Texto presente para Walter, o Guerreiro (Marinaldo Silva)

Texto presente para Walter, o Guerreiro

Marinaldo Silva

 

            Ele sempre reparou nas ranhuras, nas dobradiças do tempo deixando registros em todos os espaços, acho que por isso chegou diante de tantos lugares importantes para contar a história registrada nos interstícios de construções, homens, monumentos. Escreveu, certa vez: “ lá ia eu para o canto da sala de aula sob o riso dos colegas, encabulado olhar para a parede. Os risos cessavam, e eu olhava para as rachaduras do reboco com a cal soltando… e me transportava para a Odisséia, quando Heródoto contava que os dóricos foram encontrados pela primeira vez em Creta, naquelas morros de arenito branco”. Ouvi-lo é aprender conceitos, é desvendar palavras que sempre geram poesia, tanto na morfologia de cada palavra, quando no transporte em que cada uma te encaminha para a sabedoria. Evolar o tempo, por exemplo, ele trouxe dentro de uma recordação contada. Tempus fugit poderia ser o título de algum livro de memórias, mas é mais uma interlocução que trouxe para falar sobre essa predisposição da vida em nos surpreender quando vemos que antes estávamos aqui, e agora, 275 palavras depois de começar essa leitura, já estamos lá.

Walter, o Guerreiro, nasceu Walter de Queiroz Guerreiro, é biologista, o que me faz acreditar que tem veneração pela natura, e que por isso aventurou-se pelo mundo, indo aos lugares mais distantes, daqueles que aprendemos a caminhar dentro dos livros, se tornando figura das mais importantes, seja nos arredores de Londres, nos corredores do Museu do Ipiranga, onde foi diretor, ou um curioso descobridor dos compêndios mentais de Fritz Alt, aqui em Joinville. Sinto que na infância tinha predisposição pela arquitetura, onde arquitetava ideias de brincar com deuses gregos e a andar com Hermes atrás de notícias benfazejas. Sua “letrologia” é poética, e reforça essa sensação quando lemos em sua escrita sobre uma coluna dórica, sobre o sustentar o peso da arquitrave, ou uma pulsante poesia de Cervantes quando ele fala sobre as linhas verticais no fuste.

            Menino ainda, Walter, o Guerreiro, era semideus da arquitetura, da história, da nomenclatura. Em meio ao tempo fugidio, escapava, e ia crescendo, menino nos olhos, sem perder o viço do olhar, e isso acontecendo a cada brecha percebida numa esfinge, a cada torpor numa coluna, fazendo de crianças, Ícaros, e de mulheres, Cariátides. Walter, o Guerreiro, anda, hoje em dia, muito discretamente pelos corredores dos lugares. Pouca gente sabe que esteve na planta de coliseus e nos arquétipos das Ágoras, de agora. Pouca gente sabe da sua sapiência, e pessoas como eu, que o escrevem, imaginam tudo isso com muita certeza ao ler a sua biografia, mas sem entender direito onde guarda tanta precaução com o que imortalizou, onde guarda tanta persuasão para defender a sua espécie. Essa espécie de gente muito educada, que cresce, não para impor seu conhecimento, mas para trazer um advento: ser um dos guerreiros da própria história. Essa glória de manter acesa, nos olhos, o menino de antigamente, historiando-se em suas próprias lacunas, para o legado de suas colunas do amanhã, e de outrora.

 

Walter Guerreiro

 

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