Texto-presente para Paulo Roberto da Silva (Marinaldo Silva)
TEXTO-PRESENTE para PAULO ROBERTO DA SILVA
Marinaldo de Silva e Silva
O menino Paulo, paulatinamente, procurava em mapas os lugares imaginários que surgiam, aos olhos dele, criança, diante de lugares com nomes tão peculiares como se guardassem dentro deles todas as fortalezas do mundo.
O menino Paulo, paulatinamente, brincava com palavras em desuso, trazendo-os para o dia a dia, em sinfonia com as canções que ouvia entre uma fala e outra dos adultos. Palavras como diapasão, semibreve, clepsidra, pianoforte, munificus, Lebensfreude, se misturam à farinha de trigo, bolhas de sabão, triciclo, sonho, casa, vida, abrigo.
O menino Paulo, mais crescidinho, deu a brincar de ser guarda-livros. E começou a anotar os números da rua, das casas, das dobradiças, da areia, que movediça, deu a passar pela ampulheta! Deu a anotar, numa caderneta, as contas e as medidas da fazenda, do terno, do corte de tecido que sua mãe comprou para fazer seu primeiro terno. E passou a ver como fraterno, toda somatória e todo número, e foi se enveredando pelo universo das anotações, das organizações, dos registros.
Adolescente, Paulo começou a criticar as coisas. Deu a pensar no porquê disso e daquilo, descobriu a metafísica, a metamorfose, a simbiose, a física quântica, a palavra romântica, a dor do passarinho, o conforto do ninho, a sombra da inquietação. Deu a perceber o que era acerto, o que era erro, o que era entrega, o que era desterro, e começou a estudar sobre equinócios, solstícios, benfeitorias e malefícios.
Prescrutador, Paulo foi acrescentando simpatia em tudo. Foi invocando a harmonia, aliviando a palavra, anotando o voo da passarada, procurando registros da invernada, e de todas as outras estações, entendendo que tempo é vitória, e que é memória, e que é maior glória da divindade da vida. Foi guardando tudo, preservando palavras, seus caderninhos de anotação ficando cheios de palavras de persuasão, emocionais, definitivos. Suas estantes viraram provas, fazendo de novas, coisas antigas. Deu a preservar coisas nativas, estrangeiras, faceiras, coisas à beira do esquecimento, que ele faz questão de meninar.

