Da arte poética (Walter Guerreiro)

DA ARTE POÉTICA

Walter Guerreiro

 

Dentre as várias formas de manifestação artística literária a poesia é considerada o ápice ao utilizar a palavra em sua máxima potência de manifestação, musicalidade e ritmo indo além do sentido literal ao criar imagens mentais, símbolos e metáforas despertando profundas emoções. A poesia é a essência do conteúdo artístico, da criatividade que pode estar presente numa tela pintada ou écran, numa música, em um texto independente de sua estrutura, que quando o poeta assim o desejar, pode estar em sua estrutura formal no arranjo dos versos e estrofes eternizados no registro físico.

Contudo, embora eu seja um leitor voraz dificilmente me debruço a ler poesias por uma razão: são inúmeros os poetinhas e poetastros, melosos e desenxabidos, uma praga que assola as prateleiras se aventurando no mister, raras, raríssimas as poesias resultantes de algum valor.

Abro aqui um parêntese para o poeta Joaquim Cardoso (1897-1978) para Niemeyer, “o brasileiro mais culto que existia”, engenheiro estrutural, poeta, contista, dramaturgo, tradutor, fluente em quinze idiomas, desenhista, ilustrador, caricaturista, editor, professor universitário e crítico de arte. Ufa! Revolucionou a concepção estrutural do concreto armado através de seus métodos de cálculo, por exemplo as bases da Catedral de Brasília que apenas tocam o solo como agulhas que se erguem aos céus, e sobre isso disse: “não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias” Conviveu com poetas modernistas como João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira afirmando: “eu não sou bem um poeta. Minha vida é que é cheia de hiatos de poesia”.. Publicou onze livros, dos quais o inaugural foi “Poema” prefaciado por Carlos Drummond de Andrade. Vejamos “Riscos para um cartão de rendeira” incluso no livro “Poemas completos” de 1971 em que evoca a estrutura geométrica e a estética no trançar dos fios, o som do entrechocar dos bilros balouçantes, o movimento ritmado das mãos e o deslizar dos fios ganhando vida na lírica da poesia.

 

Os bilros cantam tecendo

Caprichos de renda branca,

Com meandros e meneios

De folha de mamoeiro;

Rastejos na areia solta,

Volteios na espuma branca.

 

Os bilros dançam tecendo

Requebros de saia branca;

Pêndulos de sombra fina

Nas palmas de um dendezeiro;

Para o lá e para o aqui

Que leva e traz vela branca.

 

Os bilros cruzam, tecendo

Um voo de garça branca…

Tão leve! Um sonho? Deixado

Na fronha de um travesseiro;

Um sonho. Linhas de um sonho

Fiadas de uma nuvem branca.

 

Os bilros contam, tecendo,

Segredos de moça branca

Que em sal se chorou no mar

De tanto amar marinheiro;

Tanto sal, tanto chorou

Que se fez salina branca.

 

Os bilros param. Tecendo

Durezas de pedra branca.

Gravando em letras vazadas

O mesmo adeus derradeiro;

_ Vazio amanhã: sem dia.

_ Futuro: saudade branca.

 

Esse poeta sim, com suas palavras ficará vibrando nas cordas do Infinito.

 

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