faroeste, espionagem, ficção científica, aventuras nas selvas; era ação constante, tiros, explosões, agressões. Os protagonistas não precisavam ser artistas, muitos mal abriam a boca; de preferência, que fossem atletas.

Não havia sutilezas, dava de reconhecer os bandidos logo de cara pela expressão e pelos gestos, com exceção do misterioso “chefão”, que deveria ficar incógnito até o final da série. A excitação era grande nos capítulos finais: desmascarado, o bandidão era perseguido pelo mocinho. O cinema quase vinha abaixo, gritos, assobios, cadeiras sacudidas. Também não havia cenas amorosas, o mocinho tinha mais intimidade com seu cavalo do que com a própria namorada. Isso, aliás, devia ser debitado ao rigoroso código de ética vigente naqueles tempos.

Os atuais cineastas e novelistas certamente aprenderam muito com os velhos e ingênuos seriados. O suspense ao final de cada capítulo, as cenas de perigo, as perseguições e explosões. Filmes como os de James Bond, Indiana Jones e outros, no fundo, não passam de “seriadões” com maior tecnologia. Será que as emoções continuam as mesmas?

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL A GAZETA DE SBS EM 07.01.2023

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