O melhor remédio (Donald Malschitzky)
O melhor remédio
Donald Malschitzky)
“De amarga, basta a vida”. Acrescentemos: “Se a fizermos amarga”. Basta um pouco de empenho para encontrar pessoas que, com ou sem pretextos, pouco ou nada sorriem. As desculpas abrangem: “Já sofri tanto nessa vida” a “Rir de quê?”
Confundem alegria com irresponsabilidade e usam a confusão para aprimorar seu mau humor. Fecham-se até se tornarem insuportáveis. De olhar opaco, falta-lhes sentir o lado brilhante da vida, o lado divertido, peculiar e desafiador de cada situação. Tudo é problema, e problema nunca é desafio, mas sisudez, mau humor, num círculo autossustentável de “desgraça pouca é bobagem”. Se bem analisada, a solução poderia ser não um círculo, mas um circo ou um palhaço dentro dele; um palhaço que ri de si mesmo, e das coisas enfrentadas com demasiada seriedade no dia a dia.
Além da carga de amargura que leva o destempero e o desespero a se instalarem nas mochilas carregadas, a demasiada seriedade com que alguns encaram os momentos que nos emprestam as brisas de cada dia tem um papel fundamental. Rir não significa debochar ou menosprezar a filosofia ou a religião, por exemplo, mas, sim, comprometer-se com a vida em sua essência. Levar-se a sério demais não é, necessariamente, sinal de respeito, mas de incompetência.
“Ridendo castigat mores”, diziam os romanos. Não tem nada a ver com castigar os mouros, como alguém tentou me ensinar, mas em menosprezar a hipocrisia dos costumes que se reveste de uma seriedade cerimonial que não resiste a qualquer análise mais profunda e, menos ainda, ao riso.
Brincadeiras são excelentes ferramentas de difusão do riso e, por isso, são alvos da “sacra seriedade”, da ignorância e da burrice, essas, sim, usinas do mau humor e, consequentemente, da tristeza.
Às vezes vale a pena correr o risco de ser mal interpretado do que ser mais um a pintar a vida com amargor. “Rir é o melhor remédio”, diz a boa ingenuidade popular, que também ensina: “Quem canta seus males espanta”. afinal, cantar, mesmo desafinado, é uma forma mais profunda de rir para a vida, e rir é encarar a vida com seriedade, a verdadeira.
