Meu maior leitor (Hilton Görresen)

Meu maior leitor

Hilton Görresen

 

Foi uma notícia triste. Aposentado, ele complementava o orçamento trabalhando no Giassi, como assistente, recolhendo carrinhos no estacionamento, entre outras coisas.

Não o via há alguns dias. Então resolvi perguntar por ele a um dos colegas:

–Onde anda o seu Ildemar?

Ele me olhou com jeito compungido e respondeu:

– O Ildemar faleceu faz um mês.

Essa notícia ficou me incomodando durante todo o dia. Ele foi, não resta dúvida, o maior leitor de meus textos. Um leitor fiel, desde os tempos em que eu publicava em outro jornal diário. E não era só isso: sublinhava com caneta vermelha alguns trechos e trazia o recorte de jornal no bolso. Quando me encontrava, vinha sorridente, me cumprimentava com a gentileza que lhe era peculiar, e passava a comentar, com os olhos brilhando, aquelas passagens do texto. Dava sugestões, conversávamos sobre História, área que ele gostava de pesquisar.

Era moreno, magro e usava óculos. Nunca o encontrei triste ou contrariado. No mercado onde trabalhou anteriormente, conhecia os clientes pelo nome e os cativava com seu jeito prestativo. Acho que deveriam colocá-lo como relações públicas da empresa.

Desconheço por que deixou o emprego anterior, mas tenho certeza de que isso não foi por nenhum motivo desabonador. Se existe céu, esse já deve estar lá.

Ildemar, se de algum modo você puder tomar conhecimento desta mensagem, saiba que tive a maior honra em tê-lo como leitor e principalmente como amigo.

 

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