Ac. Walter Guerreiro leu “Homens imprudentemente poéticos”, de Walter Hugo Mãe
HOMENS IMPRUDENTEMENTE POÉTICOS
Walter Guerreiro
A obra me atraiu pelo insólito adjetivo no título: Homens imprudentemente poéticos, de Valter Hugo Mãe , um autor angolano de língua portuguesa escrevendo um romance passado no Japão. O aparente paradoxo de que homens poéticos pudessem ser imprudentes em um mundo voltado para a razão e de decisões refletidas se desfaz no ato de reconfigurar a linguagem na criação poética que em si é um risco, uma imprudência se expondo a vulnerabilidades. E mais, lembremos que o romance ocorre no Japão em que a essência poética sai da lógica binária do ocidente, a vida em si é uma impermanência na melancolia da transitoriedade e na luta contra si mesmo, o amor é imanente refletido no wabi-sabi , e pela transitoriedade de tudo na passagem do tempo.
Um romance de contrastes intensos na forma da linguagem e que sutilmente nos envolve no estrito ritmo narrativo expondo contrastes entre o belo e o feio, diria maldade, na essência humana. O local é um vilarejo aos pés do monte Fuji junto a floresta de Aokigahara Jukai, a floresta dos suicidas, que realmente existe com um dossel de grandes árvores causando desorientação. Ali os suicidas atavam fios coloridos marcando o caminho conforme adentravam, de tal forma que, ao meditar sobre a própria existência, caso desistissem pudessem regressar; junto à orla da floresta Saburo, o oleiro, cuidava de flores que a natureza rude da floresta prescindira, e essas flores demoviam os suicidas da morte. Por seu vizinho Itaro ter por três vezes anunciado que previra que um animal mataria sua mulher Fuyu, ele media forças com a floresta estendendo o jardim, na esperança de amansar as bestas selvagens.
Em contraponto Itaro, o artesão, pinta leques e tem uma jovem irmã cega e matura a miséria da vida, aos poucos em vez de se deixar seduzir pelas belezas e pela paz, se amargura pisoteando as flores, os insetos, procurando entender as cores como realidades tangíveis e buscando mensagens como arúspice, na vontade de ferir apenas recebia tristezas. Matsu, a irmã é o fiel de equilíbrio apesar de sua situação, transborda alegria diante da miséria de sua existência, a escuridão em que vive é a metáfora do enigma da vida não se apegando ao evanescer dos momentos. Quando a criada Kame gritava Musumê (filha) onde estás? Matsu respondia – no teu coração. E em certo momento Matsu diz: ”meus brinquedos são as palavras, persigo o encantamento de que são capazes”. Essa afirmação como prosa poética é a pérola oculta na história de uma total escuridão que atinge seu auge na lenda do poço. Digo eu, afinal o que é a palavra? É o coração que lhe dá voz, que lhe empresta a alma.
Itaro é aconselhado por um monge sábio que chega na aldeia como uma sombra vertical imaterial a ficar sete dias e sete noites no fundo de um poço como “no ventre puro do Japão”, sem mortes e sem erros para expiar seus fantasmas; o aprisionamento equivale à cegueira de Matsu já que é forçado a enfrentar seus próprios temores. Esses temores não só perpassam Itaro, mas todos os aldeões , são fumaças que se materializam como o kiri da mitologia japonesa, o véu entre o mundo material e o espiritual, o esconderijo de Yokai espírito dos mortos e das criaturas monstruosas da ilusão como habitantes das florestas.
E assim os personagens buscam a normalidade, porém a normalidade era impossível. E a realidade era sem maior fantasia. Para isso o autor intitulou vários capítulos fundamentais como lendas, a do oleiro, do poço, da cega, e não o fez por acaso, as lendas no folclore japonês são fundamentos na identidade cultural, formas de transmissão de valores morais e de explicar fenômenos da natureza, alguns terríveis para serem respeitados e viver em harmonia.
Um romance curto em suas 179 páginas que condensa a poesia do mesmo modo que nos haikai, fazendo pensar tal como nos folhados portugueses com múltiplas camadas, e que Laurentino Gomes em seu prefácio adverte “um livro para ler sem pressa, e para reler muitas vezes”.
