De que são feitas as mães? (Donald Malschitzky)
De que são feitas as mães?
Donald Malschitzky
O plasma que se molda por milhões de anos , os ventos compartilhados, o calor que armazenam através dos tempos e aquela chama inconclusa que se chama esperança ou futuro ou incerteza ou incoerência que os habita enquanto o pó do cosmos descansa em seus corpos, tudo é dos dois; as escarpas e as colinas, as praias e as ondas, as florestas e os desertos, tudo é deles. O cinzel que os esculpe é o mesmo, assim como a vontade do artista e o sopro que os insufla.
Compartilham caminhos e labirintos que procuram desvendar e constroem sonhos que adivinham nos olhos do outro. Escalam e escorregam, gargalham e sofrem, correm e tropeçam e há vezes em que as mãos se soltam e as vias se separam para se reencontrar lá na frente com outros pés e outras pegadas para compartilhar, mas sempre são e sempre serão a mesma matéria, o mesmo sopro, a mesma anima emprestada do infinito, ainda Alfa e ainda Omega.
Até o mistério ser desvendado, há, em algum jardim oculto aos olhos dos caçadores, um pólen que suaviza, enternece, que arredonda sem enfear, que faz repintar os traços, que acarinha contornos. Descobrem-no as mulheres ― e apenas elas ― quando a semente chega aos seu colo, seu regaço e cresce até sua aurora, uma aurora que tem outro tempo e outra trajetória. Há outras que, por abrirem caminhos, também a vislumbram e, mesmo sem a semente acarinhada, transmutam-se de mulheres para mães e recebem a vida já pronta, mas necessitada de tudo que só elas podem dar.
Conservam o mesmo sopro, não rejeitam o plasma de sua transformação primeira, mas se transformam: seios viram vida, quando podem, ou aconchego infinito, quando não; mãos são escoras e guias e bálsamo; braços são abrigo e armadura; colo e aconchego, presente e carinhoso; voz é canção de ninar e brado de incentivo e é chamado viajante no espaço, sempre ao alcance do coração.
Disso são feitas as mães: do amor superlativo. Por isso não as alcançam os homens.
